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Globo de Ouro atípico antecipa tendência de temporada de premiações de alta combustão e posicionamentos políticos fortes. Mulheres serão destaque dentro e fora das telas

Em 2017, “La La Land: Cantando Estações” e “Moonlight - Sob a Luz do Luar” triunfaram nas categorias de Drama e Comédia ou Musical respectivamente no Globo de Ouro. A temporada já parecia restrita aos dois filmes, com um leve favoritismo para o musical dirigido por Damien Chazelle . Em 2018 os premiados foram “Três Anúncios para um Crime” e “Lady Bird: A Hora de Voar” , mas a corrida para o Oscar se encontra mais aberta e suscetível a mudanças de rumo.

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Globo de Ouro
"Lady Bird" foi premiado no Globo de Ouro


O primeiro componente tremula a indústria do cinema e diz respeito aos ânimos inflados por conta das inúmeras e cada vez mais escandalosas denúncias de assédio sexual envolvendo figurões de Hollywood. A convergência desse clima de pouca afetividade e muita animosidade com o liberalismo insuflado pela reação cada vez mais contundente ao governo Trump pode oferecer uma corrida pelo Oscar de grande rotatividade. Veja o Globo de Ouro como exemplo. A premiação da Associação dos Correspondentes Estrangeiros de Hollywood (HFPA, na sigla em inglês) costuma ser leve e bem-humorada. Bem diferente, em tom e ambiente, do que vimos no último domingo (7).



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Jessica Chastain em cena de
Divulgação
Jessica Chastain em cena de "A Grande Jogada"


Parece indesviável supor que o ambiente em Hollywood será decisivo para os rumos da temporada de premiações. O Oscar tem se mostrado sensível aos ruídos que ecoam em seu entorno, como demonstram as duas últimas edições permeadas por reações ao #oscarsowhite e à eleição de Donald Trump . Nesse sentido, o ano de 2018 pode ser pródigo em surpresas e no acirramento de certas disputas. Uma delas, por exemplo, diz respeito à categoria de direção. Greta Gerwig , que estreou na função com o elogiado “Lady Bird” já era cotada para ser uma das finalistas do Oscar e o atual momento impulsiona suas chances. Outro aspecto interessante será ver como os filmes protagonizados por mulheres – e eles são muitos – vão capitalizar em cima dessa tendência.

Meryl Streep
Divulgação
Meryl Streep


Diferentemente de outros anos, há profusão de concorrentes focados em personagens femininas. “ Eu, Tonya” , “Lady Bird: A Hora de Voar”, “A Forma da Água” , “Projeto Flórida” , “A Grande Jogada” , “Roda Gigante” e até mesmo “Três Anúncios para um Crime” e “The Post : Guerra Secreta”, que também acompanham mais personagens, mas têm mulheres como eixo central da narrativa. É possível supor que tenhamos um recorde de produções focadas em personagens femininas indicadas a melhor filme em 2018. A média anual, desde a flexibilização da categoria em 2011, é de duas por ano. Quando eram cinco indicados, a média era de um filme focado em personagem feminina. A última vez que um filme nesses termos venceu o Oscar foi em 1999 com “Shakespeare Apaixonado” . Antes disso? “Entre Dois Amores” em 1985.

Quando "Shakespeare Apaixonado" – filme promovido por Harvey Weinstein – ganhou o Oscar, os concorrentes eram “Elizabeth”, “A Vida é Bela” , “O Resgate do Soldado Ryan” e “Além da linha Vermelha” . Haviam dois filmes focados em personagens femininas. É pacífico que Hollywood produz mais ficados sobre mulheres – um efeito daquele pronunciamento emblemático de Patricia Arquette no palco do Oscar há três anos? – principalmente no cinema independente, mas passa pela relação da Academia com esses filmes a extensão de um processo tão pedagógico como afirmativo. Ano passado dois filmes focados em personagens femininas foram indicados a melhor produção do ano. “A Chegada” e “Estrelas Além do Tempo” , no entanto, não reuniam nenhuma chance sequer de vitória.

Margot Robbie em cena de
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Margot Robbie em cena de "Eu, Tonya"


A reação a Trump deve ser outro poderoso catalisador na temporada e deve favorecer o novo filme de Steven Spielberg , “The Post”, um elogio da liberdade de imprensa capitaneado por Meryl Streep e Tom Hanks. “Três Anúncios para um Crime”, também se fortalece sob esse prisma, já que é o primeiro filme a capturar a era Trump em toda a sua complexidade. Filmes que mimetizem um discurso político que calce a ocasião despontam em uma temporada que promete ser incendiária e emocionante. 

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