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Momento faz a indústria cinematográfica olhar para as mulheres na frente e atrás das câmeras e buscar representatividade na indústria

Faça um teste rápido: qual foi o último filme que você assistiu com várias mulheres no elenco? O que essas mulheres falavam entre si? Quais as suas ambições? A resposta mais provável para essas perguntas é que elas falavam sobre homens e pautavam sua vida entre estar ou não solteira. É verdade que temos bons exemplos de histórias sobre mulheres, mas só usando os indicados ao  Oscar de Melhor Filme como exemplo, há apenas três tem mulheres como protagonista, e em apenas dois, “Lady Bird” e “A Forma da Água”, elas tem conversas significativas com outras mulheres. Mesmo com o impulso de filmes como “ Mulher Maravilha ”, 2017 teve um número menor de mulheres protagonistas em relação a 2016.

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Greta Gerwig orienta Saoirse Ronan e Timothée Chalamet durante as gravações de Lady Bird
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Greta Gerwig orienta Saoirse Ronan e Timothée Chalamet durante as gravações de Lady Bird

Se esse é o cenário na frente das câmeras, imagine nos bastidores. Usando o mesmo exemplo de “ Lady Bird ”, que é dirigido, escrito e produzido por mulheres , a equipe total conta com apenas 33% da equipe feminina. “Uma coisa que a gente lida é que seu chefe é sempre um homem. Você não consegue falar em uma reunião, e é difícil peitar isso, reclamar”, comenta a roteirista Bárbara Harrington, professora da Roteiraria. Bárbara explica que, em suas aulas, tenta equilibrar o número de homens e mulheres, mas que, no geral, é mais difícil para a mulher ser ouvida.

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Realidade

Juliana Soares, da Gullane:
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Juliana Soares, da Gullane: "Para as mulheres entrarem na roda, alguém precisa coloca-las”

Como fazer esse cenário mudar? “Para as mulheres entrarem na roda, alguém precisa coloca-las”, comenta Juliana Soares, roteirista e produtora criativa da Gullane. Juliana é responsável por coordenar o departamento de desenvolvimento de projetos e tem o primeiro contato com o material que chega, ou que é desenvolvido na casa. Juliana explica que para mudar a roda, o primeiro passo tem que vir das próprias mulheres, primeiro em acreditar no seu potencial, e segundo em buscar o talento de outras mulheres. “As mulheres que têm posição de liderança devem fazer disso um mantra e estar sempre reforçando: vamos olhar as mulheres”. E é isso que ela tem feito. Juliana comenta sobre um grupo no WhatsApp só com mulheres que trabalham com audiovisual e que buscam indicações de outras mulheres na rede.

Debate

Se o que vemos na tela e por trás dela não reflete o mundo, afinal as mulheres representam metade da população mundial, o debate e o questionamento do por quê das coisas serem assim também é necessário. “O audiovisual é um meio para falar de questões de representatividade e pensar em questões que são pouco representadas e pouco faladas”, comenta Iole Melo, produtora de conteúdo, social media, profissional em Estudos de Mídia e criadora do podcast “ As Mathildas ”.  Ela criou o programa em 2016 para debater sobre filmes e o papel da mulher no audiovisual. Só com mulheres, ela conta com a colaboração de Grecia Baffa, comunicadora, semióloga e produtora de conteúdo.

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Iole Melo, criadora do podcast
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Iole Melo, criadora do podcast "As Mathyldas": "A estamos em um caminho sem volta. As coisas têm que mudar"

Ambas escrevem sobre cinema no site Cinem(ação) e acreditavam que precisavam de uma plataforma que buscasse problematizar a representatividade na indústria cinematográfica. “Com o podcast as pessoas estão mais abertas a escutar”, comenta Grecia. Por isso, elas usam a plataforma para debater sobre o assunto e, por exemplo, analisar quantos filmes tem uma mulher gorda no elenco e o que ela serve a trama. “Gostamos de levantar polêmica” comenta Grecia, que acredita que discordar com as colegas de podcast é saudável. Para ela, ajuda o público a ter perspectivas diferentes e a formar sua própria opinião. “É um universo muito rico, e a pessoa pode discordar e concordar. Com o debate a gente cresce e quem escuta cresce junto”, completa Iole.

Finalmente, uma voz?

“Acho que nenhuma mulher pode dizer que nunca passou por uma situação dessa”, fala Juliana sobre sofrer assédio no ambiente de trabalho. “A cultura do assédio vem de muitas gerações”, completa.

Ela não é a única com essa opinião. Bárbara também acredita que quase todas as mulheres no meio já sofreram com isso, inclusive ela: “eu pensei em fazer uma lista de tudo o que tinha acontecido comigo”, contou.

Se a realidade parece desoladora para as mulheres, o futuro talvez seja menos doloroso. Entre otimismo e pessimismo, todas concordam que hoje as mulheres estão mais dispostas a falar, denunciar e impor sua voz e seu trabalho. E o efeito disso não é só na punição de assediadores, mas reverbera na voz das personagens criadas por elas. “Eu vejo que as mulheres não têm mais medo de falar sobre assédio, elas retratam personagens feministas e mostram o machismo em suas histórias”, conta Bárbara. Ela conta que a turma que está ensinando no momento está trabalhando em cinco roteiros: três sobre mulheres e outros dois voltados para o público feminino.

Juliana, da Gullane, também tem essa percepção. “Eu percebo que tenho mais oportunidade de me expressar e dar um novo ponto de vista, pelo momento e pela posição que eu ocupo”, comenta.

Grecia Baffa criou o podcast
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Grecia Baffa criou o podcast "As Mathildas" ao lado de Iole Melo: "nós, como comunicadoras, temos um trabalho de formiguinha para fazer"

“Nós, como comunicadoras, temos um trabalho de formiguinha para fazer”, comenta Grecia. A realidade do audiovisual hoje é que tudo é comandado por homens: produtores, diretores, roteiristas e câmeras, eles são sempre maioria nas produções, e a minoria nem sempre se faz ouvida.

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Mas boas iniciativas tem mudado essa perspectiva. A Conspiração Filmes, por exemplo, criou um núcleo exclusivo de mulheres, o Hysteria . Comandando, entre outras, pela diretora Carolina Jabor , o projeto visa criar e desenvolver produções com a ótica feminina, seja no conteúdo ou em quem o produz. Um dos resultados desse trabalho e a recém-lançada série “Desnude”, do GNT que aborda fantasias sexuais das mulheres. A produção é escrita, dirigida e produzida por mulheres, que eram maioria no set. “Estávamos todas juntas (durante a gravação), pois o objetivo era falar do prazer da mulher e sendo mulher fica mais fácil compreender”, comenta Carolina.

No set

Carolina Jabor, grávida, durante as gravações de seu primeiro longa de ficção,
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Carolina Jabor, grávida, durante as gravações de seu primeiro longa de ficção, "Boa Sorte" com a atriz Deborah Secco

Carolina, que já atua no audiovisual há muitos anos, fala que a proporção homem e mulher ainda é muito desequilibrada. “Quando tinha uma mulher no set, jovem, bonitinha, para se afirmar tinha que ser ousada, corajosa”, relembra. Ela, inclusive, não gosta da ideia de que “tem, que ser macho” para comandar um set. “Essa frase não faz sentido nenhum, e essa série prova isso”, comenta, exemplificando com o fato de que até as contrarregras, cargo normalmente ocupado por homens, eram mulheres.

Bárbara vai ainda mais longe: ela afirma que nos anos 1940 e 1950 as mulheres eram mais bem representadas no cinema (na frente das câmeras). Para fazer essa afirmação, considerando que no período as mulheres tinham bem menos direitos, significa que vivemos um momento bem obscuro. 

Me Too e os próximos passos

As denúncias contra o produtor Harvey Weinstein geraram um movimento sem volta, que tem potencial para fazer grandes mudanças em Hollywood . “Tudo o que aconteceu no ano passado serviu de lição”, comenta Grecia. Mas como fica daqui para frente? “Eu acredito que têm que mudar. Têm. Já estamos em um caminho sem volta. O bom é que não estamos mais caladas”, completa Iole.

E é justamente a ideia de que as mulheres não estão mais caladas que pode transformar o audiovisual. “As produtoras vão olhar com mais carinho, produtores vão buscar mais mulheres na equipe e elas vão se encorajar”, acredita Juliana. Aliás, o momento é mesmo de sororidade. Carolina Jabor também crê nisso: “as mulheres estão num momento de uma ajudar a outra”, comenta.

A mudança exige tempo e atenção de homens e mulheres na indústria. E o resultado pode não vir tão cedo. É otimismo demais dizer que em cinco anos teremos o mesmo número de diretores e diretoras, ou 50% de homens e mulheres na equipe de um set. Mas isso é uma tendência e esse momento vai chegar. Até lá, vale seguir o exemplo de Frances McDormand , ao ganhar o Oscar: olhe para essas mulheres , ouça suas histórias e saiba que elas têm algo de único para mostrar.

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