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Eleição de Trump e situação política e econômica do Brasil inspiraram muitas músicas de protesto; artistas discutem a importância desses trabalhos

Em 1971, John Lennon  lançou uma das suas canções mais importantes,  Imagine . Conhecida como uma das músicas de protesto mais famosas da história, a composição do ex-Beatle prega um mundo sem divisões e é incrivelmente atual até os dias de hoje.

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John Lennon é autor de
Reprodução
John Lennon é autor de "Imagine", uma das mais famosas músicas de protesto de todos os tempos

Quase meio século depois da canção de John Lennon, as músicas de protesto  voltaram a ter força em todo o mundo. Eventos como a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, a saída do Reino Unido da União Europeia e o impeachment de Dilma Rousseff no Brasil inspiraram artistas a se unir e fazer mais trabalhos com temáticas políticas e sociais. Mas, ao contrário da década de 1970, hoje a indústria já percebeu que o protesto também dá lucro.

"Eu sei que deve ter gente que só tá com os olhos no lucro, mas nesses momentos se destacam as pessoas que são verdadeiras àquilo que falam", contou ao iG  Sebastián Piracés-Ugarte, baterista e vocalista da Francisco, El Hombre. A banda lançou em 2016 o álbum  SOLTASBRUXA , o primeiro de sua carreira, com temáticas como a igualdade de gêneros e o cenário político brasileiro. "Levantar uma bandeira é fácil, mas carregá-la durante um tempo é difícil se suas palavras e ações não andam afinadas. O movimento é muito crítico em relação a isso", continuou.

A opinião de Sebastián é corroborada por  Emily Kokal , vocalista e guitarrista do Warpaint . "As pessoas estão sempre motivadas para ganhar dinheiro, principalmente as grandes empresas. Se os protestos estão dando dinheiro, elas vão entrar na onda", disse em recente entrevista ao iG . "Até a guerra faz muito dinheiro."

Mas mesmo com todo esse cenário, os artistas ainda acreditam que as canções de protesto fazem diferença na vida das pessoas. Foi pensando nisso que o Trampa lançou em janeiro o clipe de  Farda , em parceria com a Mídia Ninja, com imagens de abusos policiais em manifestações no Brasil.

"É uma música para falar sobre um discurso e uma mentalidade hipócrita socialmente, sobre censura e sobre repressão às liberdades de expressão e de imprensa", explicou o guitarrista Rafael Maranhão. Para ele, as canções de protesto têm um misto de conscientização e desabafo. "Existe uma preocupação com o aumento de conscientização acerca de problemas que consideramos gravíssimos, mas existe também uma intenção de desabafar e gritar o quanto achamos injustas certas coisas", disse.


Momento de gritar

O protesto na arte ganhou força com os recentes desdobramentos políticos do mundo, mas sempre foi algo bastante importante. "Eu acho que sempre é válido. O momento é de gritar mesmo. Não só com o Trump, mas com o golpe que rolou aqui no Brasil, todas as manobras políticas zoadas que estamos vendo acontecer, sem a mínima participação do povo", afirmou Sebastián Piracés-Ugarte.

Por experiência pessoal, o músico acredita que as canções de protesto têm validade. "Eu acho que minha principal escola política foi a música de protesto. Poder denunciar uma problemática social e ainda por cima causar uma catarse emocional sempre me chamou muito a atenção", explicou.

Rafael Maranhão, da Trampa, corrobora. "O que acontece comigo é que essas músicas colocam o quanto existe um mundo frágil e distorcido por mazelas que ultrapassam nosso mundinho particular, fazendo com que, ao mesmo tempo, eu me sinta pequeno e mesmo assim conectado empaticamente com toda a humanidade e seus problemas cotidianos", disse.

Momento de união

Nos Estados Unidos, os artistas acreditam que a eleição de Trump é a ocasião perfeita para inspirar canções com mais conteúdo. "Eu acho que as pessoas vão falar mais sobre as coisas que sentem, não só politicamente", disse Emily, do Warpaint.

Sebastián Piracés-Ugarte é baterista e vocalista da Francisco, El Hombre
Divulgação/Nube Abe
Sebastián Piracés-Ugarte é baterista e vocalista da Francisco, El Hombre

Para Sara Kiersten Quin , da dupla Tegan and Sara , os artistas têm de se unir para passar uma mensagem. "Os artistas estão preocupados e precisam usar essa plataforma para avisar as pessoas", disse ao iG . "É uma oportunidade para inspirar o povo", resumiu a canadense.

Neste domingo (12), as músicas de protesto vão ganhar uma plataforma ainda maior no Grammy Awards . A maior premiação da música promete ser a mais politizada dos últimos tempos. Para Sebastián Piracés-Ugarte, não é obrigação de todo artista se expressar politicamente, mas ele precisa "causar". "Ele tem de levar os limites da sociedade para um outro nível. Seja na maneira de ser, na maneira de viver, na mensagem que passa", explicou. "Todos precisamos de exemplos para podermos ser quem queremos ser. E por que não o artista, aquele que a sociedade naturalmente espera que não seja mais do mesmo?".

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