Ricardo é ativista pelo direito de usar a maconha
Fabio Rossi/O Globo 20.06.2022
Ricardo é ativista pelo direito de usar a maconha


Lá pelas vizinhanças de Xerém, um ilustre morador jogou umas sementes no seu quintal. Mas diferentemente do que diz a música cantada por Bezerra da Silva, ali não brotou um tremendo matagal, e sim uns pés de maconha muito bem cuidados, plantados pelo ator e ativista pela legalização da canabis Ricardo Petraglia, de 71 anos.

Conhecido por personagens boa- praça na TV, o artista recebeu a equipe do EXTRA em sua casa na Baixada, onde mora há 16 anos com a mulher, a produtora Marília Oliveira.

O lugar é pacato, e lá só se chega depois de alguns quilômetros em estrada de terra. Na conversa, ele fala da carreira, de seu podcast Mobydickshow e, claro, de maconha, enquanto fumava um baseado numa bela piteira. Confira:

Qual o papel da maconha na vida?

"Até 1985, eu era um drogado. Nunca fui de beber, mas cheirava, injetava, tomava ácido, fazia de tudo. Aí fui doar sangue para uma pessoa e descobri que tinha hepatite C, que peguei pelo compartilhamento de drogas. Então, parei com todas elas, me impus isso. Ou eu morreria ou optaria pela vida. A maconha foi a porta de saída para todas as outras drogas, uma válvula de escape. Eu já fumava antes também".

Quando começou a plantar a erva?

"Em 2005, eu fiz uma operação coxofemoral para colocar uma prótese. Isso desequilibrou a minha coluna e comecei a ter dores inacreditáveis. Não podia tomar os analgésicos e anti-inflamatórios, por conta da hepatite. E meu médico perguntou por que eu não experimentava cannabis. Respondi: “car****”, eu experimento todo dia” (risos)".

"Então, fui buscar o óleo, mas custava uma fortuna e ainda custa. Meu salário do INSS pagaria dois vidrinhos. Aí entrei com um processo para poder plantar, alegando que não tinha condições econômicas de comprar o remédio e assim consegui um habeas corpus. Desde então, a minha vida está tranquila".

Você fuma e usa o óleo?

"Todo uso é medicinal e terapêutico. É a mesma planta. Você pode fumar, vaporizar, fazer uso tópico com pomadas, via oral com o óleo ou na comida, como supositório anal ou vaginal, que costuma ser usado para cólicas menstruais. Tem gente que diz: “Que medicinal, que nada! Olha o baseado na boca dele”. Mas o baseado é medicinal". 

Antes de cultivar em casa, você já teve problemas como usuário?

"Já tomei várias duras, tapa na cara da polícia. Muitas histórias na estrada, na praia... Mas olha que engraçado: quando os guardas me paravam e davam dura, a educação era uma. Depois que eu tirei um habeas corpus e tenho licença, eles são educadíssimos, sorriem, perguntam".

"De dois em dois meses, a polícia vem aqui para checar minha plantação e ver se não estou fazendo uma farra. Na maioria das vezes não sabem nada. Eu mostro o cheiro e duvidam que é de maconha. Porque estão acostumados ao cheiro do prensadinho paraguaio, mofado e cheio de semente"

"Dizem: “Nossa, mas é muito diferente”. Acho ótimo quando eles vêm porque tenho a oportunidade de informar e instruir a respeito. Dizem que é muito importante eu fazer isso. Já sugeri de fazer um seminário aqui para promotores, juízes e policiais também". 

Como viu a recente decisão do STJ, que liberou três pessoas para o cultivo?

"Muito importante. Ainda tem uma ação no STF para ser julgada, mas vários ministros já se mostraram favoráveis. Essas pessoas conseguiram em última instância o que eu consegui em primeira. Com esse julgamento nessa corte, acredito que isso deva ser tomado como parâmetro para outros casos. É um passo gigantesco rumo à legalização".

Acha que estamos perto disso?

"Mesmo essa legalização que está sendo tentada pela PL 399 é racista, elitista e capitalista. Tiraram o autocultivo. Só resolve o problema das empresas. Elas vão poder comercializar, mas o camarada da favela vai poder vender? Não quero a legalização como tem sido no mundo, para o mercado. A do Uruguai foi um pouco menos assim. Quero que a maconha deixe de estar na lista das plantas que são proibidas".

Pedem maconha sempre pra você?

"Sim. Tem quem queira comprar. Digo que não posso vender e nem dar, para não perder meu habeas corpus. Mas posso ensinar a cultivar. No meu Instagram (@mobydickshow), digo como faz".

E sua carreira de ator, como fica?

"Acho engraçado, não imaginam que um velhinho como eu seja um maconheiro ativista. Pensam: “Nossa, aquele cara da novela?”. O que as pessoas não sabem é que sempre que me viam na TV, eu estava chapado. O que prova que a maconha não destrói sua carreira. Eu decorava texto, assistia novela, ninava minha filha e fumava um beck ao mesmo tempo".

Você está mesmo aposentado da TV?

"Já fiz isso durante 50 anos. Agora não faço mais, só vendo minhas ideias e falo o que quero. Se me convidarem para uma peça, só se eu tiver envolvimento ideológico".

Como vê o posicionamento de outros artistas sobre a questão?

"A nossa elite intelectual, econômica e artística é covarde de não se colocar e não sair do armário. Só com esses usuários se mostrando é que a sociedade vai ver que isso não é coisa de bandido, e sim de gente comum. O fato de a pessoa fumar maconha não define seu caráter".

Você criou a tag #saidoarmáriousuário?

"Acho que fui eu. No Uruguai, a legalização começou assim. Os usuários saíram do armário. Não começou por pressão de tráfico ou farmácia. As pessoas começaram a ver que o vizinho médico fumava, o juiz também".

"A mãe dava maconha para o filho com epilepsia. Pensavam: “Esse cara é meu amigo, não é bandido, não merece ir preso por fumar uma planta”. No meu podcast, entrevisto padre, juiz, delegado, artista... Pessoas que fumam e que não fumam". 

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