Em entrevista ao iG, atriz recorda clima afetuoso que marcou as filmagens de longa que aborda os sabores e dissabores de fazer arte no Brasil

É uma experiência bastante singular conversar com Silvia Buarque. Em parte porque o pedigree artístico é elevado – a atriz é filha dos titãs da cultura brasileira Marieta Severo e Chico Buarque – em parte porque o entusiasmo dela ao falar de “Os Pobres Diabos” , filme que estreia nesta quinta-feira (6) no País, é contagiante.

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Silvia Buarque em cena do filme
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Silvia Buarque em cena do filme "Os Pobres Diabos"

O lançamento do filme, quase cinco anos após as gravações, provoca em Silvia Buarque os mais tenros sentimentos. Não é para menos. É uma oportunidade de trabalhar com seu marido Chico Diaz – no filme eles são amantes – de falar sobre a arte e o artista, “tão desvalorizados no Brasil”, e de reencontrar amigos que compartilharam do amor a um projeto também tão singular.

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“Eu vi no Ceará. Vi com um distanciamento e curti. Ri comigo mesma”, confessa a atriz que nesta semana teve uma agitada agenda de divulgação do filme e achou um tempinho para bater um papo com a reportagem do iG . Os quase cinco anos entre as gravações em Aracati, em condições não exatamente análogas às dos personagens do filme – uma trupe mambembe que roda o Nordeste – mas precárias como a de uma produção essencialmente de guerrilha, fizeram bem a relação de Silvia com o filme. “Me diverti com o mau humor dela”, explica Silvia que se define como uma pessoa não muito otimista. Com o avanço do papo ela reveria essa definição de si mesma.

Em “Os Pobres Diabos”, ela é Creuza. Aficionada por novelas, ela se ressente da vida que leva. “Eu a vejo como uma impostora”, analisa a atriz que admite o receio que teve quando Rosemberg Cariry – a quem conheceu por meio do marido – a convidou para o papel. “É uma mulher nordestina, vulgar”, contextualiza. “Não é algo que você pensa diretamente em mim. Isso me envaideceu e amedrontou, mas eu mergulhei”.

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Afeto

Rosemberg Cariry e Silvia Buarque nos bastidores de
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Rosemberg Cariry e Silvia Buarque nos bastidores de "Os Pobres Diabos"

“Rosemberg é dessas pessoas que você não nega nada”, observa a atriz. Ela conta que o clima de afetuosidade que testemunhamos na tela – há atritos, mas eles se apequenam em face de uma solidariedade pulsante entre os integrantes daquele circo – é eco do experimentado entre os atores e equipe de produção do lado de fora.  Justamente por isso, não raro o elenco se via trabalhando para além das 12 horas protocolares. Essa verdade, perene, se verifica também na iminência do lançamento do filme. Atores hospedando colegas de elenco, outros pagando do próprio bolso para ir à pré-estreias;pequenos gestos que atestam esse afeto para além do circunstancial.

Mas além do afeto, que característica deste filme mais te atinge? “A honestidade”, responde  sem pestanejar a atriz. Que ainda se derrete pelo final. “foi filmado pela manhã, melancolicamente e nós estávamos exaustos”, observa antes de externar uma preocupação com eventuais spoilers. O entusiasmo dela move a conversa. “Eu tenho a pretensão com esse filme de se ter um olhar com mais ternura”, retruca a reportagem quando indagada se desconfiava que o público poderia perceber o comentário a respeito da desvalorização do artista.

Afeto, honestidade, melancolia e beleza rimam com o entusiasmo de Silvia. Ela já se prepara para um novo filme com Chico. O longa se chama “Montanha-Russa” e deve começar a ser gravado entre outubro e novembro. Nele, eles viverão um casal em crise. Nada mais distante da lua de mel de Silvia Buarque com “Os Pobres Diabos”, filme tão querido que tem até uma ponta de sua filha.  A atriz se despede do repórter e o entusiasmo não é mais só dela.

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