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Criticadas pela mesmice e duração, novelas tentam se renovar, mas nem sempre o público aceita as novidades. O que o público de novelas quer?

De tempos em tempos as novelas brasileiras se veem em uma encruzilhada: como continuar atraente após 64 anos no ar para renovar seu público sem desagradar aqueles que gostam de sua fórmula tradicional? As emissoras – principalmente a Globo, principal produtora do gênero no país – tentam algumas inovações, que nem sempre dão certo. 

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Lúdica, 'Meu Pedacinho de Chão' agradou à crítica, mas não à audiência
Divulgação/TV Globo
Lúdica, 'Meu Pedacinho de Chão' agradou à crítica, mas não à audiência


Apesar de presa a um formato que tente agradar à toda a família, aqui e ali as tramas conseguem romper as amarras e testar experimentações. Um dos diretores que mais contribui para a inovação das novelas  é Luiz Fernando Carvalho . Em 2014, ele deu uma roupagem inédita ao remake de "Meu Pedacinho de Chão", apostando em figurinos e cenografia lúdicas às 18h - a protagonista Juliana ( Bruna Linzmeyer ), por exemplo, tinha cabelo rosa.  A crítica se encantou, mas o público torceu o nariz e a audiência não foi das melhores

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Em 2016, sofreu altos e baixos com "Velho Chico", que retomou a produção de novelas regionais às 21h, o que não acontecia há 15 anos. A trama começou visualmente encantadora, porém nem todos tinham paciência para o ritmo mais lento e contemplativo da narrativa. A história passou um tempo chata até encantar, mas não da mesma forma, seus telespectadores na reta final.

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No ano passado, a diretora Amora Mautner implantou em "A Regra do Jogo" a caixa cênica, em que as câmeras ficavam escondidas pelo estúdio e os atores podiam contracenar livremente, sem marcação de espaço. A técnica proporcionou ângulos interessantes e não chegou a atrapalhar a história, que demorou a emplacar por um fator externo: o sucesso de "Os Dez Mandamentos" na Record. Com linguagem visual de série - cada capítulo tinha um nome - e muitas cenas de ação, a novela de João Emanuel Carneiro poderia ter ido melhor caso fosse mais curta.

Inovações

A família Mattoso (Flávio Silvino, Patrícia Travassos, Otávio Augusto) com Gerald (Guilherme Leme) e Vlad (Ney Latorraca) em
Divulgação/Viva
A família Mattoso (Flávio Silvino, Patrícia Travassos, Otávio Augusto) com Gerald (Guilherme Leme) e Vlad (Ney Latorraca) em "Vamp"

O horário das 19h geralmente é o mais testado para novas linguagens.  Como em 1991, quando a Globo produziu "Vamp", uma novela sobre vampiros que deu super certo e marcou uma geração.  "O Beijo do Vampiro", em 2002, voltou à fórmula, mas agradou basicamente a quem não viu a anterior.

"As Filhas da Mãe" (2001), de Silvio de Abreu, usava rap no início para resumir a história do dia anterior, mas o telespectador não assimilou.  "Bang Bang", ambientada no Velho Oeste mas com elementos atuais, foi um fiasco, mais por culpa de seu texto que da ideia, que seria boa para uma minissérie. Antônio Fagundes conversou pouco com um robô em "Tempos Modernos" (2010), já que a ideia não colou. Em "Morde e Assopra", no ano seguinte, Walcyr Carrasco precisou diminuiu o foco em dinossauros e robôs, transferindo o protagonismo para Cássia Kis , que comoveu como a humilde Dulce, carregando a novela nas costas.

A maioria das tentativas que deram errado às 19h tiveram o texto confuso como culpado. Caso de "Além do Horizonte" (2013), que mostrava a "busca pela felicidade" e exagerava no mistério. Não decolou.

Respiro

Susana Vieira, Carolina Dieckmann e Renata Sorrah em
Divulgação/TV Globo
Susana Vieira, Carolina Dieckmann e Renata Sorrah em "Senhora do Destino"


Quando aposta em elementos atuais que não são tradicionalmente abordados na dramaturgia, o sucesso tende a ser mais certeiro. Aguinaldo Silva aproveitou a repercussão do caso do menino Pedrinho, sequestrado na maternidade, e criou "Senhora do Destino", o maior sucesso do século 21 até agora. A vilã Nazaré Tedesco, que rouba um bebê e mata pessoas jogando-as da escada, é meme até hoje.

Murilo Benício viveu Léo (centro), que era clonado a partir do falecido Diogo (esquerda), e interpretou ainda Lucas em
TV Globo
Murilo Benício viveu Léo (centro), que era clonado a partir do falecido Diogo (esquerda), e interpretou ainda Lucas em "O Clone" (2001)

"O Clone", de Glória Perez , também pegou carona no noticiário da possível clonagem humana e conquistou vários países. A autora é pioneira no assunto desde 1989, quando escreveu "Barriga de Aluguel". A dúvida de com quem a menina iria ficar dividiu o país.

As inovações também acontecem às 18h. "Além do Tempo", no ano passado, foi a primeira a contar uma história com uma passagem de tempo de cerca de 150 anos entre uma fase e outra. A trama de Elizabeth Jhin instigou o público, sendo deliciosa de assistir nas duas fases. 

A Record também tem sua parcela de inovação com "Vidas Opostas", em 2006, ambientada em uma favela, o que se tornaria tendência na Globo a partir do ano seguinte, e "Os Dez Mandamentos", a primeira novela brasileira bíblica (antes foram produzidas minisséries). O fato é que, de Beto Rockefeller (1968) para cá, o gênero tenta se renovar, comprovando que muita história ainda pode ser (bem ou mal) contada.

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