Autor de "Roque Santeiro" e "O Bem-Amado" morreu em acidente de carro quando as filhas Mayra e Luana eram crianças. As duas reuniram em livro as entrevistas que o pai deixou

Além da autoria de 13 novelas - entre elas "Roque Santeiro", "O Bem-Amado" e "Saramandaia" - e 3 minisséries, entre outras tantas colaborações na TV, o dramaturgo Dias Gomes deixou uma obra extensa também no quesito família. 

Com Janete Clair , seu par na vida e nas tramas globais, ele se casou em 1950 e teve 4 filhos: Alfredo , Guilherme , Marcos Plínio (falecido) e Denise Emmer . Do segundo casamento, em 1985, com Bernardeth Lizio , deixou as irmãs Mayra e Luana Dias Gomes , que fizeram uma compilação de entrevistas do pai e as reuniram no livro "Dias Gomes", lançado em 19 de outubro, dia em que ele completaria 90 anos, pela editora Azougue.

Em conversa com o iG , Mayra, a mais velha, conta da vontade de homenagear o pai e das lembranças que guarda dele, que morreu em um acidente de carro quando ela tinha 11 anos, em maio de 1999. Suas entrevistas foram o que ficou para ela saber o que ele pensava de muitos assuntos que ainda não a interessavam quando ele partiu.

iG Gente: Por que você optou por uma compilação de entrevistas em vez de uma biografia? 
Mayra Dias Gomes:  Meu pai faleceu quando eu tinha onze anos de idade; minha irmã tinha oito. Com essa idade, eu nunca havia conversado com ele sobre diversos assuntos que hoje me  fascinariam. Minha convivência com ele era a de uma criança com seu pai. Eu e minha irmã nunca teríamos autoridade para escrever uma biografia sobre Dias Gomes. Além disso, ele mesmo já o fez, na biografia “Apenas Um Subversivo”. Esse livro foi a maneira que eu e minha irmã Luana encontramos de conhecer melhor nosso pai. No processo de pesquisa, pudemos entender melhor suas ideologias e sua trajetória. Nós passamos a conhecê-lo através de suas próprias palavras, podendo enxergar também a evolução de seu pensamento pela cronologia das entrevistas. Trabalhamos nessa pesquisa por três anos, com a ajuda da minha mãe e da editora. Resolvemos lançar agora porque meu pai estaria completando 90 anos, e achamos que estava na hora de lembrar um dos maiores dramaturgos que o país já teve.

iG Gente: O que Dias Gomes, que sempre foi muito franco em suas entrevistas, diria das novelas de hoje em dia? 
Mayra Dias Gomes:  Meu pai já não acompanhava as novelas quando faleceu, em 1999. O tempo não permitia, ele escrevia diariamente. Na verdade, quando ele faleceu, reclamava muito da falta de criatividade e inovação nas novelas, no teatro, e nas artes em geral. Ele definia o período como decadente para as artes. Eu estou morando nos Estados Unidos há quase quatro anos, então não posso opinar sobre as novelas atuais. Quando estive no Brasil no mês passado para o lançamento do livro, assisti o final de “Avenida Brasil” e o início de “Salve Jorge”, mas não assisti o suficiente para ter uma opinião formada.

iG Gente: Em um dos momentos do livro, Dias Gomes afirma ser ateu. Era uma posição que ele assumia ativamente ou uma característica que não influía na vida e no trabalho? 
Mayra Dias Gomes: Ele era um ateu convicto. Sua crença não influenciava em sua vida diária, até porque minha mãe sempre foi católica, mas certamente está imprimida em toda a sua obra, repleta de críticas à religião. Uma das coisas mais interessantes que descobri durante a minha pesquisa é que Dias Gomes teve uma formação católica rígida. Ele acreditava em Deus com seriedade quando era jovem, e somente iniciou seus questionamentos religiosos aos dezessete anos, ao ler um livro chamado “Formação da mentalidade”, que o fez rever todas as suas crenças e se perguntar se ele realmente acreditava na existência de Deus. Eu não acredito, por exemplo, que ele trabalharia numa emissora que impusesse restrições religiosas, ou em uma emissora que impusesse qualquer tipo de restrição ao seu texto. No livro ele conta que sempre teve liberdade para escrever o que quisesse dentro da Globo. Esse foi um dos motivos pelo qual ele aceitou escrever para a televisão, apesar da crítica de muitos colegas, que diziam que ele havia “se vendido” para a televisão.


Ele conta que sempre teve liberdade para escrever o que quisesse dentro da Globo. Esse foi um dos motivos por que ele aceitou escrever para a televisão, apesar da crítica de muitos colegas, que diziam que ele havia se vendido para a televisão.

iG Gente: Você consegue ver algum autor atualmente que tenha características semelhantes a Dias Gomes? Alguém que pudesse ser considerado seu sucessor?
Mayra Dias Gomes
: Não, não consigo. Falta alguém com uma visão crítica da sociedade brasileira, que fale sobre assuntos atuais que incomodam o povo, e que saiba falar sobre eles com humor. Aposto que meu pai não entraria nessa onda do politicamente correto, ele continuaria sendo quem sempre foi. Como disse muitas vezes, uma de suas frases preferidas era “Quem não veio ao mundo para incomodar, não devia ter nascido.” Mas, além de crítico, o texto do meu pai era extremamente engraçado.

iG Gente: Dias Gomes tinha um ator e uma atriz preferida? Alguém para quem ele escrevesse papéis específicos?
Mayra Dias Gomes
: Acho que só ele poderia dizer quem eram seus atores preferidos. Sei que ele era um grande fã do Paulo Gracindo, Lima Duarte, Fábio Junior e Claudia Raia.

iG Gente: Outro dia, em entrevista ao iG, a atriz Lilia Cabral disse que ela “e todas as atrizes do mundo” sonham fazer o papel da Viúva Porcina. Quem você indicaria hoje para fazer o Sinhozinho Malta e a Viúva Porcina?
Mayra Dias Gomes : Essa pergunta é realmente difícil! Precisam ser dois grandes atores, cativantes e engraçados.

iG Gente: "Saramandaia" ganhará remake na Globo no próximo ano. Você ajudará nesta adaptação?
Mayra Dias Gomes : Não, não tenho nenhum envolvimento na adaptação de “Saramandaia”, mas estou muito ansiosa para ver o resultado.

iG Gente: E na escalação de atores, você poderia dar algum palpite? Quem faria, na sua opinião, a melhor "Dona Redonda"?
Mayra Dias Gomes : Não sei se seria a melhor Dona Redonda, mas imagino que a Claudia Gimenez poderia fazê-la muito bem, porque ela é engraçada demais. Acho que a Fabiana Karla também poderia ser ótima.

iG Gente: Qual outra novela ou peça de Dias Gomes você gostaria de rever em nova versão? Tem ainda algum texto inédito dele que pudesse ser adaptado?
Mayra Dias Gomes:  Eu adoraria assistir as minisséries “O Fim do Mundo” e “As Noivas de Copacabana”, e as novelas “Mandala” e “Roque Santeiro”. Ele deixou textos inéditos para a televisão e o teatro, mas ainda não sabemos o que acontecerá com eles.

Dias Gomes deixou textos inéditos para a televisão e o teatro, mas ainda não sabemos o que acontecerá com eles.


iG Gente: O que você acha que seu pai, que tinha uma visão política mais direcionada para a esquerda, falaria do atual momento político do Brasil? O que ele acharia de escândalos como o mensalão? Você acha que ele se pronunciaria como autor ou escreveria uma obra de ficção para retratar o que o incomodasse?
Mayra Dias Gomes:  Como minha irmã Denise Emmer disse em uma de suas entrevistas recentes, tenho certeza de que meu pai estaria acompanhando os escândalos políticos como o mensalão e que se aproveitaria desse momento no nosso país para escrever sobre o assunto. Acho que ele também estaria de olho no julgamento escandaloso do goleiro Bruno, pois era um Flamenguista doente.

Tenho certeza de que meu pai estaria acompanhando os escândalos políticos, como o mensalão, e se aproveitaria desse momento no nosso país para escrever. Acho também que ele estaria de olho no julgamento do goleiro Bruno, pois era um Flamenguista doente.


iG Gente: Houve um briga entre Dias Gomes e Aguinaldo Silva quanto à divisão da autoria de "Roque Santeiro", uma das novelas mais importantes da dramaturgia brasileira. Qual foi o fim dado a essa disputa? Vocês guardam alguma mágoa desta história? Eles voltaram a se falar?
Mayra Dias Gomes:  “Roque Santeiro” foi uma novela escrita a várias mãos. Além do Aguinaldo, também teve participação do Marcílio Moraes e do Joaquim Assis, e todos contribuíram para o sucesso da obra do meu pai. Essa briga são águas passadas. O importante é que a obra de Dias Gomes está em evidência novamente, e que Aguinaldo certamente tem a intenção de remendar o passado ao convidar a neta de Dias Gomes para escrever com ele. A Renata (Dias Gomes, filha de Alfredo e da também atriz Neuza Caribé) enviou um e-mail para o Aguinaldo quando o contrato dela com a “Malhação” terminou; ele pediu um texto dela para conhecer seu trabalho. Ele leu, gostou, e a convidou para trabalhar com ele em sua próxima novela.

iG Gente: Quais são os seus próximos projetos pessoais?
Mayra Dias Gomes:  Estou terminando de escrever meu terceiro romance, que deve ser publicado pela Record no ano que vem. O livro é baseado em um assassinato que presenciei em Hollywood e fala sobre o mundo obscuro da cidade para onde todos vêm com o objetivo de realizar seus sonhos ou se tornar uma estrela. Além disso, meu primeiro livro, “Fugalaça”, está sendo traduzido para o alemão para ser lançado na Feira do Livro de Frankfurt em 2013, e será produzido para o cinema.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.