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Escritoras, músicos ou escultores: esses artistas quebraram as regras, lutaram pelo que acreditavam e romperam diversos paradigmas; confira

Nem todos os grandes nomes da história da humanidade receberam os destaques que mereciam. No universo da cultura, a premissa não seria diferente. Diversos artistas, seja na música ou na literatura , nos sete cantos do mundo fizeram grandes feitos que – por motivos maiores – não receberam tanto destaque em sua época, ou só foram ser reconhecidos anos mais tarde, majoritariamente após a sua morte em uma tentativa da sociedade de se redimir.

Os artistas do National Wake quebraram todas as regras durante o regime do apartheid na África do Sul
Reprodução
Os artistas do National Wake quebraram todas as regras durante o regime do apartheid na África do Sul


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National Wake

National Wake foi a primeira banda interracial de punk da África do Sul
Reprodução/Facebook
National Wake foi a primeira banda interracial de punk da África do Sul

Para além de The Clash ou Sex Pistols, essa banda de jovens punks de Soweto, na África do Sul, mostraram mais rebeldia que os do Velho Continente. Enquanto o apartheid arrematava uma nação, o imigrante judeu Ivan Kadey, o guitarrista branco Steve Moni e os irmãos negros Gary e Punka Khoza inspirados no punk rock que ascendia na época quebrava todas as regras. Com um nome bem sugestivo, National Wake (Despertar Nacional, em tradução livre), entrou para a história por ser a primeira banda punk do país – e talvez única – a ser multirracial. Os músicos decidiram viver uma vida considerada polêmica na época, dividindo os mesmos ambientes, compartilhando os mesmos objetos e construindo uma trajetória no mundo da música em conjunto. Seu primeiro e único álbum, “Walk in Africa” rendeu um pouco mais de 700 cópias. Apesar da baixa popularidade, a música do National Wake tinha força o suficiente para irritar a polícia sul-africana, que acabava com os shows e até mesmo tentou impedir a gravação do disco.

Devido à opressão, o grupo acabou se separando, mas sua influência se espalhou para outros lugares do país.  Internacionalmente, a história da banda ficou sob a obscuridade cultural, até o lançamento do documentário “Punk in Africa” (2012). O fim do National Wake, entretanto, não teve um final feliz. Gary, acabou suicidando-se e Punka contraiu AIDs, não conseguindo nenhum tratamento eficaz para a doença devido ao contexto de discriminação institucionalizada que se inseria, mas seus trabalhos foram resgatados e eternizados no mundo.   

Fela Kuti

O cantor nigeriano também foi um grande ativista dos direitos humanos
Reprodução/Facebook
O cantor nigeriano também foi um grande ativista dos direitos humanos

Nascido em Abeouta, na Nigéria, Fela Kuti tornou-se um multi-instrumentista pioneiro do Afrobeat. Mas o artista não se limitou apenas ao seu trabalho enquanto músico, sido reconhecido também pelo seu ativismo nos direitos humanos. Integrante do Africa 70, Fela Kuti criou a República Kalakuta, uma comuna que virou estúdio e casa para muitos. Popular no continente africano, as músicas do artista foram ficando cada vez mais políticas, uma vez que ele ia entrando em contato com outros movimentos negros ao redor do mundo, como o das Panteras Negras e de Malcolm X, nos Estados Unidos. Conforme o tempo passava, as músicas de Fela se tornavam cada vez mais políticas e em 1977 lançou o hit Zombie, que era um ataque aos soldados nigerianos.

O sucesso enfureceu o governo e o cantor foi espancado e sua mãe, já idosa, arremessada de uma janela encontrando com a morte. O artista criou o seu próprio partido político, chamado de Movimento do Povo e chegou a se candidatar a presidente da Nigéria em 1979, mas sua candidatura foi recusada. Fela chegou a ser preso pelo governo nigeriano em 1984, fez apresentações em prol dos direitos humanos, atacou os presidentes Ronald Regan (EUA), P.W.Botha (África do Sul) e a primeira-ministra Margaret Thatcher em capa de álbum, foi ativista pela disseminação de informações sobre a AIDs e busca de cura para a doença e acabou sendo vítima fatal dela, aos 58 anos.

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Shadia Mansour

A cantora tornou-se a primeira mulher do hip hop árabe
Reprodução/Facebook
A cantora tornou-se a primeira mulher do hip hop árabe

Também conhecida como a primeira mulher do hip-hop árabe – ou talvez a única mulher do hip hop árabe -, Shadia Mansour escolhe usar da sua voz na música para falar sobre as questões políticas do Oriente Médio. Nascida em Londres, filha de pais palestinos refugiados, em 2003 a artista começou a cantar ganhando reconhecimento na região por suas canções e colaborações com outros artistas, como a chilena Ana Tijoux, na canção Somos Sur. Além de abordar questões como a ocupação da palestina, Shadia também canta pelo fim do conservadorismo e opressão às mulheres. À BBC internacional, em setembro de 2010, a cantora confessou: “Minha música às vezes parece hostil. É a minha raiva saindo e é resistência. É uma resistência não violenta”.

Edmonia Lewis

Edmonia Lewis ganhou reconhecimento internacional ainda na época da escravidão nos Estados Unidos
Wikipedia
Edmonia Lewis ganhou reconhecimento internacional ainda na época da escravidão nos Estados Unidos

Não é só no mundo da música que esses artistas fizeram história. Mary Edmonia Lewis, mais conhecida como Edmonia Lewis, foi uma escultora estadunidense que tinha o pai nascido no Haiti e a mãe da tribo Mississauga, do Canadá. Sua mãe era conhecida como excelente artesã e seu pai servo de um cavalheiro. Ainda na época em que a escravidão reinava nos Estados Unidos, a jovem tentou estudar, mas não conseguiu concluir nenhuma das atividades. Entretanto, a artista conseguiu se desenvolver no mundo da arte, tendo como principais inspirações a história da sua família e os abolicionistas dos Estados Unidos. Sua arte chegou até mesmo a Roma, onde amadureceu sua arte. Um dos seus trabalhos mais famosos é intitulado “Forever Free”, que mostra uma poderosa figura de um nativo-americano e uma mulher livrando-se de grilhões em referência à escravidão.

Maria Firmina dos Reis

Ao falar em livros de romance no Brasil, diversos nomes de homens aparecem na mente, mas a verdade é que diversas mulheres também escreveram no gênero, como fez Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista do país. Nascida na Ilha de São Luís, no Maranhão, Maria foi registrada como negra bastarda. Em 1859, ainda quando a escravidão se fazia institucionalizada no país, Maria com então 34 anos lançou o seu livro de estreia, “Úrsula”, considerado o primeiro romance abolicionista do Brasil. Sua luta por meio da escrita não parou por aí e mais tarde a autora lançou um conto sobre o mesmo tema, “A Escrava” (1871) e chegou a fundar uma escola gratuita e mista, a primeira do estado, que causou polêmica e teve que ser fechada em menos de três anos.

A artista também foi a compositora do hino da abolição da escravatura e mesmo com todo um contexto que a desfavorecia, viveu a sua vida até os 92 anos lutando pela educação e equidade racial e de gênero.