Para enfrentar e combater certas realidades sociais, muitos artistas se utilizam da lírica da poesia como sua principal ferramenta na sociedade

Uma caneta, um papel e as palavras são tudo o que esses artistas precisam para imprimir sentimentos que muitas vezes parecem impossíveis de serem verbalizados. Entretanto, não é apenas para lidar com as emoções individuais que a poesia transcende a sua universalidade. Muitas vezes é através dessa literatura que realidades duras e enraizadas na sociedade ganham um novo teor que podem se transformar em ferramentas importantes e incisivas para quebrar certas correntes.

Para artistas como Conceição Evaristo, escrever poesia pode ser um processo curativo
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Para artistas como Conceição Evaristo, escrever poesia pode ser um processo curativo


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“Quando você escreve um texto, uma poesia ou uma prosa também, ele te apazigua depois, mas um pouco. A poesia tem esse poder de você diluir um pouco a dor, diminuir a incompreensão” reflete a poeta Conceição Evaristo. A escritora possui um longo caminho na arte da literatura, tendo ganhado o gosto pela escrita ainda criança, conquistando inclusive prêmio por uma redação que escreveu na época de escola em que relembrava o estilo da “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, para um poema que honrava sua ancestralidade, intitulado “Porque meu avô me dizia brasileiro”.

“É um movimento de se expandir e ao mesmo tempo também de recolhimento. É também um processo curativo, mas pode ser também, dependendo do texto, um momento que você intensifica sua dor”, completa a escritora. Sua arte tem como um dos seus principais eixos a “escrevivência”: as suas experiências como fonte de inspiração. A negritude e o poder e a força dos seus ancestrais, por sua vez, não deixam de estar presentes na sua escrita. “Vozes-mulheres”, um dos seus poemas que integrou um dos volumes do “Cadernos Negros”, por exemplo, ressalta a importância da sua voz e das vozes de sua avó, mãe e filha, diante do cenário racista e escravocrata no qual o Brasil está inserido, enaltecendo um futuro em que uma liberdade plena seja alcançada.

A ressonância dessas vozes como a de Conceição Evaristo, nascida em Minas Gerais, também se faz nas periferias de São Paulo. Todo mês, o Sarau Kintal, realizado por Fábio Monteiro, mais conhecido como Akins Kintê, abre um espaço na Brasilândia, Zona Norte da capital, para que a poesia flua – seja pela sonoridade da voz ou pelo deslize do lápis no papel. “A gente percebe que tá trocando outras ideias que não só sobre a literatura, mas a partir dela a gente troca ideia de autorrespeito, de voltar para a escola. Eu acho que a poesia está mudando nossa realidade”, afirma o poeta. Com o seu primeiro livro publicado em 2007, “Punga” em coautoria com Elizandra Souza, o escritor percebe as mudanças que essa arte pode trazer, como a volta da conexão com a autoestima.

A escolha de seu nome para assinar suas poesias, por sua vez, não poderia fugir do teor lírico que ele carrega em si. “Akins quer dizer jovem guerreiro, Kintê vem do livro ‘Kunta Kintê’”, explica o poeta, que adota o nome desde seus 15 anos. Fã da literatura, Akins teve como uma de suas grandes influências os “Cadernos Negros” que o inspiraram a desenvolver suas habilidades no universo poético. “Foi minha primeira referência”, comenta.

Poesia como comunicação

Apesar de a arte ser considerada universal, esse conceito muitas vezes é colocado em questionamento, como explica Conceição Evaristo. “Nós, oriundos de povos africanos, sabemos que esse universal é muito mais dirigido a povos que são considerados que teriam uma humanidade e outros não. Os povos africanos, os povos indígenas, eles sempre tiveram sua humanidade questionada”, afirma.

Entretanto, apesar desse cenário, a poeta enxerga que a universalidade da poesia acaba se reverberando de outro modo. “A nossa poesia e o nosso texto - falando de uma criação coletiva - tem tocado profundamente as pessoas de outras experiências de vida completamente diferente da nossa”, afirma. Segundo ela, a literatura muitas vezes trazem a imagem do negro de forma estereotipada e que, ao escrever, é possível que se extrapole essa posição de pessoa negra na sociedade e “caminhar mesmo em direção de uma humanidade”, como ela mesma defende ser uma condição natural de qualquer ser humano. “A poesia ainda é o lugar de trabalhar essa possibilidade de encontro”, comenta.

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O peta Akins Kintê com o seu trabalho
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O peta Akins Kintê com o seu trabalho "Muzimba - Na Humildade Sem Maldade" publicado em 2016

Por meio dessa comunicação com o outro que Akins Kintê também enxerga que a poesia seja uma forma de combater questões estruturais que cercam sua vivência e experiência no mundo. “A gente parte do ponto que é necessário lutar contra a violência e o meu trabalho tem essa revolta, mas tem o principio de ser contra a violência”, explica o autor do premiado “Duro não é Cabelo”. Para ele, seus versos não são nem metade da violência que ele encontra nas ruas. “A poesia tem que ser universal porque ela vai fazer a comunicação”, completa.

Dos pequenos aos grandes espaços, a importância dessas poesias tornam-se essenciais para intervir na realidade social, como demonstra Conceição Evaristo. “Se esse texto conseguir realmente promover ou escrever cada um de nós nessa universalidade humana, nessa possibilidade, nesse direito de cada um ser cada um e, ao mesmo tempo, desse cada um ser todos, aí eu acredito que essa literatura possa conduzi para alguma coisa”, opina.

Batalha de poesia

Slam das Minas - SP na virada cultural
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Slam das Minas - SP na virada cultural

Em paralelo às palavras escritas, o Slam ressurge no país também como um movimento em que a poesia somada a uma performance se unem em uma batalha lírica. “Slam é uma batalha de poetas, não é um estilo de escrita, literário, é uma competição”, explica Carolina Peixoto, integrante do Slam Das Minas - SP. “Essa competição surgiu em Nova York. Slam é ‘spoken word’. São batalhas de palavras faladas e de textos autorais com até três minutos”, completa.

O coletivo do qual faz parte surgiu com a iniciativa de trazer mais mulheres para esse universo, garantindo uma vaga feminina na Batalha de Slam BR que é o campeonato nacional e cujo vencedor participa da Copa do Mundo. “O Slam, como tanto outros movimentos culturais que são abertos, que tem espaço aberto para qualquer pessoa ocupar o microfone é muito válido na questão de você dar voz aqueles que não estavam acostumados a poder usá-las”, opina a poeta. “Quando você cria um movimento cultural acessível e totalmente aberto você ameniza de forma paliativa essa lacuna que a sociedade impõe”, completa a artista.

Segundo Peixoto, o Slam chegou no Brasil em 2008 com apenas um Slam e hoje o País possui mais de quarenta, apresentando um crescimento cultural do movimento. “Eu gosto da palavra falada porque eu acho que ela tira o texto do papel e obriga o poeta a interpretar o que ele tá tentando dizer”, afirma. Para ela, o Slam das Mina SP não foi apenas um espaço de construção poética, mas também um lugar de acolhimento. “O meu ganho maior é enquanto feminista, enquanto luta, parceria, amizade, eu acho que foi muito além do Slam em si”, revela.

Em evidência

O Itau Cultural recebeu a Ocupação Conceição Evaristo como forma de celebrar sua arte
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O Itau Cultural recebeu a Ocupação Conceição Evaristo como forma de celebrar sua arte

O eco dessas vozes tem se reverberado em outros espaços, que muitas vezes se restringiam a uma hegemonia cultural. “Nós vamos ressignificar esses espaços: os bares, as bibliotecas. A gente usa a poesia pra diálogo, pra trocar ideia de como vamos enfrentar o sistema”, comenta Akins Kintê. A vontade de extrapolar as próprias fronteiras chegou a resultar até mesmo em projetos que evidenciam essa poesia da periferia para outros mundos. Com o “Letras e Becos  - Literatura das Periferias de São Paulo” uma antologia digital foi criada com 18 autores tendo dois de seus textos traduzidos para o inglês, em parceria com estudantes da Georgetown University, nos Estados Unidos.   

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Não só digitalmente, mas também nos espaços físicos algumas autoras também tem conquistado seu espaço. Na avenida Paulista, icônica região de São Paulo, o Itau Cultural já utilizou seu espaço central privilegiado para trazer à tona o trabalho de certas escritoras. “O Brasil está correndo atrás nos últimos anos do prejuízo histórico”, comenta Caroline Rodrigues, do núcleo de Audiovisual e Literatura do Itaú Cultural em relação à falta da representatividade das mulheres na literatura. No último mês, a casa abrigou a “Ocupação Conceição Evaristo”, como uma forma de trazer à tona o valor do trabalho da autora internacionalmente reconhecida e a exposição vai até o dia 18 de junho.

Depois de várias viagens da equipe para a casa da poeta e descobertas de caminhos afetivos, como as escritas da mãe de Conceição bem como cartas com outras mulheres negras, o Itau Cultural transformou todo aquele material repleto de vocabulários em uma experiência mais física. A iniciativa, entretanto, não foi a primeira vez. No ano passado, o local também abrigou a ocupação de Hilda Hilst, relembrando a contribuição da artista para a literatura brasileira. “São teorias e anos de machismo e anulação do trabalho das mulheres entre outros fatores. Esse ano a gente faz a ocupação só com mulheres então tem esse direcionamento evidente, reverter essa anulação histórica”, explica Rodrigues.

Para Conceição Evaristo, a força dessa poesia em evidência é clara. “Eu ouvi uma coisa: ninguém chora diante de um dicionário. Diante de um texto literário as pessoas se fragilizam. Acho que em tempos tão duros como o nosso a poesia pode recuperar essa humanidade que corre risco”, conclui.  

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