Tamanho do texto

''Histórias da Sexualidade'' tem como objetivo promover o debate e a reflexão acerca do tema que sempre reverberou no meio artístico e, hoje, ganha espaço público de discussão ao redor do mundo

A cada dia os debates sobre gênero e sexualidade ganham mais corpo. A discussão que, antes, circulava majoritariamente em ambientes privados ou especializados, como na medicina, invadiu as ruas e, nos últimos anos, inundou a esfera pública com suas reinvindicações e questionamento. Criar uma abertura e suscitar a reflexão acerca do tópico foi o que motivou a equipe curatorial do MASP, liderada por Adriano Pedrosa, a elaborar a mostra “Histórias da Sexualidade”, composta por uma série de exposições que preenchem o calendário anual do museu. Ressaltando a importância do programa, Camila Bechelany, curadora assistente da instituição, comenta “[sexualidade e gênero] atravessaram a história da arte desde sempre, precisávamos colocar essas questões em debate”.

Leia também: Arte traduz anseios da sexualidade reprimida e explora questões sociais

Exposição de Toulouse-Lautrec é carro chefe da série de mostras ''Histórias da Sexualidade'' no MASP
Reprodução/Wikimedia Commons
Exposição de Toulouse-Lautrec é carro chefe da série de mostras ''Histórias da Sexualidade'' no MASP

Historicamente falando...

''Laocoonte e Seus Filhos'' é uma escultura do período helenístico da Grécia antiga
Reprodução
''Laocoonte e Seus Filhos'' é uma escultura do período helenístico da Grécia antiga

Sexualidade e gênero não são novidades da contemporaneidade – pelo contrário, sociedades primitivas já produziam arte com esse viés, como, por exemplo, a estátua da Venus de Willendorf, esculpida aproximadamente há 25 mil anos antes de cristo, que exaltava a figura feminina como símbolo de fertilidade. Ao longo da história a sexualidade e o corpo foram tema central da produção artística em todas as partes do mundo. Na Grécia, por exemplo, os artistas procuram atingir a imagem dos corpos perfeitos que, por muitas vezes, excediam a própria realidade.

Seguindo por esse segmento, grandes mestres da pintura ocidental deixaram suas marcas na história com pinturas de nus: Sandro Botticelli, Edouard Manet, Paul Gaugin e Toulouse-Lautrec foram alguns dos gênios das artes que, ao longo do curso dos anos, transforam o corpo em um dos gêneros mais nobres de pintura – até hoje o nu é um sinônimo de imagens clássicas que logo são associadas às artes no imaginário coletivo. “O nu é considerado um estilo clássico, foi um dos primeiros que surgiu”, reitera Camila antes de finalizar “o corpo nu sempre atravessou não só a história da arte, mas toda a história da humanidade”.

Leia também: Nu artístico empodera, opina fotógrafa que dessexualiza nudez em série de fotos

Expandindo a visão para além dos corpos em seu estado natural há, também, a janela da sexualidade: a arte sempre foi um território fértil para que determinadas questões íntimas ganhassem uma voz e uma representação e, portanto, o sexo e o erotismo encontram nesse universo um meio para fluir. Saindo do eixo ocidental, por exemplo, a partir do século 16 no Japão desenvolveu-se o Shunga, um estilo artístico voltado para representação do erotismo e do prazer sexual.

Narrativas em transformação

''A Grande Odalisca'', importante pintura de nu de Jean Auguste Domique Ingres que explora sexualidade e erostimo
Reprodução/Wikimedia Commons
''A Grande Odalisca'', importante pintura de nu de Jean Auguste Domique Ingres que explora sexualidade e erostimo

A abordagem artística para manifestações de gênero, sexualidade e até mesmo o erotismo foram ganhando novos contornos com o passar dos anos. “A arte é um retrato da sociedade em que estamos inseridos”, comenta a curadora-assistente o circuito do MASP que irá tratar do tema. Por exemplo, as pinturas de atos sexuais encontradas em ruínas romanas em nada se assemelham com as fotografias provocantes de Robert Mapplethorpe feitas em meados da década de 1970.

Leia também: Da nudez ao sexo, pode a pornografia ser considerada uma manifestação artística?

Não existe uma forma correta e imutável de se olhar para as representações sexuais na arte, mas, invés disso, vê-las como um reflexo da sociedade e entende-las como um produto associados a interioridades dos artistas. Debater essa pluralidade de formas, visões, cores e experiências é um dos pontos que, segundo Camila, estão na mira do museu para elaborar suas exposições. “O artista sempre vai criar novas leituras sobre algum assunto”, reforça a curadora sobre a necessidade de se explorar o tema com diferentes ângulos.

Ouvindo todos os lados

A história da arte não é absoluta e não está livre de críticas – por muitas vezes ao longo dos anos, apesar de ser um espaço de resistência e de discussão de tabus, minorias quase nunca foram representadas por si mesmas e têm pouca representatividade no cenário cultural. Foi por esse motivo, segundo Camila, que o museu privilegiou a presença de mulheres dentre as artistas que seriam expostas na mostra "Histórias da Sexualidade". Com duas pioneiras no assunto o MASP terá espaços exclusivos para Teresinha Soares e Wanda Pimentel – ambas trabalharam durante o período da ditadura militar, quando havia uma onda de conservadorismo na sociedade.

Coletivo Guerrilla Girls invade o MASP e questiona papel da mulher nas artes na mostra ''Histórias da Sexualidade''
Reprodução
Coletivo Guerrilla Girls invade o MASP e questiona papel da mulher nas artes na mostra ''Histórias da Sexualidade''

O coletivo Guerrilla Girls também terá seu momento de brilhar. Na ativa há décadas, as artistas do grupo questionam a visibilidade, a representação e a participação feminina no espaço das artes através de performances e protestos provocativos. Com obras desconcertantes, as mulheres do Guerrilla Girls serão um grito por igualdade que irá ecoar nos corredores do museu, batendo de frente com conceitos clássicos como a figura feminina em obras de mestres da pintura e abrindo espaço para uma nova leitura das artes. 

Algumas “Histórias da Sexualidade”

Para cobrir o assunto a partir das mais variadas perspectivas, o MASP fará uma série de exposições de artistas com perfis distintos, começando pela brasileira Teresinha Soares, pintora que, entre 1960 e 1970, quebrou o silêncio e levou a sexualidade com seu olhar feminino para o universo das artes, passando pelo impressionista francês Toulouse-Lautrec, referência do erotismo da vida boêmia europeia, indo para coletivo Guerrilla Girls, que propõe uma releitura da arte através da ótica feminista e fechando com Tunga, artista plástico brasileiro que dedicou parte de sua obra à explorar o desejo e a sexualidade.

''Xipófagas Uterinas'', de Teresinha Soares, faz parte da mostra ''Histórias da Sexualidade'', no MASP
divulgação/Masp
''Xipófagas Uterinas'', de Teresinha Soares, faz parte da mostra ''Histórias da Sexualidade'', no MASP

Além das exposições individuais de artistas ligados ao tema, " Histórias da Sexualidade ", também, será traduzida em uma mostra com diversos artistas que abordaram o assunto das mais diversas formas em diferentes momentos da história. Reunindo diversos núcleos do museu, a exposição foi concebida por Adriano Pedrosa, diretor artístico da instituição, Lilia Schwarcz, Pablo León de la Barra, Tomás Toleto e Camila Bechelany. O ciclo de mostras acontece até o início de 2018, quando cederá seu espaço para as "Histórias da Escravidão".

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.