Reação conservadora a temas abordados e sucesso das tramas das 23h pressionam autores que assumem o horário nobre global. Mudança de hábito do brasileiro também contribui para dificuldades enfrentadas por trama de João Emanuel Carneiro

É um bombardeio de números e as notícias de que  “A Regra do Jogo” , trama das 21h da Globo, no ar desde 31/8, ainda não decolou pipocam a torto e a direito, no mesmo compasso em que cresce o espaço de “Os Dez Mandamentos” no noticiário. E, na última semana, história aconteceu: a Record ultrapassou Globo pela 1ª vez no horário nobre .

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"Os Dez Mandamentos" bateu "A Regra do Jogo" pela primeira vez no dia 17/9

Esses dois fenômenos não estão isolados de acordo com Fernando Borges, jornalista especializado em televisão e estudioso das telenovelas brasileiras. “A crescente da Record é, sem dúvidas, o maior problema de 'A Regra do Jogo'", observa o especialista.

Segundo Borges, a última vez que uma novela de outra emissora conseguiu derrubar a Globo no horário nobre foi "Pantanal" , de 1990. À época, no entanto, a TV Manchete esperava "Rainha da Sucata" acabar para exibir o folhetim de  Benedito Ruy Barbosa .

Antes disso, apenas em 1975 um episódio semelhante aconteceu. " 'A Viagem' , da TV Tupi, superou 'Pecado Capital' , da Globo. E lá se vão 40 longos anos”, lembra Fernando.

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"Pantanal" foi a última novela que derrubou a Globo no horário nobre. Na época, "Rainha da Sucata" era a novela das oito

Patrícia Villalba, especialista em novelas, vê no esvaziamento da audiência das 21h um sintoma de uma mudança de hábito do brasileiro, mais receptivo a variadas formas de entretenimento como internet e TV a cabo.  Os números endossam a visão de Villalba. Tida por muitos como a novela da década, “Avenida Brasil” , exibida em 2012, apresentou média de 39 pontos. De lá para cá, a audiência do horário só fez cair.

“Salve Jorge” (34), “Amor à Vida” (36), “Em Família” (30) e “Império” (33) mantiveram a audiência na casa dos 30 pontos, mas “Babilônia” derrubou os índices para 25 pontos.

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"Babilônia" entregou a faixa das 21h com 25 pontos para a estreia de "A Regra do Jogo"

A trama de Gilberto Braga “será lembrada como fracasso não pela baixa audiência, mas porque sofreu com os remendos que tentaram torná-la mais palatável”, observa Villalba, que atenta para um elemento comum entre as novelas. “’A Regra do Jogo’ começou com calma, e ainda não se mostrou completamente. Um ponto forte na comparação com ‘Babilônia’ é que, mesmo contando uma história no mesmo estilo ‘Brasil, mostra a sua cara’, ela tem bom humor o tempo todo. É uma novela realista sem ser pessimista, como pareceu a trama de Gilberto Braga. Espero que a Globo banque a sinopse do autor, e não saia mudando tudo agora por causa do desempenho no Ibope."

Leia: "A Regra do Jogo" reage e tem melhor desempenho em duas semanas

Além da concorrência de “Os Dez Mandamentos”, que a Record já sinalizou que deve esticar até janeiro de 2016, Borges acredita que a Globo errou em escalar Alexandre Nero para um novo protagonista tão pouco tempo depois de ele ter vivido tão intensamente um personagem principal no horário. “O público ainda não se esqueceu do comendador de 'Império' e não será espantoso que ele ganhe no Faustão o troféu de melhor ator”.

Conservadorismo

A faixa das 21h, no entanto, recebe pressões de outras frentes. “I Love Paraisópolis”, novela das 19h, apresenta média de audiência de 25 pontos – a mesma que “Babilônia” deixou para “A Regra do Jogo” -  e as tramas das 23h, mais enxutas e ousadas, se equivalem na audiência com o horário das 21h e repercutem bem mais nas redes sociais.

“O modelo (das 23h) condensa os acontecimentos e evita enrolação. Às 21h, os autores vivem um momento complicado: se ousam, afugentam os telespectadores mais conservadores; se puxam o freio, desagradam os telespectadores que já se acostumaram com os seriados americanos e não têm a mesma paciência de antes com o ritmo das novelas”, opina Villalba a respeito do cada vez mais bem sucedido espaço das 23h e de como ele reflete em pressão para os novelistas encarregados das 21h.

Às 21h, se os autores ousam, afugentam os espectadores mais conservadores; se puxam o freio, desagradam aqueles acostumados com seriados americanos"

Na avaliação da especialista, a reação conservadora a temas abordados pelas tramas das 21h da Globo explica, “em grande parte”,  o acolhimento a “Os Dez mandamentos”.

“Ela (a novela da Record) “é perfeita para ser apreciada pelos que se escandalizam ou não se identificam com as tramas da Globo”.

Ao iG , o diretor de "Os Dez Mandamentos", Alexandre Avancini , expressou opinião semelhante. "As novelas ficaram anos acomodadas em gêneros. A Record em poucos anos veio com novelas inovadoras. 'Os Dez Mandamentos' reúne a família em frente à TV, promove um reencontro de gerações numa época que tudo é compartimentado. Crianças, pais e avós assistem sem contrangimentos. O Ibope reflete isso."

Camila Rodrigues como Nefertari em cena da novela
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Camila Rodrigues como Nefertari em cena da novela "Os Dez Mandamentos", da Record

Já Borges não vê na sucessão de polêmicas um foco de problemas para a Globo. “Vimos 'Amor à Vida' exibir beijo entre dois homens e o público festejar. Existe sim um público conservador, mas na década de 80 e 90 até nas vinhetas a TV Globo era polêmica. Em ‘Tieta’, por exemplo, uma mulher aparecia nua já na abertura. Vimos bebês de proveta, síndrome de down, pai namorando filha, amor entre irmãos... é uma lista sem fim”. 

Que crise?

Apesar da crescente preocupação com a faixa das 21h da Globo, os especialistas ouvidos pela reportagem refutam a possibilidade de o interesse por novelas no horário estar escasseando. “A novela das 21h não é mais a mesma, é verdade, mas o gênero novela ainda é muito forte. Pense que quando ‘A Regra do Jogo’ e ‘Os Dez Mandamentos’ estão simultaneamente no ar, elas somam quase 40 pontos de audiência. É um público gigante disposto a ver novela”, sublinha Villalba.

“Não nos esqueçamos do SBT. Pouco se fala da inédita 'Cúmplices de um Resgate' e da reprise de 'Carrossel', mas essas tramas, ambas adaptadas do dramalhão mexicano por Íris Abravanel, estão muito bem, obrigado. E ainda temos TV Bandeirantes, RedeTV! e um monte de TVs abertas e fechadas. Está tudo pulverizado, mas as novelas representam a maior parte do bolo da preferência do telespectador”, finaliza Borges.

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