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Em um dos maiores acordos comerciais da indústria do entretenimento nos últimos dez anos, essa fusão acarretará uma série de consequências; confira

A Disney anunciou nesta quinta-feira (14) a compra do segmento de entretenimento da 21th Century Fox, um acordo bilionário e histórico para Hollywood . A venda já estava sendo acertada há alguns meses, especialmente depois de Rupert Murdoch passar o seu império aos seus filhos, James e Lachlan, há cerca de dois anos. Para a Disney, ainda que a compra da Fox acarrete também uma dívida de $13.7 bilhões, fazendo com que a empresa desembolse um valor ainda maior, o negócio tende a transformar a turma do Mickey Mouse em algo mais poderoso ainda.

A Disney anunciou a compra da Fox nesta quinta-feira (14); veja as consequências dessa fusão
Montagem
A Disney anunciou a compra da Fox nesta quinta-feira (14); veja as consequências dessa fusão

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Englobando uma das grandes rivais do cinema, a Fox , a Disney agora passa a comandar grandes franquias do cinema, como “Deadpool”, “Avatar”, além de programas de televisão e séries renomadas como “Simpsons” e “Modern Family”, aumentando ainda mais o leque do catálogo da empresa. Além disso, com a compra da Fox, a Disney fica à frente dos concorrentes no serviço de streaming. Agora, ela será a maior detentora das ações do Hulu, uma plataforma que faz bastante sucesso nos Estados Unidos. Confira as principais mudanças do audiovisual com a novidade.

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Aposta no streaming

A venda da Fox para a Disney não sinaliza apenas a potencialização da empresa diante do mercado mundial, mas também a ideia de que o streaming pode ser a aposta do mercado para o universo do audiovisual. Apesar da sétima arte ser bastante lucrativa para a Fox – um exemplo é o fato de que a distribuidora detém 27 filmes que foram indicados ao Globo de Ouro nesta semana – a família Murdoch resolveu abrir mão das salas de cinema no universo do entretenimento, mantendo apenas o enfoque nos negócios de notícias.

O longa
Barry Wetcher / Netflix / Divulgação
O longa "Okja" foi vaiado por ter sido exibido antes no serviço de streaming da Netflix

Os serviços de streaming ganharam bastante destaque durante o ano de 2017 com as suas produções originais, como aconteceu com a Netflix. Em maio deste ano, a obra “Okja” chegou a concorrer no Festival de Cannes. Entretanto, durante sua exibição, a produção foi vaiada por conta da revolta dos cineastas na ideia de se publicar filmes antes nas plataformas digitais e mais tarde nas salas de cinema. A situação gerou diversos debates polêmicos a respeito do assunto e do suposto conflito entre os dois tipos de consumo da sétima arte. Agora, parece que a 21th Century Fox abriu mão de trabalhar na área do entretenimento sob o mesmo formato.

Por outro lado, a Disney, que também movimenta bilhões pelas salas de cinema ao redor do mundo, busca unir o útil ao agradável. A empresa já anunciou que está considerando a criação de uma plataforma de streaming própria, em que possa disponibilizar o seu conteúdo. A decisão já fez burburinhos em agosto deste ano, quando a empresa anunciou que as novas produções deixarão de ser transmitidas a partir de 2019, quando seu novo serviço pretende chegar no mundo virtual. Esta plataforma será em modelo semelhante ao da ESPN, canal que também já faz parte do império do Mickey Mouse.

Entretanto, com a compra da Fox, a empresa promete chegar com o novo serviço batendo de frente nos seus concorrentes. Apesar da Disney já ter ações no serviço Hulu, com a compra da Fox também vieram as suas ações na plataforma, tornando a empresa a mais influente. As outras empresas que comandam as ações do Hulu são a Comcast/NBCUniversal, detentora da Universal Studios e Time Warner, que por sua vez engloba a Warner Bros. Assim, a Disney divide um mesmo serviço com suas concorrentes que provavelmente não cederão tão fácil as ações que possuem para a rival. Ainda que as decisões diante do Hulu devam ser tomadas com acordos de todos os envolvidos, o que limita a Disney de fazer grandes mudanças na plataforma, segundo Tim Nollen, analista da Macquarie Capital, em um relatório publicado antes do acordo ter sido revelado, “possuir um segundo grande estúdio poderia ajudar a Disney a construir sua plataforma de streaming durante o lançamento em 2019 com mais conteúdo e possuir uma participação majoritária na Hulu daria ao controle da Disney deste serviço SVOD (Vídeo On Demand)”.

Sucesso de crítica nos EUA,
Divulgação
Sucesso de crítica nos EUA, "The handsmaid's Tale", é uma produção original do Hulu

É válido ressaltar que “The Handmaid’s Tale”, vencedora do Emmy Awards é uma produção original do serviço de streaming que agora está sob comando majoritário da Disney. A plataforma ainda é pequena comparada as gigantes Netflix e Amazon e segundo o CEO da Disney, Bob Iger, “nós poderemos não só fluir mais conteúdo em direção ao Hulu, mas essencialmente tendo o controle para ampliar o gerenciamento da Hulu para tornar-se um pouco mais evidente, eficiente e eficaz com um controle acionista”, escreveu em um artigo mencionado no The Hollywood Reporter . Sendo assim, é uma oportunidade para a empresa de também crescer.

E o conteúdo?

A fusão da Fox com a Disney, entretanto, não traz mudanças apenas no mercado do entretenimento, como também no próprio entretenimento que é colocado dentro deste mercado. A primeira mudança – e talvez mais comentada – é a união de personagens em uma mesma história. A Disney agora passa a obter os direitos de franquias como “X-Men”, “O Quarteto Fantástico”, “Deadpool” e “Avatar” ,fazendo com que personagens da Marvel possam se encontrar com esses outros heróis. “Trazer a Disney e a Fox juntas combinarão algumas das franquias de entretenimento mais icônicas do mundo”, afirmou Bob Iger à Variety. Atualmente, a Disney já tem no seu leque de produções personagens da Marvel Studios – exceto pelo “Homem-Aranha” que está nas mãos da Sony Pictures – além da Lucasfilm, que rendeu as novas histórias de “Star Wars” nos cinemas. Inclusive, para esta franquia, a compra da Fox também é um bom negócio pois até então a empresa possuía os direitos do primeiro capítulo da série produzido em 1977 – e que agora estará nas mãos da Disney.

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Agora o anti-herói
Reprodução
Agora o anti-herói "Deadpool" faz parte da Disney

Entretanto, outro lado desta fusão preocupa os fãs de cinema. Com incorporação das produções da Fox na Disney, resta saber se elas continuarão tendo autonomia diante da empresa. A Disney Studios possui uma linha de produção de entretenimento muito homogênea que reflete, inclusive, nas novas versões de “Star Wars”, quando comparada as suas originais. Além disso, a Fox também é detentora da Fox Searchlight, que se dedica a produção de filmes independentes e originais, muitas vezes com um orçamento mais baixo comparado aos grandes nomes de Hollywood. Sendo assim, com a Disney no comando, o futuro desse braço da Fox fica incerto, o que pode ser um aspaceto negativo para a indústria que poderá perder um pouco da sua diversidade anualmente - um risco que os próprios heróis da Fox também correm agora com a incorporação na Disney.

Novos mercados

Para a Disney, o acordo parece só ter benefícios para sua inserção no mercado internacional – e agora com a Fox em jogo as coisas podem ampliar para a Europa e a Ásia. No oriente o império de Mickey Mouse já é grande por si, rendendo bons milhões com as suas produções. A empresa chegou até mesmo a produzir um filme indiano, “Dangal” (2016), que apesar de ser recente foi a penúltima produção local da empresa que agora aposta em concentrar na UTV, emissora indiana, as produções hollywoodianas. Em contrapartida, a Star India, um canal da Fox, está indo bastante bem no pacífico, uma chance da Disney aterrissar seu conteúdo na televisão agora. O mesmo acontece na Europa, onde a Fox tem uma grande participação na empresa de televisão Sky, prometendo ampliar e consolidar o império no Velho Continente.

Disputas com o governo

O governo ainda avaliará essa grande transação
Drew Angerer / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP
O governo ainda avaliará essa grande transação

Apesar da compra da Fox estar bastante ligada à indústria e ao mercado do entretenimento, o governo dos Estados Unidos também é um dos agentes que está disposto a participar desse grande e histórico negócio. Segmentos antitruste, ou seja, que buscam impedir a fusão de várias empresas que buscam dominar determinada oferta de serviços, tem alertado o governo sobre a transação. Recentemente a companhia de telecomunicações AT&T dos Estados Unidos estava abrindo negócios com a Time Warner, mas chegaram a ser impedidos por ter sido considerado uma truste vertical – de empresas de diferentes segmentos – comandando toda uma oferta de serviços, comandando todo um mercado.

Agora com os grandes estúdios tendo diminuído de seis para cinco depois da venda da Fox para a Disney, resta saber como as negociações vão se desenrolar sob o olhar do governo. O CEO da Disney, Bob Iger, comentou nesta quinta (14) ao “Good Morning America” que “nós estamos esperando que o governo olhe isso sobre uma perspectiva de consumidor”, já que a nova companhia “vai criar mais conteúdo de qualidade em uma base global e entregar para os consumidores isso em caminhos mais excitantes”, aguardando que a transação seja vista como uma “combinação positiva”. Resta agora só aguardar para ver como é que esse novo empreendimento vai se desenrolar – não só nos Estados Unidos, mas pelo mundo inteiro.

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