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Há polarização entre "A Forma da Água" e "Três Anúncios para um Crime" na disputa da principal categoria no Oscar, mas pelo menos outros três filmes reúnem boas chances de surpreender na noite deste domingo (4)

Desde que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood achatou o calendário para a escolha de seus indicados, promovendo mudanças organizacionais em todas as premiações que a antecedem, a categoria de melhor filme no Oscar ficou mais disputada. A influência dos sindicatos diminuiu e filmes com perfil diferente daqueles tradicionalmente classificados como “filmes de Oscar”. Um exemplo claro é o vencedor do ano passado. “Moonlight – Sob a Luz do Luar” não havia vencido nenhuma premiação prévia, com exceção do Globo de Ouro dramático e faturou a estatueta mais cobiçada do cinema naquela histórica e inesquecível gafe no palco do Dolby Theatre, em Los Angeles.

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Os indicados ao Oscar de melhor filme em 2018
reprodução/Hollywood Reporter
Os indicados ao Oscar de melhor filme em 2018

Nesse contexto, a disputa pelo Oscar de melhor filme em 2018 está mais aberta do que muitos pensam. A fábula fantástica “A Forma da Água” vem avalizada pelos triunfos no Critic´s Choice Awards e nos sindicatos dos produtores e diretores, enquanto que “Três Anúncios para um Crime” prevaleceu no Globo de Ouro, no SAG e no Bafta. A polarização está posta entre os dois principais pleiteantes na categoria.

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A favor de “A Forma da Água” seu caráter lúdico em um ano que a Academia se abriu para o cinema de gênero. O filme prega tolerância e afeto em uma época em que os EUA de Trump convulsionam em meio à desconfiança e raiva. Nesse sentido, “Três Anúncios para um Crime” parece ser o candidato perfeito. O filme de Martin McDonagh, que tem sete indicações ao prêmio, captura essa América embrutecida, mas também fala de perdão e compreensão.

Frances McDormand concorre pela quinta vez ao Oscar pelo seu papel em
Divulgação
Frances McDormand concorre pela quinta vez ao Oscar pelo seu papel em "Três Anúncios para um Crime". Ela já venceu o Oscar em 1997 por "Fargo".

McDonagh não está entre os diretores indicados e esse fato não é desimportante. Apenas três filmes em 89 anos de Oscar venceram o principal prêmio sem seu diretor indicado. Já “A Forma da Água” não foi lembrado na categoria de elenco no Sindicato dos Atores e apenas uma vez em 23 anos dessa premiação, um filme foi eleito o melhor no Oscar nessas condições. Para um dos dois se sagrar vencedor, uma dessas insistentes marcas precisará ser superada.

As potenciais surpresas

Há ainda nessa intrincada equação “Trama Fantasma” , filme que conquistou seis indicações e surpreendeu muita gentepelo espaço obtido na premiação, dado que o cinema de Paul Thomas Anderson não é considerado palatável para o mainstream. O filme, elegantérrimo, pode contabilizar votos de eleitores descontentes com toda a modernidade desses novos tempos da Academia. Não que seja um filme antiquado, o longa protagonizado por Daniel Day Lewis é original, oxigenado, belíssimo e fruto de rara inteligência emocional e intelectual.

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“Corra!” e “Lady Bird”, dois filmes muito festejados pela crítica, ganharam tração nas últimas semanas. Com quatro e cinco indicações respectivamente, as produções marcam as primeiras incursões de Jordan Peele e Greta Gerwig como cineastas e ambos estão indicados nas categorias de direção e roteiro. Esse amplo reconhecimento demonstra que os filmes têm apoio e podem se beneficiar, ainda, de elementos externos.

Cena de
Divulgação
Cena de "Corra!", junto com "Dunkirk", o maior sucesso comercial entre os indicados

“Corra!” , por exemplo, é uma sátira social inteligente e inusitada que mira no racismo velado e é um sucesso de bilheteria e crítica. Seria o segundo ano consecutivo em que um filme protagonizado por um negro triunfaria no Oscar. Feito igualmente irresistível, ainda mais em tempos de Times Up e Mee Too seria premiar o filme sobre o amadurecimento de uma adolescente escrito e dirigido por uma mulher ("Lady Bird").

Outros indicados

Pesa contra “Me Chame Pelo Seu Nome” , que ostenta quatro indicações, o fato de “Moonlight” ter ganho no ano passado. Apesar da beleza e da sutileza com que a história é desenvolvida por Luca Guadagnino, falta ao filme aquele aspecto potencializador que acadêmicos buscam em um vencedor de melhor filme.

Isso sobra em “The Post: Guerra Secreta” e “O Destino de uma Nação” , dois dos candidatos considerados ‘Oscar baits’ já que reúnem estrutura e predicados de filmes que tradicionalmente são lembrados pela premiação. Ambos, porém, parecem coadjuvantes na disputa deste ano.

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"Dunkirk", uma opção que pode atrair votos conservadores e liberais descontentes

Resta “Dunkirk” , o espetáculo de caos ordenado e sensorialidade cinematográfica de Christopher Nolan, um deleite de som e imagem com poucos diálogos e muita tensão. “Dunkirk” pode ser à opção que eleitores mais à esquerda e eleitores mais à direita surpreendentemente se encontrem. O fato do filme ser o único entre os indicados na categoria a não ostentar sequer uma indicação em categorias de atuação pesa contra suas chances. Apenas “O Senhor Dos Anéis: O Retorno do Rei” e “Quem Quer Ser um Milionário?” triunfaram nessas circunstâncias.

A desconcentração da disputa por melhor filme no Oscar é uma boa notícia, assim como o fim da influência irrestrita dos sindicatos na escolha. Mais do que premiar um bom filme, a Academia se volta para temas, status quo e o quanto esses filmes são queridos pela indústria. Na noite deste domingo, um deles ascenderá à eternidade.

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