Autora da trilogia "Puro Êxtase" fala ao iG sobre sua trilogia feminista, que está com o segundo volume nas livrarias, o fim da ditadura do príncipe encantado e a (bem-vinda) desinibição feminina em falar e consumir sexo

 Não é segredo que a palavra do momento é empoderamento. Parte da lógica de se empoderar passa pela relação da mulher com sua sexualidade e com o sexo propriamente dito. Nesse sentido, dados divulgados pela Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual são reveladores. O levantamento aponta que 80% do público consumidor de produtos eróticos no Brasil é constituído por mulheres e são elas as responsáveis por aumentar o mercado erótico brasileiro em 14,5% na comparação de 2016 com 2015.

Leia também em Sexografia: O que está em jogo com a proibição da pornografia no Brasil?

Sexo
shutterstock
Sexo

Elas não só estão lendo mais sobre sexo, como também estão escrevendo e publicando sobre o tema. Toda a literatura erótica erguida na esteira do sucesso de “50 Tons de Cinza” tem as mulheres como carro-chefe. Em todas as frentes. O maior sinal de empoderamento é justamente essa liberdade imposta. “O mundo não está mudando, nós o estamos alterando com nossa força de vontade e nossa voz”, disse Josy Stoque, autora da trilogia erótica “Puro Êxtase”, publicada pela editora Astral Cultural , em entrevista ao iG .

Leia também em Sexografia: Da nudez ao sexo, pode a pornografia ser considerada uma manifestação artística?

“Puro Êxtase a Dois”, segundo volume da trilogia “Puro Êxtase” , flagra a protagonista Sara Mello hesitante em se engajar em uma nova relação amorosa pouco tempo depois de se separar. Ela está atraída por Rodrigo, um cara com quem passou uma única noite, e tanto ele como ela se ressentem de mergulhar de cabeça no que estão vivendo. Stoque diz defender uma literatura feminista, propõe a desconstrução do casamento como imposto pelos ditames machistas da sociedade e diz acreditar que as mulheres não procuram mais um príncipe encantado.  A seguir, os melhores momentos do bate-papo com a autora.

iG - O que te motivou a escrever uma trilogia erótica? Você acredita que "50 Tons de Cinza" descortinou uma demanda reprimida por esse viés literário? Teme alguma comparação com a obra de E.L James?

Capa do livro Puro Êxtase
Divulgação
Capa do livro Puro Êxtase

Josey Stoque - Eu tinha acabado de sair de um divórcio e estava passando por um momento de transição, empoderamento e autoconhecimento. Comecei a escrever como terapia, sem grandes pretensões, nem era para ser uma trilogia, inicialmente. Mas, por fim, se mostrou necessário para que a protagonista crescesse e amadurecesse e, consequentemente, eu também aprendesse mais sobre mim mesma e sobre o que eu queria para mim.

Eu acredito que "50 Tons de Cinza" tenha, sim, aberto os olhos do público feminino para a literatura erótica, que sempre esteve no mercado, porém, escondida por se tratar do preconceito que ainda existe na sociedade quando o assunto é sexo.

Não temo nenhuma comparação com a autora da trilogia, até porque temos estilos completamente diferentes e propostas literárias distintas.

iG - Como foi a construção da protagonista? Quais elementos da Sara são autobiográficos, emprestados de pessoas que você conhece e quais são estritamente ficcionais?

JS - No sentido emocional, Sara é completamente eu. Suas tristezas, frustrações, derrotas, medos, mágoa e rancor. Sua superação também é muito parecida com a minha. Todo o universo ao redor dela também é bem realista, inspirado no dia a dia que eu observo, absorvo e tomo nota, sem escrúpulos. O bom de escrever assim é que as pessoas logo se identificam ou identificam alguém que conhecem.

iG - É possível atender demandas feministas escrevendo uma obra que se apoia essencialmente em fantasias?

JS - Completamente possível. A trilogia toda é feminista. A protagonista se empodera, se desconstrói de preceitos engessados e descobre a própria libertação para, no fim, encontrar a felicidade pessoal.

iG - Rodrigo Valente é uma idealização feminina ou um arquétipo masculino? 

JS - Eu o construí como ele deveria ser para conquistar um mulher ferida e machucada como Sara. Não podia ser qualquer tipo de homem. Também não poderia ser somente um cara romântico. Vou determinar como idealização feminina, portanto.

iG - Quais são os principais pontos desse segundo volume e o que você pode adiantar sobre o terceiro? Ele já está escrito?

Christian Grey e Anastasia Steele vivem seu conto de fadas particular em
Divulgação
Christian Grey e Anastasia Steele vivem seu conto de fadas particular em "50 Tons Mais Escuros"

JS - Basicamente esse segundo livro é a construção da confiança entre eles. Sara tem medo de se envolver, por mais que queira, e Rodrigo vai ter que fazê-la acreditar que ele está ali para ficar e que não vai desistir no primeiro obstáculo. O terceiro volume, que já está escrito, é sobre o relacionamento deles e a confiança conquistada será testada pela vida, como acontece no cotidiano, para que eles tenham certeza de que é mesmo "para sempre" e não passageiro.

iG - Existe uma crítica ao casamento no seu livro? Quais são os anseios e receios de Sara em relação ao matrimônio nesse segundo livro?

JS - Existe, principalmente porque a sociedade impõe o casamento e filhos como único meio de felicidade de uma mulher. Sara questiona isso, principalmente, como o casamento se dá ainda, em pleno século XXI, ou seja, a mulher se doando mais do que o homem para que a relação não morra. Sara já teve um matrimônio fracassado e sabe onde errou, mas isso não a impede de temer que o mesmo aconteça com o próximo. Portanto, nesse segundo livro, ela vai estabelecer a forma como quer viver, o tipo de liberdade e individualidade que vai manter, e o que espera do cônjuge. Ela estabelece, claramente, que espera um companheiro e um parceiro, não um "filho", para cuidar, se anular e sugar toda sua energia e vitalidade. Ela quer um homem que ande ao seu lado, não na frente, comandando, nem atrás, a seguindo como um "cachorrinho". Acho que a mulher moderna e independente quer esse tipo de relacionamento, eu pelo menos quero.

iG - Você acha que as mulheres ainda procuram um príncipe encantado? Por quê?

JS - Acho que não. E é isso que os homens não entendem. Nós evoluímos, aprendemos, nos empoderamos, porém, os homens continuam parados no tempo, com suas concepções machistas e retrógradas , achando que mulher ainda acredita em conto de fadas. Nós esperamos mais um "cavaleiro", um homem de ação e de atitude, que faça o que for preciso para ter uma relação madura e profunda com uma mulher. Que erre tentando acertar e não se acomode em um relacionamento "bom" para ele. E que não tenha medo de evoluir com a companheira.

iG - Quais bons livros sobre a temática de "Puro Êxtase" você leu recentemente? Essa é uma literatura que sempre te interessou enquanto leitora?

Capa do livro
Divulgação
Capa do livro "Dominados"

JS - Comecei a ler erótico depois de "50 Tons", mesmo que já tivesse escrito alguma coisa do gênero. Eu realmente gosto, mas é difícil encontrar obras de outros autores parecidas com "Puro Êxtase". É mais fácil encontrar semelhantes com "50 Tons". Gosto de saber que escrevi algo original, mas não fui a única a abordar esse tema. A autora Julianna Costa, publicou pela editora Universo dos Livros, o livro “23 Noites de Prazer”, que tem a mesma temática, apesar de ser abordada de forma diferente. E Mila Wander, em “Dominados”, lançado pela Qualis Editora, também fala sobre empoderamento feminino e superação. Sou fã das autoras, são nacionais e muito amor.

iG - Na sua avaliação, as mulheres estão falando mais abertamente sobre sexo? Por quê?

JS - Estão, graças a Deus! Fomos caladas por muito tempo. Nos ensinaram a sermos discretas e a não falarmos desnecessariamente. Que certos assuntos eram constrangedores e não apropriados. Porém, nós ficamos adultas, lemos, estudamos mais que homens, inclusive, assumimos nossa sexualidade como algo natural, portanto, por que não falar a respeito? Lemos sobre o assunto e ainda reclamamos para nosso parceiro quando não nos satisfazem. Isso é libertação de verdade e empoderamento. Ser o que quiser e dizer o que pensa, sem medo de repressão, apesar de que ainda existe. Acredito que a literatura e o próprio avanço da mulher, com movimentos como o feminismo, têm ajudado a superarmos nossos receios. Fico muito feliz ao encontrar leitoras e conversarmos abertamente sobre qualquer coisa que quisermos, inclusive sexo.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.