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Sátira à vida do casal mais hollywoodiano da França revela loucuras de um ator inseguro por conviver com uma estrela internacional de grande projeção e estar na casa dos 40 anos. Produção estreia neste fim de semana no País

Filmes que satirizam o universo das celebridades não são exatamente uma novidade. Grandes mestres como David Cronenberg e Robert Altman já fizeram bons filmes com essa premissa. O que torna “ Rock N´ Roll: Por Trás da Fama ” um tanto diferente é, em um primeiro momento, seu DNA francês, e, em um segundo olhar, o fato do casal Guillaume Canet e Marion Cotillard viverem eles mesmos. Ou pelo menos versões fictícias deles mesmos.

Guillaume Canet estrela em sátira
Reprodução
Guillaume Canet estrela em sátira "Rock N' Roll: Por Trás da Fama" ao lado de Marion Cotillard


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Guillaume Canet é um cineasta de relativo prestígio na França, já tendo rodado bons filmes como “Até a Eternidade” (2013) e “Não Conte a Ninguém” (2006), e um ator bem consolidado. Aqui ele traz as inseguranças de um homem de 40 anos, que é ator e casado com uma estrela de projeção internacional que costuma ganhar prêmios para os quais, no máximo, ele é apenas indicado para os holofotes. Com boa carga de ironia e ridículo.

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O desprendimento com que Canet se lança para o olhar do público nessa comédia que começa muito hiperbólica e vai ficando introvertida com o tempo é um momento scorsesiano – pense em um híbrido de “Touro Indomável” e o “O Rei da Comédia” –  do cineasta e de profunda coragem do ator. Não só pela exposição óbvia, reiterada e aberta às mais distintas e obtusas interpretações, mas porque a arte de rir de si mesmo demanda a maturidade e a inteligência emocional que parece faltar ao Canet que vemos na tela. Rir de si mesmo no cinema, afinal, não precisaria de inflexões tão extremas como as que vemos em “Rock N`Roll: Por Trás da Fama”.

A delícia do roteiro, assinado por Canet, Rodolphe Lauga e Philippe Lefebvre (que no filme surgem como produtores ensandecidos com os estrelismos súbitos do ator) reside no jogo de espelhos que propõe com a realidade. A certo ponto, a ideia de um filme sobre a vida de Marion Cotillard é aventada. Ela reage: “Não gosto de me submeter ao ridículo” e reforça que valoriza papeis com sotaques ou problemas físicos. Uma clara brincadeira com a insegurança que acomete muitos intérpretes. Marion, aliás, reina em um tipo de humor que ainda não estávamos acostumados a vê-la. Ela fazendo um sotaque de um francês arcaico em preparação para o novo filme de Xavier Dolan é um dos grandes momentos cômicos do cinema no ano.

Guillaume Canet em cena de
Divulgação
Guillaume Canet em cena de "Rock N`Roll: Por Trás da Fama"

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O ponto de partida para a crise existencial de Canet, que vai ganhando contornos tão absurdos que recebem o dramático e o cômico no mesmo compasso, começa quando em uma entrevista promocional sobre o filme que está gravando, a atriz que faz sua filha diz que ele “nunca foi muito rock” e que até caiu na sua lista de atores “trepáveis”.  Essa assunção detona uma mudança caótica no ator e Canet, o cineasta, mas também o pensador, analisa os meandros do universo que habita.

Guillaume Canet flagra o microcosmo hollywoodiano da França com graça, assertividade e um inesperado afeto. 

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