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Segunda temporada de "Sense8" tem os elementos adorados da primeira temporada, mas se perde na narrativa ao tentar explicar a origem da conexão

As irmãs Lana Wachowski e Lilly Wachowski são conhecidas pelos riscos que correm em suas produções. Sem medo de ousar, elas criam fantasias que podem dar muito certo (“ Matrix ”), ou muito errado (“O Destino de Júpiter”). Fato é que elas se arriscam, e para a produção que desenvolveram para a Netflix , o risco deu certo. "Sense8" estreou em 2015 e foi muito bem recebida. A história era original e o trabalho das irmãs transpareceu em uma história que, mesmo se tratando de ficção científica, ganhou fãs por ser humana e envolvente.

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Segunda temporada de Sense8 traz narrativa confusa e mais do mesmo
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Segunda temporada de Sense8 traz narrativa confusa e mais do mesmo

A primeira temporada de " Sense8" viu oito pessoas de diferentes lugares do mundo se conectarem tão profundamente que conseguiam compartilhar os desejos, alegrias, tristezas e seus sentimentos mais íntimos. Cada episódio se dedicou a mostrar como essa conexão se desdobrava entre cada um deles, destacando suas diferenças e semelhanças, reunindo-os em um só.

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A segunda temporada tem todos os elementos que fizeram a primeira ser amada. Os jogos de câmera que fazem os “sensies” apareceram no lugar um do outro, as conversas em grupo e o apoio de um ao outro. Os momentos em que todos se unem para lidar com uma situação de risco, as lutas onde Sun ( Doona Bae ), Wolfgang (Max Riemelt) e Will (Brian J. Smith) se revezam. Os divertidos ataques de desespero de Lito ( Miguel Ángel Silvestre ) e Nomi (Jamie Clayton) invadindo todos os servidores do mundo. Os momentos sensoriais mais intensos, quando um sente a emoção do outro e, principalmente o prazer, destacado em belas cenas de sexo , tudo isso está lá novamente.

A nova temporada, inclusive, começou em dezembro com um especial de Natal de duas horas, onde os participantes se conectaram novamente por meio do sexo, gerando uma orgia ainda maior que a temporada anterior. 

Mas a segunda temporada não conseguiu expandir além disso e, apesar desses elementos serem importantes, eles precisam de mais desenvolvimento. A história segue, mas focada em explicar o que eles são e o que é a organização que tem perseguido os oito. Eles conhecem outros “clusters” (grupos sense8), mas as cenas parecem feitas exclusivamente para cumprir os elementos citados acima, e não tem conteúdo narrativo nenhum.

Cada personagem também evolui em níveis diferentes, o que acaba criando um desequilíbrio, embora faça sentido, já que eles vivem vidas completamente diferentes. Mas isso acaba apenas criando um vazio entre eles, bem evidenciado por Sun e Lito, quando ele está completamente depressivo por achar que sua carreira acabou, enquanto Sun segue firme, mesmo sofrendo tentativas de assassinato do próprio irmão.

Doona Bae é o maior destaque da temporada e tem a personagem com o melhor arco narrativo
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Doona Bae é o maior destaque da temporada e tem a personagem com o melhor arco narrativo

A nova temporada aprofunda na identidade de Sussurros (Terrence Mann), que tentou lobotomizar Riley (Tuppence Middleton) e Nomi na primeira temporada, e está atrás do cluster por motivos que eles inicialmente desconhecem. Will tenta usar a conexão que criou com Sussurros para descobrir mais sobre ele e tentar ficar a frente do que é a organização BPO (Biologic Preservation Organization – Organização da Preservação Biológica). Com essas investigações, eles acabam descobrindo que fazem parte de uma outra espécie e é aí que a série desanda. As explicações para a criação da organização remontam a 2ª Guerra Mundial, mas acredita-se que o “homo sensorius” como são chamados na série, seja tão antigo quanto o homo sapiens. Toda essa explicação, que vai ganhando mais ramificações a cada episódio, também não acrescenta à narração e, quanto mais personagens e justificativas a série inclui, menos interessante fica.

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Prioridades

Em tentar explicar com tanto afinco a origem dos sense8, a série perde a oportunidade de explorá-los melhor, como fez na primeira temporada. Capheus (com um pouco menos interessante Toby Onwumere substituindo Aml Ameen), passa a maior parte da temporada testando sua coragem ao concorrer a um cargo público, claramente influenciado por outras pessoas. A série quer tanto transformar o personagem em herói, que acabou estragando sua história.

Riley, tão cheia de camadas e nuances na primeira temporada, passou a maior parte da segunda servindo de babá para Will e, só no final, a personagem tem oportunidade de tomar decisões por si mesma.

Miguel Ángel Silvestre também se destaca, com boa atuação e alívio cômico de Lito
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Miguel Ángel Silvestre também se destaca, com boa atuação e alívio cômico de Lito

Wolfgang e Kala (Tina Desai) também foram pouco explorados, apesar da segunda ter contribuído mais nos momentos em que o grupo está reunido. Mas seu conflito matrimonial, somado a seu amor por outro homem, se tronaram exaustivos. Wolfgang, por outro lado, quase não teve diálogos essa temporada. O personagem não é um grande tagarela, convenhamos mas, foi relegado a lutador oficial em situações de perigo.

A vantagem disso todo foi o imenso crescimento de Sun, interpretada Doona Bae, deslocada de tão superior que é ao resto do elenco . Sun tem um dos melhores arcos da temporada e, por mais que algumas cenas de luta parecem gratuitas, ela é a que mais se desenvolve e amplia seus laços, seja com o mundo ao seu redor em Seul, seja na sua mente com os outros sete.

Miguel Ángel Silvestre segue ótimo com seu incrível Lito, e Eréndira Ibarra e Freema Agyeeman brilham como Daniela e Amanita respectivamente, mostrando que quando quer, Sense8 sabe explorar bem as tramas paralelas de cada personagem.

Série continua dando destaque para manobras fotográficas que colocam os personagens juntos em diversos locais do mundo
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Série continua dando destaque para manobras fotográficas que colocam os personagens juntos em diversos locais do mundo

A série conquistou muitos fãs por vários motivos, mas em geral, os personagens eram relacionáveis e conhecer suas fragilidades, enquanto eles mesmos as descobriam, gerou imensa empatia do público. Por isso, é impossível dizer que acompanhar a segunda temporada é um desperdício, ainda mais para quem se encantou com a primeira. Mas, na era de ouro da televisão, " Sense8" está longe de ser um dos destaques do ano.

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