Luiza Possi
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Luiza Possi


A cruzada de Luiza Possi contra o Halloween produziu um efeito curioso: Satanás virou o protagonista absoluto do discurso dela. A cada crítica à festa, a cada alerta sobre fantasias, doces e decorações, lá estava ele novamente, citado, lembrado, convocado para o centro da conversa. É quase uma obsessão.

Enquanto milhões de pessoas passam algumas horas usando uma fantasia, tirando fotos ou distribuindo balas para crianças, há quem passe o ano inteiro pronunciando o nome daquele que diz combater. 'Cuidado com Satanás', 'Satanás tá aí, 'Atenção com Satanás', e o tempero repetitivo de sempre... No fim das contas, 'Satanás' parece ter alugado um triplex na cabeça de Luiza Possi.

É um mecanismo bastante conhecido no comportamento humano: quanto mais uma pessoa organiza sua identidade em torno de um inimigo, mais esse inimigo passa a ocupar seu imaginário. O centro da vida deixa de ser aquilo que ela ama para ser aquilo que ela vigia.

É por isso que algumas pessoas enxergam conspirações em qualquer desenho, música, roupa ou comemoração. Não conseguem mais olhar para uma abóbora de plástico sem imaginar uma batalha espiritual. A festa desaparece; sobra apenas o fantasma criado pela própria fixação.

Halloween, Carnaval, festa junina, fantasia, maquiagem… tudo vira um suposto campo de guerra entre o bem e o mal. Esse tipo de discurso transforma diferenças culturais em motivo de medo e substitui convivência por vigilância permanente.

É uma maneira eficiente de produzir pânico onde antes existia apenas diversão, como se a sociedade precisasse viver em estado de alerta até diante de uma criança vestida de vampiro pedindo um punhado de balas.

No fim, fica uma pergunta inevitável: afinal, onde Satanás está mais presente? Em quem passa uma tarde fantasiado de personagem fictício durante um dia, ou em quem tem passado os últimos anos repetindo o nome dele, atribuindo-lhe cada detalhe da vida cotidiana?

Quem transforma o diabo no assunto principal acaba lhe dando um protagonismo que ele jamais teria sozinho. Talvez o maior triunfo de Satanás, para quem acredita nele, não seja aparecer numa festa de Halloween, mas conseguir morar, sem pagar aluguel, na cabeça de quem não consegue parar de falar dele.

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