Tamanho do texto

As duas séries da Netflix geraram comoções particulares entre os fãs das produções da plataforma de streaming, que recebeu as temáticas do racismo e do suicídio de formas distintas por uma série de motivos que investigamos

As personagens Hannah Baker e Sam White, de
Reprodução/Twitter
As personagens Hannah Baker e Sam White, de "13 Reasons Why" e "Dear White People", da Netflix

“Não posso ficar sem ver”. Foi isso que passou pela cabeça da estudante de comunicação e estagiária Mariana Salomone, de 18 anos, depois de se deparar com o feed de notícias de suas redes sociais com apenas um assunto: a série “ 13 Reasons Why ”, da Netflix , que estreou em 31 de março de 2017. Para Sophia Sampaio, também universitária, os comentários também não pararam em relação a série e até  causaram uma certa indisposição com o novo sucesso da plataforma de streaming. “Eu fiquei de saco cheio de ver falar tanto sobre a série e me deu até um pouco de bode”, conta. Com “Dear White People”, série homônima do filme lançado em 2014 pelo mesmo diretor, a auê parece não ter sido tão grande assim.

Leia também: Mulheres negras: corpo e cor de uma fetichização que reflete no entretenimento

Ainda segundo Sophia, pouquíssimas pessoas falaram sobre a série em seu círculo virtual de amigos. “Falta gente para conversar porque menos gente viu “Dear White People” no meu convívio”, também declarou Lucas Breda, jornalista, que achou a estreia do dia 28 de abril um tanto mais interessante.

Leia também: “Dear White People” é sátira imperdível de tensões raciais contemporâneas

Resguardando pontos em comum, as séries “Dear White People”, de Justin Simien, e “ 13 Reasons Why ”, de Brian Yorkey, adaptada do best-seller escrito por Jay Asher, ainda que falem de diferentes tipos de opressão sob olhares que também são distintos, tratam de temas que dialogam entre si muito mais do que se pode imaginar.

Dentro do espaço que as paredes da elite brasileira delimitam, o público que tem poder aquisitivo suficiente para adquirir o serviço de streaming que oferece o que tem de mais “in” no entretenimento atualmente, ferveu nas redes sociais com a história de Hannah. Rolaram comentários, textões críticos e até relatos de pessoas se considerando ou apontando alguém que fosse um de seus “13 porquês”. No entanto, ainda que tenha havido borburinho em relação à “Dear White People”, a coisa ficou bem desequilibrada em tamanho de repercussão e teve seus motivos para ser assim.

“Dear White People”, “13 Reasons Why” e a recepção do público

As duas séries podem falar de assuntos diferentes, mas mesmo assim eles conversam entre si e não é pouco.  “ 13 Reasons Why ” mostra o quão dura a adolescência pode ser e o quanto essa fase não está isenta de responsabilidade no sentido de jovens terem praticamente o mesmo potencial que os adultos têm para se comportarem de modo opressor.

 Em “ Dear White People ”, é retratado o quanto esses mesmos jovens, que constituem um grupo de classe média norte-americana, ainda com todo o intelecto e acesso a todos os meios possíveis e imagináveis de informação e educação que uma universidade pode oferecer, também podem reproduzir e contribuir para a perpetuação de um discurso antiquado, deslegitimador e racista – outro tipo de opressão de caráter socialmente estruturado que, assim como o machismo, perpassa o bullying e tem poderes muito grandes já que também pode fazer a vítima levantar perguntas sobre o propósito da própria existência.

Tanto o tema do suicídio  como o do racismo são importantes e têm impacto na medida em que conseguem pautar a sociedade, mas no caso específico dessas duas produções da Netflix , de propósitos parecidos e que deveriam chamar a mesma atenção, existe uma curiosa discrepância não só na audiência, mas também no interesse. E esses dois fenômenos têm, por trás, uma razão para acontecerem.

A série
Reprodução
A série "Dear White People" é derivada do filme homônimo lançado em 2014

Mesmo considerando que as duas séries foram lançadas com uma distância significativa de tempo (“ 13 Reasons Why ” no dia 31 de março e “ Dear White People ” no dia 28 de abril), o furor do público em torno da militância de Sam e do combate diário dos alunos da Universidade de Manchester contra o racismo diário vivido por eles até aconteceu na internet, mas de uma forma bem diferente se for comparado ao que foi a comoção em relação à história da adolescente Hannah Baker .

É evidente que é preciso considerar o quão relativa é a famosa “linha do tempo” das redes de cada um, já que elas permitem que cada usuário selecione minuciosamente o que quer ver. Ainda assim, é plenamente possível enxergar que a recepção do público com as duas séries se deu de maneiras distintas por uma porção de fatores, entre eles, a aposta colocada em cima de “13 Reasons Why” para ser vendida como uma produção que pretendia alcançar a mesma audiência, ou uma ainda maior que a de “ Stranger Things ”, também da Netflix , que pode, pela super divulgação, ter abafado substancialmente a outra temática que estreou pouco tempo depois.

Para os fãs de “Dear White People”, esse abafamento foi rapidamente percebido e, evidentemente que a reivindicação por uma divulgação maior não deixou de acontecer. Segundo um levantamento feito pelo Buzzfeed Brasil , a partir das publicações feitas no Twitter brasileiro da Netflix desde o dia primeiro de janeiro, a rede social da plataforma de streaming publicou 32 tuítes divulgando “13 Reasons Why”, 15 tuítes para séries como “ Santa Clara Diet ” e “ Girlboss ” e 7 para “ Dear White People ” e “ The Get Down ”, atestando que a crítica e o apelo dos fãs por uma janela maior de divulgação da série foi válido desde o momento em que começou.

Para a antropóloga Caroline Freitas, mulher branca e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, o peso que a divulgação da Netflix tem em toda essa situação é, sem dúvida, significativo, mas não o único fator agente na aceitação do público. “O problema não é a Netflix. É o que as pessoas se sentem cômodas para comentar. O esforço de divulgação é importante, mas não é só isso”, opina. “Tem séries que são menos espinhosas... Quando o assunto é relação racial, as pessoas se recusam a falar sobre isso”, completa.

Sobre a diferença substancial de repercussão, a professora de antropologia ainda ressaltou que temas como o de “ Dear White People ” tocam em pontos mais ardidos e delicados do que podem parecer. “Essa diferença existe porque “Dear White People” toca em pontos muito delicados e que as pessoas reconhecem. Para pessoas brancas assistirem aquilo é bem complicado porque aponta muitos comportamentos e mostra muitos privilégios”, termina.

Na visão da historiadora Juliana Serzedello, mulher, negra e especialista em racismo, além de professora do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), a mega atenção chamada pela história de “ 13 Reasons Why ” a ponto de virar best-seller e depois série, e o desequilíbrio com a audiência de “ Dear White People ”, que também foi inspirada num filme homônimo lançado em 2014, tem raízes não só sociais, mas também econômicas, lógicas que andam lado a lado no Brasil. “Primeiro a gente tem que pensar em quem compra livro. O que faz uma obra se tornar vendável é ter publico com poder aquisitivo. Um livro de uma menina de classe média que se mata vende mais porque a classe média compra mais livro. Uma história de gente preta não vende tanto porque tem pouca gente preta com dinheiro pra comprar livro e assinar Netflix ”, reflete.

Cena de
Divulgação
Cena de "13 Reasons Why", série que conta a história da adolescente suicida Hannah Baker

Ainda para Juliana, saindo rapidamente dos limites brasileiros da coisa, o que aconteceu no exterior em relação à série também não é mero fato do acaso. Nos Estados Unidos a recepção por parte do público também não foi das melhores e “ Dear White People ” sofreu até tentativa de boicote: centenas de usuários da Netflix cancelaram as assinaturas alegando que o teaser de pré-estreia com a personagem Sam se colocando contra o uso de blackface seria um incentivo ao “genocídio de pessoas brancas” e uma propaganda “preconceituosa”. Para a historiadora, tantos cancelamentos de cadastro no Netflix dos EUA não transparecem apenas mera insatisfação por parte de uma clientela. “Quando o branco cancela a assinatura da Netflix, ele tá dizendo ‘olha, esse produto não é vendável pro teu público, Netflix’”, completa.

Indo numa linha de raciocínio parecida com a da historiadora Juliana, a jornalista Lívia Martins, mulher negra e ex-militante estudantil também considera que a diferença de audiência para as séries vai além de gosto ou mero desinteresse. Quando questionada sobre o que pensa em relação à divulgação mais pesada da Netflix para “ 13 Reasons Why ”, a comunicadora deixou bem evidente que, em sua opinião, o marketing define o que merece mais destaque (não só) quando se trata de entretenimento. “Se o público não dá resposta, eles vão investir no que dá essa resposta em consumo. Quem tá assistindo séries como “ Dear White People ” e "The Get Down" é a minoria que detém um poder aquisitivo para consumir Netflix, e esse público é o branco”, opina.

A abordagem pé na porta e um recado irônico

A abordagem escolhida pelos idealizadores da produção da série
Reprodução/Youtube
A abordagem escolhida pelos idealizadores da produção da série "13 Reasons Why" parece ter sido a "pé na porta"; Com "Dear White People", a melhor saída parece ter sido a ironia e a sátira

Evidente já está que as duas séries falam de um mesmo fenômeno, ainda que com as devidas particularidades e diferentes formas de abordagem. No caso do bullying que leva Hannah à tirar a própria vida, o primeiro nome que deve ser usado para o que consolida a tragédia adolescente é machismo . Essa opressão, vivida mundialmente por mulheres de todas as idades e etnias, é o fio condutor das ações da maioria dos personagens da série, mas é ainda mais reproduzida pelo atleta Bryce , que comete o crime (entre outros) de estuprar duas das colegas de escola com plena consciência de seus atos e o pior: sem sentir o mínimo de culpa.

Já em “ Dear White People ”, o preconceito é constantemente capitalizado em várias instâncias e situações às quais os personagens são expostos e sujeitos o tempo todo, sejam elas de micro ou macro agressões raciais. Isso reflete em momentos como o que a personagem Coco é deixada por último, entre suas amigas brancas, para ser escolhida por um acompanhante em uma das festas da universidade, ou então nas perguntas feitas incisivamente para Sam questionando “o que ela é”, por conta da sua cor “não tão clara” de pele.

Em “ 13 Reasons Why ”, a equipe de direção da série, que tem a atriz Selena Gomez como produtora executiva, parece ter julgado melhor trabalhar com a abordagem explícita que, de acordo com Julia Drummond, advogada e mestranda em Direitos Humanos pela Universidade de São Paulo, não agradou em nada. “Gostei de “13 Reasons Why”, mas ao mesmo tempo eu falei pra várias pessoas não assistirem porque eu achei que a forma como a série termina foi muito desnecessária e também muito mal abordada”, opina. “Eles poderiam ter falado que procurar ajuda é importante e não que buscar isso não adianta. Também poderiam ter falado mais abertamente sobre machismo”, completa.

Em “ Dear White People ”, para Julia, ainda que os relatos tratem de uma agressividade tão grave quanto o bullying machista que atinge Hannah Baker, as micro e macro opressões sofridas pelo grupo específico de negros da Universidade de Manchester todos os dias por conta do comportamento racista das pessoas é uma ideia passada de uma forma um pouco mais leve, que faz uso da sátira e da ironia. “‘ Dear White People ’ é uma sátira que aparentemente atinge pessoas brancas no sentido de fazer com que elas percebam o racismo que praticam no dia a dia e de maneira específica, das micro agressões mesmo. Retrata a maneira como as pessoas brancas são racistas o tempo todo, mas sem perceber, sabe?”, relata a advogada.

Um debate que evapora

Divulgação
"A 13ª Emenda", de Ava DuVernay, estreou em outubro de 2016 na Netflix; "Moonlight", em fevereiro de 2017 e ainda levou o Oscar de melhor filme

Na indústria da cultura pop parece haver alguns tipos de temas que emplacam, e outros não. É constante o surgimento de cada vez mais obras que colocam o racismo em discussão, como “Moonlight”, de Berry Jenkins, “12 Anos de Escravidão”, de Steve McQueen e “A 13ª Emenda", de Ava DuVemay. Porém, o debate em torno delas não resiste por muito tempo. Para a antropóloga Caroline Freitas, no caso específico de “ Dear White People ” e “ 13 Reasons Why ”, a história de Hannah virou até best-seller porque bullying é algo mais fácil das pessoas se identificarem. “Bullying é uma coisa que todo mundo já viu acontecer ou já sentiu na pele. Assédio e abuso também. Em alguma medida as pessoas se identificam mais”, diz.

Divulgação
"12 Anos de Escravidão", de Steve McQueen (II) estreou em fevereiro de 2014

A antropóloga Caroline ainda completou que, aqui no Brasil, o maior interesse por “ 13 Reasons Why ” ocorreu não só por “ Dear White People ” falar de racismo , que é um assunto incômodo, mas também pelo fato de que muitos dos brasileiros pensam que isso é um problema de fora, quando ele está muito mais próximo (e enraizado) do que se imagina. “As pessoas não entendem que o racismo não é atitudinal e sim sistêmico. É estrutural. Ele se reproduz de maneira variada, em vários aspectos da vida e as pessoas não querem falar disso”, explica. “É um tabu falar de raça e racismo. Muita gente acha que aquilo só acontece nos EUA, que coisas assim não acontecem no Brasil e saber que isso também acontece aqui é muito importante”.

Para a historiadora e especialista em racismo Juliana Serzedello, o motivo da evaporação do debate em torno de temas raciais também vai na linha de falta de consciência coletiva - ou melhor, a desconstrução de uma já existente: a de que o Brasil vive uma democracia racial . “No Brasil a gente tem dificuldade de entender que o debate racial é necessário. Ainda que existam pessoas que se envolvem diretamente com ele, ainda tem até negras e negros que acreditam na ideia de que o Brasil é uma democracia racial, que isso não é um problema nosso, e sim um problema lá de fora, mesmo a sociologia já tendo comprovado que não é isso”, explica.

De acordo com Juliana, o foco, antes de querer travar o debate racial de vez, deve ser primeiro cristalizar a noção da importância de se falar em racismo em primeiro lugar. ”Quando a gente pauta a questão racial em qualquer instância, a gente tem que provar para o interlocutor que ele é importante. É uma luta ainda para desconstruir o mito da democracia racial”, termina.

Contribuição social

Cena da série
Divulgação
Cena da série "Dear White People", da Netflix, inspirada no filme homônimo lançado no ano de 2014 feito também sob direção de Justin Simien

Para a professora de antropologia Caroline, levantar o debate é importante e já foi feito pela temática dos dois programas de entretenimento, mas é difícil saber até onde isso realmente tem impactos real. “As produções colocam questões importantes em relevo, mas não sei até onde isso pode transformar alguma coisa. Não sei se tem um impacto, uma consequência efetiva. Não acho que seja suficiente”, reflete. Na contramão desse raciocínio, o psicólogo Werley Oliveira pensa que aos poucos os ganhos vêm vindo e que não deixam de ser válidos. “Em termos da psicologia eu acho que tem um lado positivo nisso tudo, porque eu vejo como uma maneira de as famílias começarem a entrar nesse assunto, discutir isso”, reflete. 

Leia também: Netflix afina estratégia e tenta catequizar público jovem com trinca de séries

Já para a historiadora Juliana Serzedello, os efeitos com as séres "Dear White People" "13 Reasons Why"  até existem, mas ainda estão dentro de uma caixinha que carece de uma expansão grande (e rápida). “Eu acho que esses dois temas são importantíssimos, mas o impacto de uma série de um canal por assinatura é muito restrito, muito pequeno”, fala. “Trabalho dando aula na região de São Miguel Paulista e em nenhum desses lugares eu ouvi falar sobre essas duas séries. Racismo e suicídio tem que ser debatido por esses meus alunos também”, complementa. “É uma pauta de elite, tá longe de ser um debate público. Ele ainda é privado pra mim”, finaliza.