Renata Gaspar interpreta Stephany em
Reprodução/TV Globo
Renata Gaspar interpreta Stephany em "Um Lugar ao Sol"

Renata Gaspar nem lembra qual foi a última novela a que assistiu na vida, antes de “Um lugar ao sol”.

"Eu devia ser criança e morar com a minha mãe... Nunca fui noveleira. Nem 'Avenida Brasil', que teve repercussão imensa, eu acompanhei. Na época, eu tinha que fazer sátiras (para o “Saturday night live”, da RedeTV!), e catava cenas no YouTube", conta.

Atualmente, a atriz afirma estar “em dia” com os capítulos da novela das nove, para a qual foi convocada às pressas a viver Stephany, depois que Maria Flor, que já gravava como a personagem, engravidou. Renata teve somente três dias para ler todo o texto e mergulhar no universo da manicure suburbana que é vítima de violência doméstica. E fez isso escutando muito pagode.

"Pedi para uma amiga pagodeira montar uma playlist pra mim. Enquanto eu estudava os capítulos no hotel, ia entrando no clima, incorporando Stephany. Na construção dela, não quis uma piriguete óbvia, e sim uma mulher do povo, batalhadora", detalha Renata, que precisou usar peruca, unhas postiças e roupas decotadas em cena. "Depois que acabaram as gravações, radicalizei no visual. Queria voltar a ser loira, como antes de 2015. Raspei a cabeça e descolori. Inconscientemente, exorcizei Stephany".

Acostumada a trabalhos cômicos na Globo, Renata faz sua estreia em novelas na obra de Lícia Manzo, dirigida por Maurício Farias, por quem foi orientada no “Tá no ar: a TV na TV” (2014). Ela seria Teresa Cristina, em “Nos tempos do Imperador”, mas as gravações da trama das seis coincidiram com as do “Fora de hora” (2020). A atriz decidiu seguir na companhia de Paulo Vieira na bancada do humorístico, e o papel foi entregue a Letícia Sabatella. Assim, em “Um lugar ao sol”, ela imergiu numa história densa, que mexeu com o seu emocional.

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"Tinha vezes em que eu me questionava: 'Por que trabalhar com tanta dor? Pra que fingir que sou outra pessoa, chorar, sofrer em cena?'. Aí, resgatei a minha função como artista: fazer esse alerta tão importante a outras mulheres e poder salvar vidas. Isso me deu força. Eu não tinha que ter medo das emoções de Stephany, eu era uma ferramenta de cura", reflete Renata, contando que seus parceiros de cena deixaram tudo mais leve. "Danilo Granghéia (intérprete de Roney, o marido violento de Stephany) e Fernanda de Freitas (que faz Érica, irmã da manicure) me ajudaram a superar esse peso. No fim, a gente sorria junto".

Apesar de ter um perfil muito distante do de sua personagem (“A começar pelo fato de ela ser carioca, e eu, muito paulista; ela usa top e salto; eu sou mais excêntrica no jeito de me vestir”, compara), Renata revela já ter vivenciado relacionamentos abusivos.

"Mas não nesse nível da novela. Teve violência física também, mas eram namoros com mulheres. Isso muda muito, as forças são diferentes. Eu agredi e fui agredida. Foi difícil sair dessas relações, era como um ímã que me puxava. Minha família e meus amigos precisaram intervir para que a gente se separasse. E as últimas brigas foram grandes, chegamos ao extremo antes do fim. Hoje, somos amigas. Todos os meus ex e as minhas ex viraram amigos. Nos perdoamos, amadurecemos, não guardamos rancor", detalha, sincera, a atriz, afirmando que o autoconhecimento foi essencial nesse processo de superação. "Passei a me amar mais e a me sentir útil. E esse tipo de relacionamento explosivo não rolou mais, hoje estou em paz com meu amor". Ela se casou no fim de 2020 com a publicitária Bebel Luz, com quem se relaciona há quatro anos).

Bissexual, Renata diz que nunca quis nem precisou esconder sua orientação sexual. E que isso não influencia em sua vida pública.

"Trato esse assunto com muita naturalidade, como tem que ser. Nunca me senti alvo de hostilidade por isso. Na minha família, sim, essa já foi uma questão. Hoje, não é mais. Sou do time que acha que tem que falar mesmo, tem que se expor, servir de referência. Havia um estigma de que ator que se assumisse não conseguiria mais papel hétero, principalmente os homens. Tenho amigos com esse medo, não posso julgá-los. Fato é que vivemos numa sociedade machista, em que até os gays criticam os bissexuais, querem nos obrigar a 'escolher um lado'".

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