Com seis anos de programa, apresentador fala sobre inveja e censura: "Tenho vergonha de nunca ter trazido a Pitty"

Quando estreou o “Legendários” em 2010, Marcos Mion sabia exatamente o que estava fazendo, assim como afirma ter feito durante toda sua carreira. Completando seis anos de programa com vice-liderança isolada no sábado à noite, o apresentador conversou com o iG Gente sobre suas escolhas na carreira, como é incomodar tanto a concorrência e o orgulho de, de alguma forma, estar realizando seu sonho de mudar o mundo.

Marcos Mion celebra os seis anos do
Antônio Chahestian/Rede Record
Marcos Mion celebra os seis anos do "Legendários" neste sábado (4)

Quando era adolescente, Mion jurava que ia mudar o mundo fazendo teatro de praça e dando aula de atuação, arte pela qual é realmente apaixonado. Aos 13 anos começou a fazer aulas e aos 15 garante que já tinha lido a obra completa de Shakespeare. Aos 17 já dava aulas de atuação para crianças e adultos.

Por trás do “intelectual”, como ele mesmo se define, existia o sonho um pouco destoante de ser apresentador da MTV. Depois de ter morado por cerca de cinco anos nos Estados Unidos no final dos anos 80 e se fissurado pelo canal, o menino de apenas 12 anos tinha decidido o que queria para sua vida. “Eu era um moleque, mas eu falei ‘é isso que eu quero, quero estar aí, falando essas coisas, usando essa roupa, no meio desse cenário, é o que eu quero’”, conta, depois de uma gravação de mais de cinco horas do programa especial de aniversário do “Legendários”, sua atração na Record.

A certeza de que um dia trabalharia na MTV fez com que, aos 17 anos, quando encontrou Jorge Espírito Santo , então diretor do canal, Mion - que na ocasião trabalhava de garçom e servia seu futuro chefe - não perdesse o que poderia ser uma chance única. “Eu cheguei para ele e falei ‘escuta, deixa eu te falar uma coisa. Se você quiser fazer história na sua emissora, que ela nunca mais seja a mesma, você me contrata’.”

Hoje ele acredita que foi sua audácia que fez com que o diretor o desse uma chance para conversar e expor o que ele achava que estava de errado na emissora. E Mion sabia. Assim como garante saber exatamente o que as outras emissoras precisavam quando trabalhou nelas.

“Eu nunca dei um passo em falso. Quando eu queria a MTV, eu conhecia a MTV. Quando eu vim para a Record, eu conhecia a Record. Quando eu fui para a Band, eu conhecia a Band, sabia o que precisava”, afirma. “Então eu falei para ele ‘A MTV está muito chata, não tem humor.’ Era uma época que não tinha ninguém lidando com humor. O máximo que tinha era o Cazé . ‘Não tem ninguém falando com adolescente, não tem um homem que consiga falar de uma boyband. Só tem o Edgar , que é cool, que só quer as bandas de rock. Tem o Cazé, que é muito louco e ninguém entende o que ele fala.’ Era um time que estava faltando alguém mais jovem e eu falei isso pra ele e ele falou: Ok, me liga’.”

Seu teste na emissora já foi com o protótipo de “Piores Clipes do Mundo”, formato que fez muito sucesso na MTV e acompanha Mion até hoje como “Vale a Pena Ver Direito”, quadro do “Legendários”.

Mas se antes o apresentador não tinha medo de nada por não ter “rabo preso com ninguém”, hoje confessa que a história é outra. “Quando você não tem ninguém que depende de você, um monte de boquinha que você tem que alimentar, você faz o que acredita, doa a quem doer. Se der certo, deu, se não der, não deu e tudo bem. Mas a partir do momento que você monta uma família e assume responsabilidades, as coisas mudam”, afirma.

“A diferença é que eu tinha um brilho no olho de fazer acontecer, fazer as coisas do meu jeito doa a quem doer, que é muito sedutor, muito cativante. É muito legal ver uma pessoa assim. E hoje não é que eu faça o que eu não gosto, eu faço exatamente o que eu gosto. Mas eu tenho consciência que não é o tudo ou nada. Então, muitas vezes eu abro mão, eu adapto, eu faço de um jeito que acho que o povo vai gostar mais.”

Dar ao brasileiro o que ele gosta

Se Marcos Mion agora sabe que não pode mais só fazer o que vem na cabeça, ele aprendeu direitinho como pensar em seu público e não em si mesmo. A maioria dos convidados do “Legendários” são cantores de funk ou sertanejo, estilos que ele garantem ser “o que o publico brasileiro gosta”.

De rock, um de seus gêneros favoritos, consegue contar na mão as vezes que recebeu artistas do gênero. “Eu nunca trouxe a Pitty para cantar no “Legendários”. Isso é uma coisa que eu tenho vergonha, juro. Eu tenho muita vergonha porque sou muito fã dela e amigo, e nunca trouxe porque é difícil, no trâmite todo aqui, convencer que a Pitty vai agradar a massa, porque a massa gosta de ver o sertanejo, o funk e é verdade”, confessa.

Mion reconhece que teve que se adaptar a um público a que não estava acostumado, principalmente considerando que veio de uma emissora fechada, segmentada e que tem o recorde de pico de audiência de 2 pontos - praticamente nada comparado aos 10 de média que tem hoje com o “Legendários”.

“Hoje em dia eu sou um comunicador de massa, que na época eu não era. A responsabilidade é muito maior. Então a gente joga o jogo quer queira, quer não. Não posso mais fazer as coisas exatamente como eu queria. Tenho que fazer de acordo com a audiência, como que o publico brasileiro gosta, então tenho que dar pra eles o que eles querem ver”, afirma.

Não por acaso o “Legendários” é um antro de revelação de novos artistas e sucessos das paradas musicais. Segundo Mion, nomes como Anitta, Naldo, MC Guimê, Munhoz e Mariano e MC Gui são apenas alguns que tiveram sua primeira aparição em rede nacional no palco de sua atração.

O orgulho de poder abrir portas para tantos artistas é talvez o maior motivo de orgulho de Mion, que continua com o desejo de mudar o mundo, mas não da mesma forma de quando era um adolescente intelectual. Apesar de ainda acreditar cegamente no poder de mudança do teatro, hoje só o fato de ter conseguido ser tão expressivo com sua atração pode não ser suficiente, mas não deixa de ter seu significado.

“Eu não quero mais mudar o mundo no horário nobre ao vivo na TV, mas eu aposto muito no teatro para isso. O teatro é a minha arte. Lá realmente eu posso, é a minha arte 100%. Mas não é que o “Legendários” não seja, também é, mas a gente tem várias personas”, conta. “Eu tenho o maior orgulho do mundo do que a gente faz aqui, eu assino embaixo, dou a minha vida por isso aqui, tenho o maior orgulho do mundo. Acho que a gente faz uma coisa que, de certa forma, mudou bastante, num horário que ninguém apostava, que era meio morto. De certa forma a gente conseguiu mudar alguma coisa.”

“Nada na TV é coincidência”

Quando Mion foi para a Record, ele sabia o que queria. “Tinha um foco muito grande de ser o cara do sábado à noite”. Na época, em 2010, não existia concorrência. O “Altas Horas” de Serginho Groismann começava apenas depois das 2 horas da manhã e a faixa das 22h era tomada apenas por filmes em praticamente todos os concorrentes da emissora. Até a chegada de Marcos Mion.

Segundo a própria Record, nos últimos 6 anos em que o “Legendários” esteve no ar, o SBT mudou sua programação do sábado à noite 15 vezes. 15 atrações tentaram tirar o posto de vice-líder isolado do programa, que não foi derrotado. Em certo ponto, por volta de 2012, a atração chegou a ser líder de audiência praticamente o ano todo.

“A gente começou, a gente apostou. Ninguém apostava ali, todo mundo colocava um filme e ia para casa e a gente apostou e fez. Não é à toa que hoje, quando a gente começa, começa no SBT e na Globo ao mesmo tempo, programas extremamente similares. Não por coincidência, foi tudo muito pensado. Nada na TV é coincidência”, afirma Mion, orgulhoso de ter conseguido conquistar o que queria.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.