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Novela das 23h usou muita violência, sexo e intriga para contar sua história, mas demorou para acontecer e acabou vítima do melodrama

"Liberdade, Liberdade", a novela das 23h da Globo, chegou ao fim nesta quinta-feira (4), em um capítulo esletrizante, ágil e cheio de acontecimentos bombásticos. A trama fugiu do óbvio no fim: Joaquina (Andreia Horta) não matou o intendente Rubião (Mateus Solano) para se vingar de todas as desgraças que ele promoveu em sua vida. Esta função coube à governanta Anita (Joana Solnado), que se cansou de todas as vezes que foi esnobada pelo patrão que tanto amou.

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Andreia Horta e Bruno Ferrari em cena de
Reprodução/TV Globo
Andreia Horta e Bruno Ferrari em cena de "Liberdade, Liberdade"

Aconteceu de tudo no último capítulo: mortes, explosões, tiros, beijos, declarações, revelações, revolução, e um final feliz. É uma pena que " Liberdade, Liberdade " não tenha mantido esse ritmo frenético ao longo de sua trajetória. A novela da Globo fez sucesso, teve boa audiência e repercutiu nas redes sociais, no entanto, esse sucesso se potencializou na reta final da trama, quando engrenou e desenrolou diversos conflitos e enredos que ficaram em banho maria durante os diversos capítulos.

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Esse ritmo também gerou problemas signficativos no fim. Várias pontas ficaram soltas e diversos personagens não tiveram um destino claro: o público não ficou sabendo o que ocorreu com Virgínia ( Lilia Cabral ),  Dionísia ( Maitê Proença ) e nem Mimi ( Yanna Lavigne ), que chorou a morte de André ( Caio Blat ), pai de seu filho, mas não teve seu desfecho esclarecido.

A trama de André e Tolentino emocionou o público
Felipe Monteiro/TV Globo
A trama de André e Tolentino emocionou o público

"Liberdade, Liberdade"  também foi uma mistura estranha entre o melodrama e a história. A trama apresentou histórias de amor e intrigas bastante tradicionais e pouco entrou nos aspectos históricos  e políticos que permeavam o século XIX, focando em dramas mais folhetinescos. No entanto, quando entrou, entrou com tudo, e foi capaz de transmitir mensagens realmente impactantes.

Um dos maiores méritos da trama foi a maneira como a história foi utilizada para tratar de temas muito atuais, como o preconceito contra mulheres, o racismo e a homofobia. A novela conseguiu mostrar todos estes preconceitos que eram tão fortes na época e conseguiu traçar paralelos interessantes com o contemporâneo, mostrando que muitos deles ainda estão presentes nos dias de hoje. Uma experiência anterior parecida foi vista na novela das 18h "Lado a Lado" (2012), que utilizou uma trama de época para discutir questões bastante atuais.

A trama da relação entre André e Tolentino ( Ricardo Pereira ), foi uma das mais cativou o público e rendeu momentos realmente emocionantes. Um deles, foi a muito comentada cena de sexo entre os dois , a primeira entre dois homens na história da TV brasileira, um importante avanço. A morte de André na forca, nas mãos do homem que ele tanto amou, foi uma das mais trágicas de toda a trama, emocionando muita gente.

O elenco ajudou em todo este processo de cativar o público. Todos os atores estiveram impecáveis em seus papéis, com destaque para Andreia Horta, Lilia Cabral, Caio Blat , Ricardo Pereira, Juliana Carneiro da Cunha , Marco Ricca - cujo personagem , Mão de Luva, vai inclusive ganhar um spin-off na web - e Mateus Solano .  Quem brilhou e se tornou o grande destaque da trama foi Nathalia Dill , com sua interpretação irrepreensível da vilã mimada Branca, que conseguia ser ao mesmo tempo cruel e hilária.

Violência 

Anita (Joana Solnado) matou Rubião (Mateus Solano) no final de
Felipe Monteiro/TV Globo
Anita (Joana Solnado) matou Rubião (Mateus Solano) no final de "Liberdade, Liberdade" e fez de seu cadáver uma marionete.

Outro aspecto que chamou a atenção em "Liberdade, Liberdade" foi a violência retratada pela trama. Mortes a tiros, facadas, enforcamentos, vilão emparedado, olhos arrancados, castração, tudo foi visto em "Liberdade, Liberdade" de maneira basta explicita. No último capítulo, por exemplo, a forma como Anita matou Rubião e o fez como marionete para atingir seu sonho de ficar com ele foi perturbadora. Tais situações só foram possíveis por conta da maior liberdade que o horário das 23h confere, e o autor da trama, Mário Teixeira , fez amplo usos desses recursos. 

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É interessante notar como este elemento da novela vai de encontro à estética que foi imprimida a ela. A trama apresentava uma atmosfera muito mais soturna e até mesmo mais suja do que aquela normalmente vista em tramas de época na televisão brasileira, que costumam apresentar cenários mais coloridos e figurinos mais vibrantes - basta assistir à novela das 18h da Globo , "Êta Mundo Bom", ou à novela da Record , "Escrava Mãe" – que se passa no mesmo período histórico – para perceber a diferença. 

Nathalia Dill foi o grande destaque de
Reprodução/TV Globo
Nathalia Dill foi o grande destaque de "Liberdade, Libderdade"

Tudo isso fez "Liberdade, Liberdade" parecer uma versão histórica brasileira de "Game of Thrones", misturando violência explícita, intrigas políticas e sexo. A trama até teve um lado mais místico, representado na figura de Ascenção ( Zezé Polessa ). No entanto, onde "Game of Thrones" sucede e "Liberdade, Liberdade" fracassa é na complexidade das tramas e no ritmo de capítulos. A verdade é que a novela demorou para acontecer de verdade e ficou minguando durante muito tempo com tramas paradas e uma grande dose de melodrama. Além disso, a novela , como já foi dito, pouco explorou as tramas políticas à sua disposição, diferente do que faz a série americana, uma pena, porque alguns dos momentos mais interessantes foi quando explorou essas questões.

Em entrevista ao iG , o autor Mário Teixeira afirmou que não se preocupava em repetir o sucesso de "Verdades Secretas" , última trama do horário. De fato, "Liberade, Liberdade" não repetiu esse sucesso. No entanto, a trama teve muitos méritos, repercutiu bem e terminou em alta. O grito em nome de "liberdade"  de Joaquina demorou para chegar, mas quando chegou, veio com força, despertando no telespectador o desejo que ele ecoe ainda por muitas gerações.

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