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Filme sobre brasileiro que morreu na África representa o País na Semana da Crítica do Festival de Cannes; leia a entrevista com o diretor Fellipe Barbosa

Depois de ser elogiado por seu filme de estreia, "Casa Grande", o cineasta carioca Fellipe Barbosa viu seu novo longa, "Gabriel e a Montanha", ser anunciado como um dos nomes da Semana da Crítica do Festival de Cannes , que acontece na França a partir do dia 17 de maio.

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Divulgação
"Gabriel e a Montanha", de Fellipe Barbosa, é selecionado para o Festival de Cannes

"Eu tinha esse desejo de ir para Cannes , não vou mentir", contou Fellipe Barbosa em entrevista ao iG . "Mas a gente conhece tantas histórias de pessoas que estavam na cara do gol e acabaram ficando de fora que não dava pra saber se o filme ia entrar mesmo", afirmou.

O carioca estreia em um dos festivais mais importantes do mundo com um filme que conta a história real de Gabriel Buchmann, um economista que morreu durante uma trilha no Monte Mulanje, no Malaui, em 2009. Depois da tragédia, Fellipe decidiu contar a história de seu amigo de infância. "Queria responder às diversas perguntas que a história deixou para nós", explicou.

Para isso, o cineasta e sua equipe refizeram os passos de Gabriel, que foi para a África para se preparar para um douturado sobre políticas públicas. "Queria estar nos lugares em que ele esteve, conhecer as pessoas que ele conheceu", disse. "Isso me fazia chorar às vezes", confessou. No filme, a equipe passa por Quênia, Tanzânia, Zâmbia e Malaui.

Na entrevista abaixo, Fellipe Barbosa fala sobre "Gabriel e a Montanha", o panorama da cultura no Brasil e do cinema nacional no exterior.

Leia a entrevista

iG: Qual é o sentimento de ter seu filme selecionado para a Semana do Júri de Cannes?
Fellipe Barbosa: Eu tinha esse desejo, não vou mentir. Acho que minha proximidade com a França ajudou. Mas não dá pra saber se o filme vai entrar mesmo. a gente conhece tantas histórias de pessoas que estavam na cara do gol e acabaram ficando de fora que não dava pra saber. Essa foi a primeira vez que tentei entrar no Festival de Cannes e fiquei totalmente focado nisso, focando minhas energias nisso.

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iG: Qual é o seu sentimento pessoal em relação a "Gabriel e a Montanha"?
Fellipe Barbosa: Já tive "ups and downs", um misto de apreensão e esperança, expectativa e fé. O filme foi um grande exercício de fé, não só minha, mas de toda a equipe. Atravessar 4 países da África num caminhão, por terra e por água, não é fácil. Todo mundo subiu o Kilimanjaro [ponto mais alto da África, na Tanzânia]. Foram 18 dias de caminhada no último dia de Kilimanjaro. Chegar no lugar onde o corpo dele foi encontrado também levou alguns dias de caminhada. Então acho que esse filme vai tocar as pessoas, vai emocionar muito.

iG: Como foi a produção do filme?
Fellipe Barbosa: Comecei a escrever o roteiro em 2011, quando fiz minha primeira viagem de pesquisa. Em 2015 já comecei a ver as locações na África e a montagem durou sete meses. O filme foi financiado pelo Fundo Setorial do Audiovisual, RioFilme, Até e CNC (Centro Nacional do Cinema) [os dois últimos, da França]. A captação desse filme foi mais tranquila que a de "Casa Grande", ele ganhou todos os editais.

iG: Como a recepção da família e dos amigos de Gabriel à ideia de fazer o filme?
Fellipe Barbosa:  Os amigos deram muita força, os mais próximos até estarão em Cannes. A Cristina Reis, namorada dele na época, também foi muito importante. Minha intenção era responder às diversas perguntas que a história deixou para nós. Mas eu não podia fazer um filme só sobre essa montanha. Tinha que contar a história dele viver próximo das pessoas pobres e de como isso o ajudaria na profissão de economista.
Tem um e-mail lindo que ele escreveu da Uganda, que foi muito divulgado quando ele desapareceu. Curiosamente, eu conhecia muito bem o lugar onde ele estava. Eu estive naquele lugar num curso para ensinar cinema para jovens realizadores do leste africano. Fiquei apaixonado, passei três meses lá. Eeconheci a felicidade que o Gabriel descreve no e-mail. Ele foi um pouco longe demais, talvez tenha sido um desejo incosciente.

Gabriel Buchmann morreu em 2009 ao tentar escalar o Monte Mulanje, no Malaui
Reprodução/Arquivo pessoal
Gabriel Buchmann morreu em 2009 ao tentar escalar o Monte Mulanje, no Malaui

iG: Como foi estar nos lugares onde ele esteve?
Fellipe Barbosa:  Em 2015, comecei um rigor para estar nos lugares exatos em que ele esteve. Fiquei procurando o quarto exato num guest house que ele esteve no meio do mato. Tinha que ser ali. Estar nos mesmo lugares que ele, com as mesmas pessoas que ele conheceu, me fazia chorar às vezes. A gente até conseguia sentir a presença dele ali, foi muito forte.

iG: Qual é a importância de ter um filme brasileiro na Semana da Crítica e ter o Kleber Mendonça Filho como presidente do júri?
Fellipe Barbosa: É muito importante. Pega os presidentes dos anos anteriores, é só gente fera. A gente está sendo visto muito diferente pela Meca do cinema mundial. É um sinal. Em Cannes é um pouco mais especial, a gente estava com uma ausência há muito tempo. Isso é muito bom para o cinema brasileiro, muito bom para a Ancine, e um sinal para os nossos políticos.

iG: O que você vê para o futuro do cinema no Brasil?
Fellipe Barbosa: Essa pergunta é muito difícil. Não tenho uma bola de cristal. Quando decidi fazer cinema, em 1997, não tinha cinema no Brasil. Sinto-me privilegiado por ter tido esse amadurecimento durante a época áurea do cinema. A gente teve mais facilidade do que nossos amigos americanos, por exemplo. Agora, estamos colhendo os frutos disso.
Tive a sorte de ter os filmes financiados antes de toda a crise, mas sei que a gente não está tendo a mesma quantidade de editais, como antes. No Rio de Janeiro, a gente é muito privilegiado. A RioFilme nunca foi tão incrível como na nossa época. A gente podia até discordar de algumas coisas, mas conseguia o que queria.

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O Festival de Cannes de 2017 acontece entre os dias 17 e 28 de maio, na França, A Semana da Crítica, que terá o júri presidido por Kleber Mendonça Filho ("Aquarius" e "O Som Ao Redor"), ainda terá longas de Léa Mysius, Gustavo Rondón Córdova, Emmanuel Gras, Atsuko Hirayanagi, Marcela Said e Ali Soozandeh.

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