Agnaldo Timóteo
Divulgação/Sesc Piracicaba
Agnaldo Timóteo

O cantor Agnaldo Timóteo, 84 anos, morreu neste sábado (3), no Rio de Janeiro, devido a complicações decorrentes da Covid-19. Ele estava internado desde o dia 17 de março na UTI do Hospital Casa São Bernardo, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, e precisava de ventilação mecânica invasiva para se manter vivo. Agnaldo contraiu a doença no intervalo entre a primeira e a segunda dose da vacina.

Na última sexta-feira (2), o cantor teve uma piora no estado de saúde, comunicada por seu sobrinho em nota. Contudo, mesmo com os médicos e a família dizendo estar confiantes de sua recuperação, Agnaldo, que fazia parte do grupo de risco para a Covid-19, não resistiu.

O filho do cantor, conhecido como Timotinho, publicou um vídeo no Instagram, confirmando e lamentando a morte do pai. Emocionado, ele agradeceu pelo carinho que recebeu e desejou que Agnaldo descanse em paz.



Último trabalho
Duas semanas antes de ser internado com Covid-19, Agnaldo Timóteo começou a gravar álbum em homenagem à Angela Maria, de quem foi motorista nos anos 1950, antes de se lançar na carreira de cantor.

De acordo com o colunista Mauro Ferreira, em algumas horas, o cantor gravou sete músicas do repertório de Angela Maria. As gravações foram feitas somente com o toque do piano de Moisés Pedrosa, único músico presente no estúdio.

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Trajetória
Com mais de 50 anos de carreira, Agnaldo Timóteo tinha uma voz potente e marcante que, junto com seu carisma e irreverência, o levaram a ser um dos mais populares artistas do Brasil. O cantor não rejeitava o rótulo de brega, mas acreditava fazer apenas música romântica de boa qualidade. De 1965 até o início desse ano, gravou mais de 50 discos e vendeu milhões de cópias.

"Inventaram que sou cafona. Eu sou elegantíssimo. Um dos caras mais elegantes do rádio brasileiro", disse Agnaldo Timóteo no final do ano de 1970, em entrevista ao Pasquim.

Mineiro de Caratinga, município que fica a 322 quilômetros de Belo Horizonte, Timóteo nasceu em 16 de outubro de 1936 e saiu de casa aos 16 anos. Foi torneiro mecânico dos 14 aos 28 anos (profissão responsável por operar o torno, uma máquina utilizada para a fabricação de objetos de metal, plástico ou madeira), enquanto participava de programas de calouros em rádios de cidades como Governador Valadares e Belo Horizonte. Ficou conhecido como Cauby Mineiro.

Um dos seus primeiros shows foi realizado na Bahia, estado pelo qual, segundo o amigo e produtor Edmundo Viana – também já falecido – Agnaldo tinha grande apreço. Era 1964 quando o conhecido O Tabaris Night Club, uma das maiores casas de espetáculos da Bahia entre os anos 1950 e 1960, recebeu o artista. O estabelecimento, que funcionava em um prédio antigo na Praça Castro Alves, em Salvador, fechou em 1968.

“A minha carreira começou em Salvador, n'O Tabaris, quando tive as minhas primeiras alegrias como cantor”, revelou Timóteo em 2015. Na época, o artista também se apresentou na Rádio Excelsior.

Pouco tempo depois, Timóteo mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como motorista da cantora Ângela Maria, ícone da Era do Rádio, com quem teve parcerias posteriormente. Enquanto isso, continuou a carreira. Aos poucos, ficou conhecido nacionalmente.

A canção Meu Grito, composta por Roberto Carlos e gravada por ele, foi um grande divisor de águas na sua carreira. Depois dela, vieram vários sucessos como Ave-Maria, Mamãe e Os Verdes Campos De Minha Terra.

Com 29 anos de idade, Agnaldo Timóteo foi um dos ídolos do iê­iê­iê: "Eu não estive apenas uma vez ou outra no Jovem guarda. Participei do programa até que ele acabou. Cantava A Casa do Sol Nascente, Hava Naguila, quase não gravei com conjuntos. Gravava com orquestra, trabalhei muito com o maestro Peruzzi", disse Timóteo ao Jornal do Commércio. Ele teve os Fevers em alguns discos e, o organista Lafayette toca em "Esse amor que eu não queria", versão de Whiter Shade Of Pale (Gary Brooks/Keith Reeds, original do Procol Harum).

Em 1982, o cantor iniciou uma carreira paralela na política, quando elegeu-se deputado federal do Rio de Janeiro pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT).

Reverências
Filho de dona Catarina, Agnaldo sempre ressaltava que suas canções falavam sobre amor e família. "As mães sempre tiveram um tratamento especial na minha obra, em decorrência de ter sido um filho com enorme amor à minha mãe. Todas as minhas canções falam de amor, e, quando se fala de amor, se fala de toda a família", afirmou em 2015, quando lançou um álbum em homenagem às mães.

Também fez muitas referências a amigos e colegas em sua obra. Gravou músicas de Roberto Carlos, Anísio Silva, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e Moacyr Franco. Seu último álbum, Reverências, foi lançado em 2018.

Gravado ao vivo em apresentação no Teatro Itália na cidade de São Paulo (SP), em 29 de junho, o álbum alinha saudações do cantor a colegas como Elis Regina (1945 – 1982) – de cujo repertório Timóteo revive "Fascinação" (F. Marchetti e Maurice Feraudy em versão de Armando Louzada, 1904) – e Tim Maia (1942 – 1998), lembrado pela balada "Me Dê Motivo" (Michael Sullivan e Paulo Massadas, 1983), um dos maiores sucessos de Tim na década de 1980.

No mesmo álbum, curiosamente, o cantor reverencia Gonzaguinha (1945 – 1991) com outro registro de "Grito de Alerta", música lançada por Timóteo em 1979, mesmo ano em que Maria Bethânia deu voz à composição em gravação para o álbum "Mel" (1979), que ganhou projeção nacional.

Na época, Timóteo ficou chateado com Gonzaguinha pelo fato de o compositor também ter cedido a música para Bethânia, já que, de acordo com o cantor, "Grito de Alerta" foi feita com base em um caso de amor vivido pelo próprio Timóteo.

Na vida amorosa, o artista sempre foi discreto. Contudo, letras como a de "Galeria do Amor" muitas vezes geraram burburinhos sobre a possibilidade de Agnaldo Timóteo se relacionar com homens, o que ele comentou no documentário "Eu, Pecador" (2017), dirigido por Nelson Hoineff. O filme deixa claro que Timóteo vai além de rótulos e definições e que sempre travou uma luta interna contra os próprios desejos.

"Eu, Pecador" é também o nome de uma música lançada por ele em 1977. A letra da composição, assinada pelo cantor, chama por Deus e pede perdão por amar.

Um episódio que tornou-se popular neste quesito foi a participação de Timóteo no programa Superpop, da Rede TV, em 2011. No bate-papo, um colunista disse que, assim como ele, o cantor seria homossexual assumido.

O músico rebateu prontamente: “Não, não. Não sou não. Nem assumido, nem desassumido. Apenas Agnaldo Timóteo”. Essa, talvez, seja a melhor definição para um ser humano tão bem-humorado e multifacetado quanto ele.

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