Adam Clayton, do U2
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Adam Clayton, do U2

Além de permitirem o relaxamento ideal para deixar de lado cuidados frequentes com barba e cabelo, os tempos de quarentena por causa da Covid-19 levaram o baixista da banda irlandesa U2 Adam Clayton a ouvir mais música (ele descobriu a banda inglesa Dry Cleaning, que “tem um som meio anos 1980, mas com algo novo”), a ler mais e, assim, a se manter informado sobre o Brasil, país de sua mulher, a especialista em artes plásticas Mariana Teixeira de Carvalho.

— Os irlandeses e os brasileiros têm muito em comum! — festeja o músico de 61 anos em entrevista por Zoom ao GLOBO, para falar da reedição do álbum “Achtung baby” (1991), um divisor de águas na carreira do U2 que volta esta sexta-feira no exterior na forma de uma reedição luxuosa em vinil, 30 anos e um dia depois do lançamento do álbum original, e trazendo inéditas da época. — É angustiante o que vem acontecendo com o Brasil nesse último ano e pouco. A banda toda está horrorizada, sabemos que houve uma resposta insuficiente [do governo à pandemia] . Tenho visto as notícias sobre as pessoas que estão perdendo seus trabalhos e suas casas por aí. É terrível que isso aconteça num país de tão vibrante positividade.

Criado como uma reação ao mergulho na cultura americana que os levou ao megaestrelato com os álbuns “The Joshua Three” (1986) e “Rattle and hum” (1988), “Achtung baby” chocou os fãs do U2 com seu rock eletrônico cheio de beats, hedonista e definitivamente europeu.

— De 30 anos para cá, a música eletrônica dançante se tornou algo bem maior, especialmente nos Estados Unidos. Por outro lado, o pop ficou bem mais leve e menos agressivo. Espero que “Achtung baby” pegue as pessoas com um pouco de sua raiva e as acorde — torce Clayton.

Disco que hoje é lembrado pelos hits “Misterious ways”, “The fly”, “One” e “Even better than the real thing” (e que chegará ao streaming no próximo dia 3, numa versão com remixes, lados B e um total de 50 faixas, 22 delas inéditas), “Achtung baby” começou a ser gravado em Berlim, nos estúdios Hansa — onde David Bowie e Iggy Pop fizeram míticos álbuns nos anos 1970.

— A cidade tinha aquele espírito urbano e sujo, e era bem boêmia nos tempos que Bowie e Iggy passaram por lá. Mas chegamos bem quando o muro estava sendo derrubado e tudo que esperávamos encontrar tinha desaparecido — recorda-se Adam Clayton. — Berlim estava em transformação, um tanto confusa. Havia conflitos entre os que queriam e os que não queriam a reunificação alemã, além de um ar geral de depressão e escuridão sobre o estúdio. E era inverno, com frio, neve e dias muito curtos.

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Naqueles primeiros dias de gravação de “Achtung baby”, Clayton e seus colegas Bono Vox (vocais), The Edge (guitarra) e Larry Mullen Jr. (bateria) não tinham ainda muita ideia do que estavam fazendo. E as tensões não tardaram a gerar faíscas — a ponto de o baixista, impaciente com as demandas de Bono, entregar seu instrumento nas mãos do cantor e mandar que ele se virasse — um bom retrato, segundo o músico, da “falta de habilidade de chegar aonde queríamos”.

— Pode ser bem frustrante quando você está ouvindo algo dentro da sua cabeça e trabalhando numa situação estressante. Chega uma hora em que você tem que dizer: “Bono, eu não sei como executar essa sua ideia!” — conta. — “Joshua Three” tinha sido um disco radical para nós, já havia baterias eletrônicas e sintetizadores ali, mas as nossas composições ainda tinham uma estrutura muito tradicional para que entrássemos com elas pelos anos 1990. “Achtung baby” era o que a gente queria fazer, só não sabia que ia ser tão difícil.

Em 2021, Adam Clayton consegue ver o álbum do U2 de 91 como fruto de um tempo de inovações no rock, que se refletiu também em trabalhos de outras bandas.

— Se você falar com os caras do New Order ou dos Happy Mondays sobre o que estavam fazendo naquela época, eles vão dizer que estavam basicamente pegando tecnologia analógica e tentando criar sons digitais. Hoje, o som é todo digital, e o que a gente levava seis horas para fazer leva cinco minutos de estúdio. Ainda adoro esse som do analógico tentando fazer algo que não era para ele fazer — explica o músico, para quem as canções de “Achtung baby” ainda “soam frescas e relevantes” hoje. — É como voltar aos seus antigos diários. Tínhamos acabado de fazer 30 anos, uma idade muito poderosa na vida de um homem. Estávamos começando a pensar nas coisas que eram importantes, amadurecíamos um pouco.

Frontal masculino

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Marcelo de Assis
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Amadurecimento, sim, mas com um certo espaço para molecagem: entre as fotos que compuseram a contracapa do disco, entrou a de um nu frontal de Adam Clayton (estrategicamente riscada em algumas das edições).

— Não acho que a nudez seja mais grande coisa hoje, que temos Instagram e as Kardashians. Mas concordo que a nudez masculina há um bom tempo tenha sido considerada algo meio assustador e ameaçador, embora na arte clássica grega fosse considerada bela. Acho muito bom poder celebrá-la, tenho muito orgulho da minha versão de 30 anos de idade! — diz.

No começo do mês, o U2 lançou sua primeira música em dois anos, “Your song saved my life”, para a trilha da animação “Sing 2” (na qual, aliás, Bono Vox dubla o leão Clay Calloway). Sem turnê ou muitos shows em vista, o que se pode esperar da banda para os próximos meses?

— Estamos desenvolvendo dois projetos no momento. Um é o de gravar nossas músicas em tons e arranjos diferentes, com novas orquestrações ou recursos sônicos, em reinterpretações que deem nova vida às canções. Isso será algo que lançaremos de uma vez só ou em uma série de eventos — conta o baixista. — E o outro projeto são as sessões de onde “Your song saved my life” vieram. Temos novas canções e esperamos lançar um disco daqui a uns dois anos, mas ainda não dá para falar muito sobre ele. Só digo que algumas das faixas nos enchem de orgulho.

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