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Buscando mostrar para o mundo que o desejo feminino não é – e não precisa ser – igual ao dos homens, é que a diretora sueca de filmes eróticos conquista cada vez mais espaço na indústria pornográfica

Erika Lust nasceu em Estocolmo, na Suécia, e começou na indústria pornô na primeira década de 2000
Reprodução/Instagram
Erika Lust nasceu em Estocolmo, na Suécia, e começou na indústria pornô na primeira década de 2000

Sem os clichês de coelhinhas sexy, professorinhas sedutoras e secretárias envolventes é que Erika Lust passou a acreditar que, ao invés de combater a lógica que sustenta a pornografia, adentrar esse universo e fazer uso das artimanhas existentes nele seria muito mais eficaz para conseguir exaltar um lado que tem os desejos constantemente desprezados e esquecidos, já que o foco da indústria é apenas um: saciar o imaginário masculino.

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Cansada das categorias "hardcore" e mostrando que é possível fugir da produção pornográfica tradicional, a qual dá nome de “antiquada” e “broxante”, a diretora sueca de filmes eróticos, desde que começou na área, estabeleceu como objetivo explorar o desejo da mulher em suas produções e centralizar nele todo o sentido das tramas que desenvolve. Mas, o que pode parecer uma ação individual que teve raiz num desejo único de Erika Lust está longe de ter como única motivação apenas a própria vontade.

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De acordo com um levantamento divulgado em 2015 pelo sites de web porn “Redtube” e “Pornhub”, o comportamento do consumo de conteúdo pornográfico por parte das mulheres em proporções mundiais tem se mostrado um tanto diferente. O Brasil e as Filipinas, nesse quesito, lideram o ranking. Nesses dois países, 65% do público que assiste à conteúdos eróticos são homens e o restante, 35%, mulheres.  Atrás desses dois, ficou a Argentina, com 30% e o México, com 28%. Com a pesquisa, foi concluído que a média mundial para as telespectadoras de pornografia, de 24%, foi superada.

Não é difícil imaginar que esses dados colaboraram para que Erika entrasse de uma vez por todas nesse meio na tentativa de mudar o ideal que costuma estar atrás das câmeras. Para a diretora, a defesa do querer feminino no sexo só se realiza quando os estereótipos construídos pelo desejo masculino são rompidos – o que dá para seus filmes uma linha feminista de trabalho: o objetivo, com as produções, é exaltar o desejo da mulher e dar atenção a ele, buscando um equilíbrio na indústria de pornografia, já que os homens não são os únicos que se interessam por entretenimento adulto.

Lust, além de dispensar o padrão de desejo que move a produção pornográfica, procura trabalhar com histórias mais verossímeis. Deixar bem explicado que os clichês do sexo anal e da ejaculação no rosto passam longe de fazer jus ao apetite sexual da mulher, e mostrar que explorar um viés mais real é muito mais sensato do que trabalhar com corpos extremamente artificiais estão entre as propostas presentes no ofício que a roteirista exerce.

Para Erika, a escolha de modelos naturalmente belos aproxima as telespectadoras de uma situação real e é isso o que há de mais excitante, imaginar que o personagem pode ilustrar pessoas palpáveis, como um melhor amigo ou um vizinho, por exemplo. Na opinião da produtora, o erotismo está nos detalhes e os momentos pequenos que rolam durante o sexo – coisas como o olho no olho ou alguma sacanagem que é solta na hora H – é que revelam o real segredo para o tesão.

Há cerca de um ano, a diretora sueca comemorou nas redes sociais o lançamento do vol. 6 do
Reprodução/Instagram
Há cerca de um ano, a diretora sueca comemorou nas redes sociais o lançamento do vol. 6 do "Xconfessions", projeto que conta com a colaboração dos espectadores

Seu desejo é uma ordem

Ainda na lógica de inserir um olhar realista nas criações, Erika Lust transferiu para a prática exatamente o que queria: atender verdadeiramente os desejos das pessoas que consomem suas produções. Com o projeto "Xconfessions", Lust conseguiu unir as mais diversas confissões eróticas numa plataforma online, que tem como objetivo uma única coisa: inspirar a criatividade da diretora e dar substância para produções futuras, que se espelham 100% nas histórias das pessoas que acompanham o trabalho da diretora ou que querem ver a própria experiência contada como uma narrativa sexual.

A proposta, que angaria vídeos desde 2013, funciona da seguinte forma: os textos ficam publicados no site para toda a comunidade do projeto e os dois melhores, na visão da produtora, são escolhidos para virar curta-metragem.

Pornô de mulheres, para mulheres

Erika Lust não está sozinha: está longe de ser a única mulher a inovar no segmento da pornografia
Reprodução/Instagram
Erika Lust não está sozinha: está longe de ser a única mulher a inovar no segmento da pornografia


Para qualquer um que acompanha o que é produzido pela indústria da pornografia , é evidente que quando se fala em mulher, a primeira coisa que vem à cabeça é quem está na frente das câmeras. No entanto, os tempos têm mudado e não é essa a única posição que o gênero ocupa nesse mundo. Por mais que pareça novidade, Erika Lust não é a única que está atrás das lentes que captam as cenas responsáveis por atenderem, mesmo que em partes, as vontades que resistem no imaginário feminino.

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Além de Erika, outros nomes de mulheres existem nesse meio e os mesmos têm atuado para romper com as barreiras que limitam o prazer da mulher aos desejos masculinos. Nesse contexto de mudança, tudo indica que Erika Lust e as demais parceiras da área estão adentrando uma era que começou a viver seus primeiros últimos dias. Entre diretoras, empreendedoras e produtoras, o segmento feminista da pornografia tem diferentes nomes acompanhados de olhares distintos, mas que compartilham de um mesmo propósito: voltar os holofotes para os desejos e as vontades da mulherada.

O da brasileira Jully DeLarge está entre esses. A atriz pornô teve um envolvimento com o meio erótico que foi além da atuação e acabou resultando numa produtora fundada por ela e pelo marido, Tiago Nogueira, de nome “Vida Libertina”. A missão deles, com as produções disponíveis no site “Safada.tv”, é empoderar a mulher e proporcionar prazer real para os atores.

Além de Jully, Tristan Taromino também é uma das mulheres que, junto com Erika Lust , lutam para revolucionar a lógica da indústria pornográfica. Unindo educação sexual com a pornografia, a americana elabora não só filmes, mas também palestras e livros com a ideia de que a mulher não deve ser alvo de abusos no sexo. Tristan é fundadora da revista online Pucker Up e é lá que disponibiliza suas produções. Alison Lee e Petra Joy também estão na causa. Alison é organizadora do Feminist Porn Awards, evento anual que premia as melhores produções consideradas feministas. No caso da alemã Petra, as produções disponíveis em seu site “Petra Joy” só são feitas com o uso de camisinha e buscam realizar fantasias femininas.

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