São Paulo é uma cidade conhecida pelos seus prédios cinza, ruelas preenchidas pelo asfalto e muros de concretos que separam não só um edifício do outro como também demarcam o direito à cidade para os mais variados grupos sociais. Em contrapartida, a arte de rua emerge com suas tintas e toda uma cultura que, muitas vezes, é incompreendida pela população. No início de 2017, a capital paulista foi palco de uma série de polêmicas envolvendo o grafite e o pixo – grafado com x mesmo – depois de João Doria assumir a prefeitura com a plataforma  “Cidade Linda” , cuja proposta de beleza envolvia o apagamento dessas manifestações artísticas.

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Entre prédios cinzas, a arte de rua se exibe na cidade de São Paulo

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A arte de rua não era uma prioridade na agenda da Prefeitura. Logo no início do mandato, Doria chamou atenção por apagar o grande mural da Avenida 23 de Maio, criando um Corredor Verde no local que, concluído em agosto de 2017 que, segundo a prefeitura, “tem quase seis quilômetros de extensão, 10.950 m²de jardins verticais e conta com 40 espécies de plantas”, que é considerada uma experiência “bem sucedida em termos paisagísticos e sensoriais para a cidade”.

Além disso, Doria sancionou também uma lei que definiu que novos grafites deveriam vir sob autorização da prefeitura na cidade e a multa para pixadores fosse aumentada, chegando a um patamar que varia entre R$ 5 mil e R$ 10 mil. As medidas geraram diversas polêmicas e debates na cidade de São Paulo e no mundo e reverberaram no universo da arte de rua. Consultada pela reportagem no início do mês, a Prefeitura de São Paulo afirmou no dia 24 de abril de 2018 que foram aplicadas 107 multas na capital com base na Lei 16.612/2017 em 2017. Esta informação é o motivo da atualização desta matéria.

Mais tarde, a Justiça chegou a intervir nas ações do prefeito, derrubando dois artigos da lei: um que dava permissão para a existência de uma “lista de barrados”, com nome de pessoas que não poderiam ser contratadas por órgãos municipais após serem flagradas praticando a pichação e outro que liberava empresas a firmar acordos de cooperação com o município para colocar placas publicitárias em locais de ação de pixo.

Agora, depois de um ano tão conturbado, João Doria deixa a prefeitura de São Paulo, fazendo-nos questionar: que legado sua gestão deixou para a arte de rua?

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O iG Gente foi atrás de interventores urbanos falar sobre o assunto para entender o que rolou depois de tanta polêmica e quais são as suas perspectivas para o futuro. Confira:

Grafite, debate público e o MAR

Durante o primeiro semestre, após as controversas da Avenida 23 de Maio, a Secretária Municipal de Cultura lançou o primeiro edital de Pintura de Rua, o MAR (Museu de Arte de Rua) que, segundo a assessoria, é “dedicado a valorizar e divulgar a arte urbana de São Paulo”. Para Binho, que pinta as ruas desde 1984, apesar do cenário conturbado, o edital foi uma conquista para a categoria.

“A gente conseguiu criar algo que era um beneficio para a comunidade de artistas após esse incidente tão desastroso. O edital já é uma busca antiga na verdade, mas houve a possibilidade de concretizar nessa gestão nesse tropeço”, comentou o artista ao iG Gente . Segundo ele, o surgimento do edital foi uma oportunidade para jovens artistas participarem de projetos organizados por produtores também iniciantes e a ideia é que, nos próximos anos, o edital possa se transformar em lei. “Assim como cinema, teatro, ter um edital específico para grafite ajuda muito”, opina.

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Acervo pessoal
O artista Binho

De acordo com a prefeitura, o lançamento do edital teve um investimento de R$ 460.000,00 e contemplou 16 projetos nas duas edições, envolvendo aproximadamente 200 artistas. Apesar das mudanças políticas no cenário da Prefeitura, a intenção é de que o projeto continue este ano e, a partir de 20 de abril, a Secretaria Municipal de Cultura recebe inscrições para a 3ª edição do MAR. “Eu enxergo esse momento como um momento mágico, um pouco pela parte de protesto que a cena do grafite se reinventou e a sociedade entendeu o grafite como parte importante da vida cultural da cidade”, comenta Binho. “Acho que toda essa reviravolta que tivemos com esse início talvez complicado ela também gerou possibilidades, de diálogo e mostrar a força da arte urbana em São Paulo e como ela influenciou todo o País”, completa o grafiteiro. 

Apesar do reconhecimento, Binho relembra a situação tensa que enfrentou no começo do ano passado. “Qualquer grafiteiro tem suas obras apagadas de forma natural, porque está envelhecido, por exemplo. É comum. O que não foi comum foi o uso de força excessiva e surgiu uma mobilização por parte da sociedade e da segurança publica para isso”, conta. “Acredito que hoje a polícia tem certamente problemas muito mais graves e muitas situações mais complicadas que a perseguição com jovens artistas”, completa.

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Acervo pessoal
Obra do artista no Beco do Batman, em São Paulo

Binho foi um dos artistas que tiveram suas obras apagadas durante o início da gestão do prefeito. Entretanto, no caso dele, o incidente aconteceu no Beco do Batman, região da Vila Madalena e foi uma ação realizada por um dos moradores locais. Segundo ele, o morador estava irritado com uma série de acontecimentos mal resolvidos na região que culminou no apagamento da sua obra. “Eu busquei um diálogo com ele e ajudei muito com a ligação com a subprefeitura para fazer com que as necessidades dele fossem atendidas”, relembra.

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Cidade Linda também é cidade pixada

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Acervo pessoal
O diretor dos documentários PixoAção 1 e 2

Se por um lado o grafite entrou em pauta, o pixo acabou sofrendo uma maior represália depois das políticas implantas da gestão do prefeito, como conta Bruno Rodrigues, diretor dos documentários PixoAção 1 e 2 e interventor urbano. “O que aconteceu foi que teve uma maior repressão, não só da polícia, mas também por parte dos moradores. Isso deu para sentir porque todo mundo ficou com aquela impressão de que o governo legitimando você denunciar, você fazer justiça com as próprias mãos”, conta o artista.

Apesar de muitas vezes o pixo ser alvo de polêmicas nas discussões sobre as relações da população com a cidade, Rodrigues relembra o significado da pixação, o por quê ela é importante e como ela dialoga com a capital paulista. “Se pegarmos a história desde o começo, compreendemos que a questão é sair da invisibilidade. De ser visto, ser lembrado”, comenta. “Com o passar dos anos o pixador vai amadurecendo, vai ter esse reconhecimento social entre os amigos, vai conhecendo toda a cidade, entendendo os conceitos que a pixação carrega e começa a reivindicar e protestar utilizando dos muros como suporte de denúncia”, explica relembrando, inclusive, do pixo “Fora Temer” e “Pixo é Arte” realizados no Terminal da Bandeira durante a época que as polêmicas emergiram na Capital.

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Acervo pessoal
Obras da exposição "Cidade Linda"

Diante do ano conturbado para a arte de rua, Rodrigues colaborou com a organização da mostra “Cidade Linda”, realizada no espaço de arte e cultura SUB, na região do Butantã em janeiro deste ano. “A nossa ideia foi justamente em todos esses anos de estudo, essa transição do pixo em relação à arte e também aproveitando o prefeito nas mídias e debate eleitoral, colocar mais em evidência esse lado artístico do pixador”, comenta. A mostra foi montada com obras de pixadores e grafiteiros que já possuem uma longa caminhada na arte de rua e, para Rodrigues, também foi uma maneira de mostrar “não só o que é questionado em parte de transgressão, mas também mostrar o lado mais artístico, mais cultural que tem todo esse movimento”, explica. 

É válido lembrar que, durante o início da gestão de Doria no ano passado, a Secretaria de Segurança Pública afirmou que policiais do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) iriam atuar contra grupos de pixadores na cidade. O Deic é especializado em investigações contra crime organizado e, até então, a pixação está enquadrada apenas como crime ambiental.

Daqui pra frente

Apesar das mudanças, Binho conta que a relação do grafite com a cidade sempre foi bastante complexa. “Sempre que troca de governo, quando você sai de uma plataforma e entra com uma característica higienizadora, ou seja querendo limpar a cidade, o grafite passa por esse processo. Foi assim na era Kassab e não seria diferente agora”, comenta, relembrando as ações do ex-prefeito na cidade que também trouxe a ideia de “limpar” a capital paulista como um dos seus principais eixos políticos. Entretanto, para Binho, a discussão que emergiu no último ano abriu portas para a visibilidade do grafite enquanto arte. “As pessoas se sentem um pouco donas desse acervo que estava na rua, mesmo que seja mutante, que seja efêmero. Quando ele sofreu aquela agressão na 23 muitas pessoas se sentiram agredidas, não só os artistas, mas várias pessoas”, comenta.

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Acervo pessoal
Cena do projeto "PixoAção"

Bruno Rodrigues, por sua vez, relembra a época da dupla Juneca e Pessoinha na década de 1980. Quando Jânio Quadros assumiu a prefeitura da cidade, em 1986, uma de suas principais demandas era a prisão de Juneca, com o intuito de acabar com as pixações pela cidade.  “A mesma coisa aconteceu na era Kassab e Dória agora. Na verdade, isso trouxe mais vontade de ir contra o sistema então não podemos dizer que essas políticas sejam efetivas”, comenta.

Para ele, a saída do prefeito da cidade pode fazer com que a repressão contra o pixador no Estado aumente, mas Rodrigues garante: “ele já fez todo esse alvoroço de marketing usando essa política contra arte de rua e ao meu ver não mudou nada, pelo contrário assim teve mais pessoas interessadas em ir pra rua. Alcançando o governo do Estado pode ser que ele consiga avançar um pouco mais no que ele planejou, mas não vai ser a um ponto de exterminar com o pixo”, completa o interventor urbano.

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