Intérprete do esquizofrênico Ademir na trama reprisada à tarde conta por que estava há 6 anos longe da dramaturgia na TV

Quem vê a reprise de "Caminho das Índias" à tarde no "Vale a Pena Ver de Novo" nota Sidney Santiago chamando a atenção como Ademir, jovem que sofre de esquizofrenia. O ator, que após o fim da trama em 2009 não participou de outras novelas, voltará à TV em novembro em "Escrava Mãe", que substituirá "Os Dez Mandamentos" na Record. Ele contou ao iG o que fez nesses seis anos e por que não apareceu fazendo outros personagens nesse período.

Sidney Santiago em
Divulgação/TV Globo e Reprodução/Facebook
Sidney Santiago em "Caminho das Índias" (à esq.) e atualmente



Reprise

Dedicando-se às gravações da nova trama, que acontecem no interior de São Paulo, ele diz que não consegue rever a novela de Glóra Perez , mas guarda boas recordações. "Tive muito carinho em fazer, esse trabalho me abriu muitas portas e permitiu desmistificar a doença, que é marginalizada. Tenho grande gratidão por Neuza Borges , por quem já tinha enorme respeito. Trabalhar com ela foi um presente muito grande", elogia (a atriz viveu sua mãe na história).

Sidney Santiago com Neuza Borges e Mussunzinho em
Divulgação/TV Globo
Sidney Santiago com Neuza Borges e Mussunzinho em "Caminho das Índias"


Teatro e estudos

Nesse período, Sidney se voltou para a cia de teatro "Os Crespos", que existe há 11 anos, e chegou a morar na África. "Fiz algumas séries educativas para a TV Cultura e passei 2011 em Luanda, na Angola, onde dei aulas de teatro e fiz uma pesquisa sobre o teatro africano para minha graduação em Sociologia e Política. Apresentei várias peças de teatro, principalmente em São Paulo, como "Cartas a Madame Satã", e três filmes. Vivo do meu trabalho de ator, nunca fiz outra coisa", conta.

Sidney em cena como o Ademir de
Divulgação/TV Globo
Sidney em cena como o Ademir de "Caminho das Índias"


Retorno

Engajado com as causas da população negra, ele diz que esperou uma boa proposta para retornar às novelas. "Tive alguns convites mas optei por não fazer, pois os personagens oferecidos depunham contra o que venho lutando, que é mostrar o negro de forma humanizada. O negro não está presente na TV da maneira como a gente gostaria, ainda há muitos estereótipos".

O ator atualmente
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O ator atualmente

E diz o que o seduziu em "Escrava Mãe". "É uma história que quero contar. Embora sejam ambientada no período escravocrata, a novela é progressista e parte de um ponto que ainda não foi tratado, mostrar os escravizados não como mão-de-obra, mas como pessoas que, mesmo naquela situação de imobilidade, têm amor e afeto. 'Escrava Mãe' tira o negro do lugar de vítima", analisa.

Seu personagem, Sapião, será apaixonado pela protagonista, interpretada por Gabriela Moreira . "Ele é um jovem apaixonado que a retirou de uma batalha e nutre um grande amor por ela, que é filha de uma africana estuprada por um homem branco. Ela se apaixona por um mocinho português e nutre por ele um amor de irmão", adianta.

Sidney vê um diferencial nessa história, que contará a trajetória da mãe da "Escrava Isaura", até na escolha do elenco. "As duas versões optaram por mulheres brancas ( Lucélia Santos em 1976 e Bianca Rinaldi , em 2004), que não tinham a mestiçagem. Nesse caso a protagonista tem a pele clara, mas mestiça. Com isso a gente quebra a hegemonia de mostrar o universal como branco".

Espaço

Sidney, que nos anos 2000 participou da série "Turma do Gueto", da Record, elogia "Mister Brau", mas faz ressalvas quanto ao espaço dado ao negro na telinha. "Quando Lázaro (Ramos ) e Taís (Araújo ) conseguem emplacar um projeto como esse é um avanço. Há algum tempo eles são os atores da geração deles que conseguem seguir uma carreira na televisão, mas se dedicar à TV sendo ator negro no Brasil ainda é uma coisa muito rara".

Sidney passou um ano morando, estudando e dando aulas na África
Divulgação/TV Globo e Reprodução/Facebook
Sidney passou um ano morando, estudando e dando aulas na África


Para ele, os negros ainda são vistos de forma estereotipada. "Há uma hipersexualização tanto das mulheres quanto dos homens negros por conta dos quase quatro séculos de escravidão. A questão do corpo é muito forte, de servir apenas para dar prazer. Não vejo a TV avançando realmente em inserir o negro, o nordestino, o indígena. São mitos difíceis de tirar da sociedade", observa.


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