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Com uma trajetória que começa com a colonização portuguesa, a literatura de cordel remonta histórias e acompanha as mudanças culturais do país

A história de Lampião e “Padin” Cícero poderia ter sido esmagada pela disputa de narrativas que a historiografia está à mercê. Mas é longe dos adjetivos rebuscados e dos substantivos formais, que suas trajetórias, antes contadas apenas pela tradição oral, vão ganhando força de maneira independente e se perpetuando pelo País. Documentadas em forma de cordel, essas narrativas amplificam as vozes que antes não tinham acesso a editoras ou grandes espaços nessa disputa do narrar.

Transformando fatos do cotidiano em poesia, esse gênero literário que chegou com a colonização portuguesa e ganhou notoriedade na segunda metade do século XIX no nordeste brasileiro, hoje conquistou um espaço além do regional. Na celebração do dia do nordestino, comemorada anualmente no dia 8 de outubro, o iG Gente buscou procurar remontar a trajetória desse patrimônio cultural imaterial brasileiro que até hoje permanece vivo,  seja nas feiras de literatura , nas universidades ou no na boca do povo, que é o cordel .

A literatura de cordel é considerada patrimônio imaterial cultural do Brasil
Wikipedia
A literatura de cordel é considerada patrimônio imaterial cultural do Brasil

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“É um gênero literário que vem da península Ibérica. Quando avançamos até Camões em 1524, já podemos pensar em cordel ali”, comenta Gonçalo Ferreira, diretor da Academia Brasileira de Literatura de Cordel e cordelista desde os seus 15 anos de idade. Segundo a História, o surgimento do gênero literário se deu na época do Renascimento, quando os relatos orais dos trovadores medievais começaram a ser impressos em folhetins que eram comercializados em cordões denominados cordéis.

Com a chegada dos portugueses no nordeste brasileiro, a tradição se espalhou e ganhou novos formatos e novas histórias. “Essa literatura tinha tanta credibilidade que as notícias eram encontradas no cordel. Não adiantava os jornais contarem a morte de Getúlio Vargas, por exemplo, porque os camponeses só aceitavam esse fato quando liam no cordel. Com essa credibilidade é claro que teríamos um movimento cultural vitorioso”, explica Ferreira.

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Com o passar dos anos e a chegada da tecnologia, que se concretizou no formato do rádio e, mais tarde, da televisão – dois itens que demoraram mais tempo para chegar no sertão nordestino – muito se questionou sobre o fim do cordel no País. “A literatura de cordel fez deles aliados. Ela se impôs e conquistou os espaços”, opina o diretor. As temáticas do cordel no começo se faziam pelas histórias dos vaqueiros e do cangaço, mas com o passar do tempo novos temas foram atraindo os cordelistas, como a escritora Jarid Arraes.

Jarid Arraes e seus dois livros, entre eles o
Reprodução/Facebook
Jarid Arraes e seus dois livros, entre eles o "Heroínas Negras Brasileiras" que traz personalidades da história em 15 cordéis

Nascida em Juazeiro do Norte na região do Cariri, no Ceará (CE), a cordelista herdou o habito do seu avô e de seu pai, que também se dedicavam ao gênero literário. “Eu vejo que as pessoas têm feito um tipo de literatura diferente do meu avô. Há projetos online como 'Um Repente Por Dia' e também vejo que bastante mulheres trazem temas sociais para o cordel, mas de um modo geral, tudo se mantem bem igual”, opina. Arraes é autora de 60 cordéis diferentes que trazem à tona heroínas negras, como Dandara e Tereza de Benguela, que devido ao contexto histórico e social brasileiro tiveram suas histórias apagadas durante muito tempo. Além disso, a escritora também aborda temáticas como questões ligadas ao movimento LGBT e ao feminismo em seu trabalho, sendo autora do livro “Heroínas Negras Brasileiras”, que reúne a história de diferentes personagens da história brasileira em quinze cordéis.

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“O cordel torna tudo acessível. Não só pelo preço, mas pela forma da linguagem, que é mais lúdica. Então tratar desses temas que são pouco abordados e que são complexos é uma boa estratégia porque o cordel torna tudo mais fácil. A minha obrigação como escritora é ser criativa e trazer histórias que não foram contadas ainda”, comenta. “E esses temas LGBT ou de gênero são muito atuais e atingem todas as pessoas das mais diversas formas. Assim, o cordel ajuda muito nesse processo de informação, para facilitar os debates e auxiliar no entendimento dessas questões antes que se forme uma opinião sobre o assunto”, completa a escritora.

O olhar das editoras

Diante deste cenário, o cordel começou a ser um objeto de estudo de muitas universidades, realidade que Gonçalo Ferreira comemora. “A literatura de cordel quando vai para os universitários despertou um olhar de interesse das editoras. Elas olham pela qualidade do texto, propriedade do conteúdo e presença da obra”, expõe o cordelista. “Mas dizer que a editoras se interessaram pelo cordel é um pouco forte: elas se interessaram pelo texto de altíssima qualidade que produzimos. As editoras têm nome, têm um suporte muito grande, uma linha de propaganda muito maior e produzir 100 mil livros se fossem em folheto demandaria muitos anos para nós”, revela.

Em um cenário em que é comum observar publicações com histórias já conhecidas em forma de cordel, Jarid Arraes volta o seu olhar para um problema relacionado às editoras e a literatura no país. “O mercado editorial percebe a qualidade do cordel e usufrui disso. Acredito que o mercado trata a literatura de cordel como algo folclórico e fetichizado. Os livros de cordéis, por exemplo, não são encontrados em sessão de poesia”, opina. “Isso também é muito visível nos eventos literários, a Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP) deste ano, por exemplo, não abordou o gênero. Geralmente quando está presente é na espécie de gueto, ali no cantinho”, completa a escritora.

O futuro do cordel

Gonçalo Ferreira, diretor da ABLC na Bienal do Livro do Rio de Janeiro
Reprodução/Facebook
Gonçalo Ferreira, diretor da ABLC na Bienal do Livro do Rio de Janeiro

Ainda que a literatura de cordel enfrente dificuldades mesmo dentro do ambiente literário brasileiro, seu futuro, para Ferreira, é certo: “ele está rigorosamente garantido a partir do instante que invadiu a universidade, chegou às escolas, aos presídios. Não tem perigo de falência”, opina. Para ele, quando fundou a Academia Brasileira de Literatura de Cordel, em 1988, as vendas dos cordéis na Feira de São Cristóvão, na capital carioca, passavam por algumas dificuldades. “Quando a academia foi fundada a literatura cordel estava anêmica e perigosamente pronta para a falência. A fundação da Academia deu essa sobrevida à literatura de cordel, e deu interesse para que mais pessoas tornassem produtoras deste tipo de literatura”, revela. Na época, as reuniões eram feitas em bares e pastelarias por não ter uma sede oficial, que mais tarde foi conquistada no Bairro de Santa Teresa.

Migrante de Itu, cidade do sul do Ceará, Ferreira conseguiu mobilizar uma equipe para criar uma biblioteca com a marca de 13 mil folhetins, trazendo cordelistas clássicos e contemporâneos no acervo. Com a criação da ABLC, ele acredita que os escritores conquistem mais apoio e incentivo para produzir novas histórias. Além disso, a Academia atingiu o número de 300 mil vendas de cordéis no mercado, tendo São Paulo como um dos maiores clientes.

Para Jarid Arraes, é essencial que as gerações mais novas continuem a produzir histórias em cordel para manter a cultura viva. “Eu espero que pessoas da minha idade e até mais novas tenham interesse em cordel e se apropriem dele inclusive em outras formas. Não ser só Padre Cícero ou Lampião porque o cordel em si é aquela estrutura que tem aquela identidade melódica, mas qualquer história cabe no cordel”, comenta. Segundo a autora, algumas inovações já chegaram ao seu conhecimento, como de um jovem de 18 anos que transformou uma música da cantora Lady Gaga em tema de cordel.

Facilitadora de oficinas sobre a escrita, Arraes ainda enaltece a convergência cultural que o cordel está à mercê. “Em São Paulo, por exemplo, existem o linguajar local e quando junta com o cordel vira uma espécie de rap e eu acho isso incrível, fica muito rico”, comenta. Para ela, é necessário quebrar os preconceitos e estereótipos diante do gênero literário para que as pessoas conheçam, se identifiquem e comecem a escrever. Na recomendação de cabeceira, Arraes não hesita em dizer: Salete Maria e seu pai, Hamurabi Batista, que traz uma coleção sobre pessoas desaparecidas na ditadura militar brasileira e histórias de ícones latino-americanos, são os seus indicados para começar uma boa leitura.

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