Ao iG, Danilo Gentili conta como emagreceu 8 kg, aponta perseguição de patrulheiros, como Paulo Henrique Amorim, e diz fazer papel de ignorante para ser o oposto de Jô Soares

Aos 35 anos, Danilo Gentili parece mesmo estar no meio de um fogo cruzado. De um lado, atacado por aqueles que chama de patrulheiros, apoiadores do governo Dilma Rousseff "que querem encurtar ainda mais o limite do humor". De outro, diz ter sido pego de surpresa por um diagnóstico de pré-diabetes que insiste em controlar para, apenas, "poder continuar comendo doce e massa no futuro". Nesse cenário, é curioso bater um papo com o apresentador; algumas vezes, sério, em outras, irônico. 

Danilo Gentili: 'As coisas estão muito pobres de interpretação e as pessoas não estão entendendo o ambiente humorístico no Brasil'
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Danilo Gentili: 'As coisas estão muito pobres de interpretação e as pessoas não estão entendendo o ambiente humorístico no Brasil'


Passa das 20h de terça-feira e, após o fim da gravação do "The Noite", Danilo nos recebe em um camarim do SBT. Sobre uma mesa, frutas, suco e, diante dela, o apresentador surge mais magro - 8 kg a menos no último mês. "Meu novo shape é à base de medicação para diabéticos, remédio de pessoas idosas, e dieta", explica. Se o físico mais enxuto atrai as mulheres? "Estou solteiro, meu negocio é bagunça. Na verdade, estou 'de boa'. Namorar dá muito trabalho (pausa). Não sei falar desses assuntos desde moleque", despista, aparentando uma timidez desconcertante.

Candidato, eu?

Em mais de meia-hora, o apresentador se expõe abertamente: culpa a rotina insana da televisão pela saúde um pouco comprometida, apesar de continuar dedicando a maior parte de seu tempo ao trabalho. São dois anos de emissora com excelentes índices de audiência e muitas lideranças no conflito contra a Globo. No entanto, apesar de ser uma das melhores contratações de Silvio Santos , ele garante: "Nunca recebi um aumento desde que entrei no SBT".

Sem deixar as polêmicas de lado, alfineta Jô Soares ao dizer que finge ser ignorante na frente das câmeras para ser o oposto do hurmorista da Globo, cita  Paulo Henrique Amorim ao comentar a perseguição pelas sátiras contra o governo e não descarta entrar para a política - com ressalvas. 


iG: Você está bem mais magro, fazendo dieta?
Danilo Gentili: Estou fazendo um tratamento com dieta porque fiquei pré-diabético. Agora, estou fora de risco, mas fiquei tomando três remédios e cortei açúcar e carboidratos por indicação médica. Meu corpo ficou maluco quando entrei na televisão. Se você pegar quando estou gordo, fico bizarro. Muito pior do que ser gordo igual ao Diguinho (Coruja, narrador do programa), é ser gordo como eu porque a gordura fica concentrada no abdomen. Mas, para falar a real, estou tentando emagrecer para continuar comendo. Não posso parar de comer macarrão, doce...

A gente pode contar que o estresse também deixou meus órgãos malucos. Mas, tenho 35 anos, sinto que estou no tempo de trabalhar, aproveitar para plantar, depois de colher e, depois, de descansar"

iG: O que aconteceu para engordar?
DG: Sempre fui magrelo, mas a TV me engordou. Entrei na TV pra fazer o 'CQC', um programa completamente insano, que sacrificou minha rotina. Viajava às cinco da madruga porque era o voo mais barato, ficava sem hotel, saía do trabalho à meia-noite, e, a essa hora, só tem porcaria aberta para entrar e comer. Engordava e emagrecia e, agora, chegou a conta. A gente pode contar que o estresse também deixou meus órgãos malucos. Mas, tenho 35 anos, sinto que estou no tempo de trabalhar, aproveitar para plantar, depois de colher e, depois, de descansar.

iG: O que era insano exatamente na Band?
DG: A Band é uma excelente casa, mas, em um determinado periodo, ficou tudo confuso e conturbado quando o dono da Cuatro Cabezas (Diego Guebel) virou o diretor-artístico da Band. Ficou muito telefone sem fio, foi desgastante a situação. 

A Band é uma excelente casa, mas, em um determinado periodo, ficou tudo confuso e conturbado quando o dono da Cuatro Cabezas (Diego Guebel) virou o diretor-artístico da emissora"

iG: No SBT, é melhor?
DG: Quando a gente veio para cá, vi que o diretor artistico cumprimenta o estagiário do meu programa, fala com a gente de igual para igual. Os apresentadores da casa são colegas de verdade. A Eliana , o Celso Portiolli , ao invés de ficarem agorando, pelo contrário, torcem para dar certo. Sinto que é sincero. Para mim, o SBT é a melhor casa para se trabalhar. A TV é uma fogueira das vaidades, mas isso não existe aqui. Do mesmo jeito que o mal vai contaminando, o bem também vai.

Não faço pelo dinheiro, se fosse pelo dinheiro, faria shows e ganharia o triplo do que ganho no SBT"

iG: Parece tão feliz, deve ter recebido um aumento...
DG: (risos) Não ganhei nenhum aumento desde que entrei no SBT e, sendo sincero, nunca negociei salário aqui. O primeiro valor que ofereceram, aceitei e fiquei. Sou solteiro, não tenho família, filho, o que ganho está excelente. Não faço pelo dinheiro, se fosse pelo dinheiro, faria shows e ganharia o triplo do que ganho no SBT. Quando negociei a vinda para o SBT, só perguntei uma coisa: posso fazer a abertura do programa passando por todos os cenários da emissora e terminando no cenário do 'Jô Onze e Meia'? 

iG: Falando em Jô Soares, o "The Noite" vez ou outra bate a Globo na audiência, como se sente?
DG:  A gente é um 'anti-talk show' segundo o que tem no Brasil. O brasileiro só conhece o Jô, aquele apresentador intocável, inteligente, só ele fala, só ele tira sarro e nunca pode ser zoado. Ele está num pedestal e eu desconstrui isso no meu programa. Se a banda dele toca jazz, a nossa toca rock. Eu sou burro pra caramba e as pessoas podem me zoar. Acho que isso faz o sucesso do 'The Noite'.

O brasileiro só conhece o Jô, aquele apresentador intocável, inteligente, só ele fala, só ele tira sarro e nunca pode ser zuado. Ele está num pedestal e eu desconstrui isso no meu programa"

iG: Encontrou a fórmula do sucesso?
DG:  Não conheço fórmula, a gente só está fazendo o que acha legal e está funcionando, mas não sei até quando dura. Há 2 anos, a gente só é vice-lider ou líder. Acho que entenderia de TV se soubesse manter isso, mas não sei. Só me sinto livre para criar. Se não me sentir livre, estou fazendo errado. Preciso entender onde colocaram o limite do humor e alargar porque estão trazendo esse limite pra trás. As piadas dos trapalhões e do Chico Anysio , hoje, são um escândalo: os humoristas de hoje passaram dos limites ou a patrulha está regredindo o limite? Me sinto numa posição de resistência.

Hoje, falar da Dilma e do Lula é um tabu, mas é a coisa mais normal para o comediante, que faz paida com o poder estabelecido. Do ponto de vista cômico, o governo é um poço de piada pronta, mas nenhum comediante da TV brasileira está fazendo essas piadas, só eu"

iG: Quando se julga de resistência, fala sobre as piadas com a presidente Dilma Rousseff?
DG: Sou comediante, minha obrigação é formular a frase e ver se vão rir ou não no final dela. A coisa mais normal é o comediante falar do presidente em exercício e isso virou tabu no Brasil. Hoje, falar da Dilma e do Lula é um tabu, mas é a coisa mais normal para o comediante, que faz paida com o poder estabelecido. Do ponto de vista cômico, o governo é um poço de piada pronta, mas nenhum comediante da TV brasileira está fazendo essas piadas, só eu. Não estou fazendo piada porque sou do contra, estou fazendo piada porque sou comediante. Como a Constituição garante a liberdade de expressão e os patrulheiros sabem disso, fica um jogo de indiretas.

Blogs pagos com dinheiro do governo me patrulham. O Fernando Henrique Amorim, por exemplo, me odeia porque faço piada do governo e esses caras são pagos para defender o mesmo governo. Saiu em algum lugar que minha mãe torturava crianças em Santo André. Entende?"

iG: Você já sofreu ameaças? Quem são os patrulheiros?
DG: É muito claro de onde vêm os coices, é do lado do governo. Critico o cara que assaltou a Petrobrás e o coice vem de quem apoia e defende ele. Os caras jogam muito pesado, dizem que faço coisas que nunca fiz. Blogs pagos com dinheiro do governo me patrulham. O Fernando Henrique Amorim , por exemplo, me odeia porque faço piada do governo e esses caras são pagos para defender o mesmo governo. Saiu em algum lugar que minha mãe torturava crianças em Santo André. Entende? Parece que, quem sai de faculdade federal, já sai militante e exerce o jornalismo como militante. Tem jornalista que vem me entrevistar com a manchete pronta. Tentaram cravar manchetes contra mim, mas meu show estava lotado, meu programa estava ganhando da Globo...  

iG: Mesmo assim, você continua fazendo piadas, é provocação? Ou você se sente obrigado a se posicionar como figura pública?
DG: Olha que absurdo: a presidente faz um discurso da mandioca e nenhum comediante faz piada? É muito preocupante. Isso só acontece em lugares onde tem ditadura. Ser o único comediante a fazer piada com isso é muito assustador. Como figura pública, sinto-me obrigado a dar entretenimento para que as pessoas se divirtam e deem risada. Minha opnião não tem a ver com minha pessoa pública, tem a ver com o Danilo, não aquele que o SBT contratou, mas aquele cidadão.

iG: Já pensou em se candidatar a algum cargo político?
DG: Jamais! Escreve aí: Danilo pede para que nunca votem nele se ele se candidatar. Quer dizer, só existe um jeito de me candidatar: quando a política não for assim. Adoraria ajudar a diminuir o que o Estado faz com todo mundo, diminuir impostos, tudo isso. Imposto existe para a máquina do partido. Não é para dar saúde, fazer escola, porque as pessoas continuam sem nada disso. Se tivesse uma ideia de como diminuir o Estado na vida das pessoas, eu participaria. Já disse Millôr Fernandes: "o comunismo é uma espécie de alfaiate que quando a roupa não fica boa faz alterações no cliente".

Provavelmente, na minha opinião você vai identificar postura de direita e, às vezes, de esquerda. Uma pessoa que se guia por ideologia pode ser o maior idiota que você já conheceu. E o comediante não pode ter partido, ele é do contra. No dia que tiver um partido, vou precisar parar de ser comediante"

iG:  Citando Millôr Fernandes...
DG: Eu leio! dou uma de ignorante no programa, na TV. Tenho minhas opiniões. Provavelmente, na minha opinião você vai identificar postura de direita e, às vezes, de esquerda. Uma pessoa que se guia por ideologia pode ser o maior idiota que você já conheceu. E o comediante não pode ter partido, ele é do contra. No dia que tiver um partido, vou precisar parar de ser comediante.








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