
A (ainda) jovem cineasta Emerald Fennell está pegando uma fama.
Ela está rapidamente se tornando o que podemos chamar de ‘aquela diretora que só faz filmes de vingança’. É preciso que se diga que esta não é uma descrição injusta, porém, um tanto superficial.
Aquilo que devemos nos questionar por Emerald Fennell, é: o que se encontra por debaixo dos panos da vingança, em seus filmes?
Entra o terceiro longa-metragem de sua carreira como diretora, o drama romântico de período O Morro dos Ventos Uivantes (2026), uma adaptação intensa e visceral do clássico da literatura inglesa da escritora Emily Brontë, que explora uma paixão obsessiva e destrutiva nos pântanos, de Yorkshire, entre Catherine Earnshaw e Heathcliff.

Antes de adentrarmos na narrativa de O Morro dos Ventos Uivantes, vale destrincharmos sua curta filmografia, como uma cineasta.
Durante a pandemia, em 2020, Emerald Fennell lançou sua estreia na direção, com o surpreendente, cômico e meditativo Bela Vingança, estrelado por Carey Mulligan. Depois, veio Saltburn (2023), um thriller que se mistura com comédia sombria, que gira em torno de um estudante, da Universidade de Oxford, que fica obcecado por um colega popular e aristocrata, que mais tarde o convidaria para passar o verão na suntuosa propriedade de sua excêntrica família.
Fennell, claramente, mira duas ideias diferentes, em cada um destes filmes. No entanto, podemos concluir que ela só conseguiu acertar a mão com seu primeiro projeto cinematográfico, uma vez que Saltburn, acabou sendo percebido como algo mais estilizado do que sentido ou pensado.
Curioso que a sua adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, possui uma narrativa que se aproxima (um pouco) mais de Bela Vingança, contudo, tematicamente, circulando o mesmo terreno de Saltburn, ou seja, a sedução de uma vida burguesa.

Enquanto seu mais recente lançamento encontra-se encharcado de polêmicas que questionam a fidelidade ao livro, ou até mesmo, a escalação do elenco, em especial, a escolha por Jacob Elordi, como Heathcliff.
Vale lembrar que Emerald Fennell adaptou – e, sim, mudou alguns fatores – para que pudesse, ao final, exprimir sua ideia principal que fala sobre um conflito que é muito clássico ao cinema hollywoodiano, que diz sobre o que é mais importante e melhor para o espírito humano: uma vida que tem como base o amor romântico ou a certeza de uma existência confortável por uma situação financeira estável. Algo que a também cineasta Celine Song fez recentemente, através do injustiçado Amores Materialistas (2025).
Como dito, tal temática não é estranha ao cinema americano, que usou do gênero dramático conhecido como melodrama, particularmente na década de 1950, como uma crítica contundente e subversiva ao chamado ‘American Way of Life’(estilo de vida americano). Em vez de apenas celebrar o sonho americano de prosperidade e felicidade doméstica, cineastas como o lendário alemão Douglas Sirk (1897 – 1987), utilizaram o gênero para expor a hipocrisia, a repressão emocional e a superficialidade do consumismo.

A cineasta inglesa compreendeu na teoria, tudo aquilo o que Douglas Sirk falava, todavia, na prática, opta pela hiperestilização, que é uma estética contemporânea caracterizada pelo uso saturado, exagerado e híbrido de linguagens visuais, comum no cinema, videoclipes e na moda. Envolvendo a saturação de recursos técnicos (edição rápida, cores intensas) e a fusão de estilos, criando narrativas dilatadas e expressões hiperbólicas.
É até possível afirmar que, em alguns momentos, O Morro dos Ventos Uivantes, parece-se com algo que poderia ser visto, em qualquer um dos programas televisivos, do antigo canal musical MTV.

Ainda assim, algo persevera na adaptação de Fennell, que explode em vermelho-sangue, por toda a parte, uma história de paixão flamejante e conflito sofrido, que observa duas almas venenosas e envenenadas, que querem ficar juntas, mas não podem.
A mansão dos sonhos de Catherine Earnshaw, virou uma jaula e, assim como quis Josh Safdie, em Marty Supreme (2025), que questiona a busca incansável de um na busca pelo ‘sonho americano’, vemos os protagonistas do romance O Morro dos Ventos Uivantes, deformados de sua essência e distantes de uma vida plena e apaixonada.