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Anos depois de seu surgimento, o ritmo vindo das favelas - principalmente as cariocas e paulistas - passou de massacrado pela crítica à dono das baladas

Em quase  duas décadas de existência na música brasileira , o funk continua oscilando entre a adoração e o repúdio pelos ouvintes. Verdade seja dita que, nesse período, o ritmo renovou, inventou e hoje ultrapassa as barreiras das comunidades onde surgiu e chegam às rádios e televisões de todo o Brasil, adentrou, inclusive, às baladas "de playboy" como ritmo de uma moda crescente e bastante popular. 

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O iG Gente conversou com alguns nomes do funk sobre a evolução do funk nos últimos anos
Instagram / Valesca Popozuda e MC KS e Facebook / Mano DJ
O iG Gente conversou com alguns nomes do funk sobre a evolução do funk nos últimos anos

"Hoje o funk é conhecido como um movimento de pensadores e a discriminalização é menor", afirmou Mr. Catra - funkeiro carioca que faz sucesso nas pistas há anos. O "papai" bateu um papo exclusivo com o iG Gente sobre a evolução do ritmo nas últimas decadas. Além dele, MC KS contou um pouco mais sobre sua recente carreira como funkeiro, Valesca Popozuda mandou a real sobre seu papel como mulher no funk e dona de hits superfamosos e Mano DJ contou mais sobre a rotina de um produtor do meio. 

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"A Fábrika"

Veterano das pistas e dono do conhecido vozeirão que embala os bailes não apenas do Rio de Janeiro, mas por onde passa ao redor de todo o País, Mr. Catra acredita que, hoje, o funk é melhor aceito pelo público e que, no futuro, ele acabará se unindo ao hip hop americano. "O funk representa uma cultura brasileira autêntica, com uma música dançante que contagia. Se você prestar atenção nos números dos cantores de hip hop, os funkeiros já estão os alcançando", completa. 

Hoje o músico aproveita de sua experiência e respeito pelos companheiros no cenário do funk e investe em descobrir novos talentos que estão começando na música com o projeto " A Fábrika" - um espaço que hoje recebe cerca de 20 jovens na Zona Leste de São Paulo . "Esse é um projeto muito importante porque mostra a identidade de cada um dentro do movimento. Mostra a cara do cidadão funkeiro", comenta o entrevistado. 

O veterano Mr. Catra incentiva jovens talentos do funk por meio do projeto
Instagram / Mr. Catra
O veterano Mr. Catra incentiva jovens talentos do funk por meio do projeto "A Fábrika"


"A Fábrika" nasceu de uma parceria entre o cantor e seu empresário, Alex Calil , e tem como principal objetivo ajudar as pessoas que sonham em seguir carreira artística no funk, mas que por falta de direcionamento ou oportunidades financeiras, não conseguem uma oportunidade de dar continuidade ao seu desejo.

O projeto funciona realmente como uma fábrica de novos talentos na música em que os novatos têm a possibilidade de treinarem não apenas a voz, mas sua postura em cima dos palcos e como administrar sua carreira. "A gente tem uma primeira conversa, fazemos palestras para eles, damos aula de música, de canto, apoio de empresários", comenta Catra.

O espaço fica aberto aos jovens durante toda a semana, com horário de funcionamento das 11h às 19h. Para fazer parte do projeto, cada integrante passa por uma avaliação e, se estiver de acordo com a temática proposta, inicia as atividades no local.

"Hoje o funk quer deixar as pessoas alegres"

Diariamente aparecem novos nomes com ritmos chicletes que não desgrudam da cabeça e encabeçam o topo das listas em aplicativos de streaming e rankings de visualizações no Youtube. Entre eles aparece MC KS, jovem nascido no bairro de Guaianazes, na Zona Leste de São Paulo, e que, já atinge quase os 34 mil seguidores no Instagram. "Hoje tenho 22 anos, mas comecei no funk por acaso quando fiz uma música para um trabalho da escola quando tinha 15 anos", ele conta. 

O jovem MC KS é um dos novos nomes do funk brasileiro
Instagram / MC KS
O jovem MC KS é um dos novos nomes do funk brasileiro


KS também faz parte do projeto "A Fábrika" , de Mr. Catra, e enxerga no funkeiro uma inspiração para sua carreira: "ele está há bastante tempo na mídia e me inspiro muito nele por tudo o que ele fez pelo funk no Brasil", diz o dono do hit Hipnotizar , que teve seu clipe produzido pelo grande nome dos batidões, Kondzilla, e já está chegando a quase 2 mihões de visualizações no Youtube. A música - assim como outras que bombam entre os adoradores do ritmo - fala de alegria, farra e, claro, mulheres. 

"Gosto de passar alegria com minha música e mostrar que todo mundo pode fazer o que quiser, curtir, dançar, desde que não faça nada errado". Para ele, a música que sempre teve temas controversos entre a crítica e, muitas vezes, chegou a ser acusada de apologia ao crime e objetificação da mulher, não influencia os ouvintes a terem nenhuma atitude específica. "Tudo depende da consciencia da pessoa e da educação dos pais", afirma.

Dono do baile

Morador de Heliópolis, em São Paulo, em 2007, Wanderson Cardoso de Oliveira, mais conhecido como Mano DJ , começou no comando das pickups dos bailes funks e, desde 2010, trabalha como produtor musical no cenário originário da periferia. "Hoje o ritmo do funk  mudou e se aproximou muito ao trap - ritmo com batidas mais graves", conta o músico.

Mano também foi o responsável por ter descoberto alguns talentos que estouraram no mundo do funk, como o garoto de cabelo azul e rosa, MC Brinquedo , e o dono do "famosos sinal do Ronaldinho", MC Bin Laden . Hoje ele produz os ritmos de MC 2K, cujo clipe da música Falei Nada já ultrapassa 40 milhões de visualizações no Youtube e tem em sua conta no Instagram mais de 1 milhão de seguidores.

O produtor Mano DJ também foi o responsável pela descoberta de novos talentos dentro do funk
Facebook / Mano DJ
O produtor Mano DJ também foi o responsável pela descoberta de novos talentos dentro do funk


"O funk hoje está mais profissional. No Rio de Janeiro, no começo, ele tinha aquele tambor mais sujo que eram gravados no próprio microfone de boca. Hoje têm MCs que trabalham com banda, que usam flauta, violão e até atabaque", declara o profissional. "O funk hoje não é só da comunidade e toca desde festa de casamento até em festa de faculdade", completa.

Para Mano DJ, a maior diferença nas letras do ritmo está no fato de que, hoje, as faixas estão mais dançantes e menos preocupadas em só passar uma mensagem explícita, e isso faz com que haja uma maior aceitação dos batidões. "O funkeiro hoje também tem sua identidade, um 'RG no funk' e se arruma como um artista de verdade, o que o aproxima mais do rapper americano", declara oentrevistado. 

Para quem quer se lançar como funkeiro, seja como MC ou DJ, Mano aconselha: "Não pode desacreditar de você e tem que colocar na cabeça que vai conseguir, que tem portencial para ir em frente. Tem que ter paciência. Tudo o que vem fácil, vai embora fácil e o sucesso, quando vem, é merecido". 

Beijinho no ombro

A cantora Valesca Popozuda hoje é uma das grandes representantes das mulheres na música
Instagram / Valesca Popozuda
A cantora Valesca Popozuda hoje é uma das grandes representantes das mulheres na música

Outro nome marcante do funk nacional que conversou com o iG Gente foi a eterna dona do "beijinho no ombro", Valesca Popozuda . A musa, que já passou pelo comando da Gaiola das Popozudas , no início dos anos 2000, conseguiu firmar uma carreira sólida e cheia de sucessos em suas performances individuais. 

"Hoje o funk está mais pop. Hoje em dia até as músicas sertanejas estão fazendo fusões com funk e pop e isso é comum. O mercado está mais aberto e todos estão trabalhando bastante em cima disso", afirma a cantora a respeito da nova cara do ritmo na música brasileira.

Ela também completa: "A sociedade está mais aberta e isso é bem gostoso de se ver. O funk deixou de ser coisa de "favelado" e passou a ser um ritmo que anima qualquer tipo de festa, chegando à criança de oito até à vovó de oitenta anos".

E as mudanças aconteceram não apenas no cenário deste ritmo, mas nas próprias letras e postura de Valesca diante do público. Hoje, ela é um dos grandes nomes da música que defendem o feminismo e movimentos que lutam contra a homofobia e trouxe à sua música uma nova função: representatividade. "Eu uso o microfone para dar a voz a quem confia em minha representatividade, luto pelas mulheres, pelos gays e isso tem refletido bastante em meus shows e minha música", diz a cantora. Importante lembrar que essa onda também se espalha por outras mulheres que entonam o ritmo, como Karol Conka e Mc Carol .

Valesca Popozuda fala sobre amor próprio em clipe do hit
Clipe de "Tô Solteira de Novo"
Valesca Popozuda fala sobre amor próprio em clipe do hit "Tô Solteira de Novo"


Há pouco tempo, Valesca decidiu regravar a letra do seu maior hit, Beijinho no Ombro . A música, que antes era considerada um hino contra as "recalcadas", agora tem uma cara mais "amiga" e quer acabar com qualquer clima de disputa entre as mulheres. "A sororidade é a bandeira levantada por todas nós hoje em dia, chega de disputa, chega de indiretas, precisamos dessa união para conquistar nossos objetivos! Juntas somos mais fortes", declarou Valesca. 

No novo refrão do hit, a cantora agora rima: "a gente junta não precisa de escudo. Voa mais alto, agora as minas tão com tudo. No camarote tem lugar para você. Sem essa disputa é bem melhor você vai ver”.

Com seu mais recente clipe, To solteira de novo , Valesca continua mostrando que, a cada dia, o funk também se aproxima da música pop e que o grande segredo dessa junção é levar mensagens positivas ao público. "Com essa música quis mostrar que o amor próprio muitas vezes é mais interessante do que o amor de apenas casal, podemos ser felizes solteiros e não vejo problema algum em celebrar isso".

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A cantora também completou: "Primeiro ame a si mesmo e depois passe a amar os outros", diz. Está na cara que o funk se versatilizou, ganhou novos adeptos e novos rostos - apesar dos já conhecidos - e que, agora, a nova onda é colocar o corpo para requebrar enquanto curte o som animado. 

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