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Produção cinematográfica pode explorar diversos gêneros, mas viés político está na raiz da maioria das produções que existem com o intuito de provocar

O que “O Candidato Honesto”, “ Tropa de Elite ” e “Saneamento Básico” têm em comum? Além de serem filmes nacionais todos retratam de maneiras distintas, questões sociais brasileiras. Na comédia ou no drama, o audiovisual é uma poderosa ferramenta para criticar e questionar a sociedade, e o cinema político se torna presente na maioria das produções nacionais.

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"Tropa de Elite" é um dos maiores símbolos do cinema político nacional ao debater corrupção e o papel da polícia

Em tese, fazer cinema no Brasil é um ato político por si só. Manifestação artística pouco desenvolvida e apreciada no país, a produção audiovisual necessita de uma série de incentivos fiscais do governo ou privados e anos de captação para acontecer. O cinema político é um gênero, mas também uma identidade quando se fala do audiovisual brasileiro.

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 “O cinema político provoca a personagem, o olhar da pessoa que absorve”, comenta o cineasta Hilton Lacerda , responsável por filmes como “Tatuagem” e “Amarelo Manga”, no qual assina o roteiro. Para ele, dentro dessa seara, existem filmes sobre política e observações sobre determinado momento. Esses dois conceitos podem ser distintos, ou podem existir no mesmo filme, como “Terra em Transe” ou “Cabra Marcado Para Morrer”, como ele cita.   

O que diferencia os filmes, além de seu enquadramento em determinado gênero, é a intenção de ser ou não político. “O Candidato Honesto” é uma plataforma para Leandro Hassum, que costuma ser sucesso de bilheterias, explorar seu humor. Mas como não notar a sátira ao sistema político nacional ao criar um candidato que, impossibilitado de mentir, precisa ganhar uma eleição sem que o povo descubra que ele é corrupto?

Prioridade é gerar bilheteria, mas
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Prioridade é gerar bilheteria, mas "O Candidato Honesto" também tem viés político como sátira

Com apoio da Globo Filmes, o principal objetivo do longa dirigido por Roberto Santucci é fazer rir (e render nas bilheterias), mas o faz ao mesmo tempo que gera uma crítica. A observação, porém, é que o filme não aponta o dedo para um alguém específico, portanto toca numa ferida sem o intuito de fazer doer. “Tropa de Elite”, de José Padilha, tem um viés completamente oposto.

A corrupção, o sistema falido, políticos que vendem mentiras, eles também estão presentes, mas de forma intencional justamente para levantar debates. O filme descreve uma polícia violenta e um tráfico que não tem pretensão de ser eliminado, já que alimenta um ecossistema de corrupção.

O filme, além de ser um dos maiores fenômenos do cinema nacional, tem o olhar de Padilha que durante toda sua carreira se dedicou a produções que denunciassem o descaso dos representantes com a população, além da repressão policial. Não à toa, o cinema político está em seu DNA, com produções como “Ônibus 174” ou a série “Narcos”.

“A partir do momento que articula um produto capaz de interferir na vida das pessoas está fazendo um ato político”, acredita Hilton. Em sua visão, o cinema deve colocar o dedo na ferida sim. “Eu acho muito complicado as pessoas que dizem que vão falar sobre algo e não querem comprometer sua opinião. O próprio cinema é ideia do ponto de vista”, completa.

Contar a história cabe aos livros, enquanto a arte tem a possibilidade de ir além e provocar. Só em 2018  três filmes tem como tema o impeachment da Presidente Dilma Rousseff. “Excelentíssimos” mostra a tramitação na Câmara dos Deputados, “O processo” tem um olhar mais específico, com personagens que defenderam a Presidente nesse processo e “O Muro” destaca a divisão da população entre “contra” e “a favor” do impeachment.

Essas perspectivas, para Lacerda, são essenciais: “se eu vou promover uma discussão sobre aborto (por exemplo) eu não vou discutir quem é contra e quem é a favor. Não vou fazer do meu cinema um púlpito para debater se é bom ou ruim”, acredita.

Provocação

Dentro e fora das telas,
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Dentro e fora das telas, "Aquarius" é exemplo de cinema político, com direito a manifestação em Cannes

Em determinado momento em “O Som ao Redor”, filme de 2013 de Kléber Mendonça Filho, os moradores de classe-média alta de um prédio no Recife (PE) participam de uma reunião de condomínio onde a pauta principal é a possível demissão do porteiro que faz o turno da noite.

Um condômino leva imagens feitas pelo filho que mostram o funcionário cochilando no expediente, enquanto outra moradora argumenta que sua Revista Veja sempre vem “fora do plástico”, o que ela atribui ao porteiro em questão. Outro morador, João (Gustavo Jahn) comenta que ele está no mesmo posto há anos e, próximo da aposentadoria, seria injusto tomar uma atitude tão drástica.

A cena, por mais simples que seja, faz um retrato social de uma determinada classe e como suas visões afetam suas relações, seja com funcionários ou com vizinhos. Essa cena por si só já pode ser considerada política, mas todo o filme tem um viés social recortando uma parcela da sociedade e as pessoas que estão a sua margem.

No seu filme seguinte, Kleber Mendonça seguiu uma linha similar, mas focou apenas em Clara (Sônia Braga) que sozinha resiste para evitar que uma construtora derrube o prédio onde mora em “Aquarius”. Esse ato de resistência da personagem, coincidentemente, casou de certa forma com o imbróglio vivido na época por Dilma Rousseff, prestes a ser impeachmada.

O filme então ultrapassou as barreiras de sua própria história e virou, de outra forma, uma manifestação política , com direito a protestos na Croisette durante o Festival de Cannes de 2016. “Fazer um filme é colocar o c* na reta”, diz Hilton Lacerda. Para ele, uma das características essenciais do cinema é a provocação, e essa característica tem que nortear qualquer produção.

“Colocar o c* na reta”, inclusive, é uma característica fortíssima no cinema de Hilton Lacerda. Em “Tatuagem” o diretor faz um recorte muito específico da ditadura e conta uma história de amor e do uso da arte como forma de transgredir as opressões do período. Tudo isso enquanto mostra o romance de um casal gay, onde um deles é também soldado do exército.

O diretor e roteirista crê que o cinema, assim como a arte no geral, deve ser uma provocação. “Eu poderia dizer que toda manifestação artística é um ato politico, mas estaria falando pelos outros. Mas para mim sim, acho que tudo que a gente faz, fala e intenciona é um ato politico”.

E esse tal ato vai muito além de falar somente sobre política, não limitando o cinema político a narrativas que envolvam presidentes e servidores públicos. “Eu acredito que uma das motivações que me leva a trabalhar com cultura é a possibilidade de você transformar as pessoas com a aquilo que você propõe. É uma provocação”, completa.

Walter Salles conhece bem e usa essas provocações em suas histórias. Em “Central do Brasil” ele retrata o abandono e a solidão com personagens pouco carismáticos, como Isadora (Fernanda Montenegro). Já em “Diários de Motocicleta” ele foge do retrato político tão vinculado a Che Guevara e apresenta um personagem ainda longe do líder que viria a se tornar.

Anna Muylaert também toca na feriada para machucar em “Que Horas Ela volta?”, que questiona os limites da relação patrão-empregado e a desigualdade social no Brasil, bem como seus desdobramentos na prática dentro de uma família rica de São Paulo.

Cinema político e sobre política

Duas vezes política: filme sobre político transformado em guerrilheiro, filme de Wagner Moura é político e sobre política
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Duas vezes política: filme sobre político transformado em guerrilheiro, filme de Wagner Moura é político e sobre política

Dentro do fator “provocação”, muitos cineastas também se debruçam sobre, enquanto narram tramas políticas. George Clooney experimenta com “Tudo Pelo Poder”, onde desmonta idealismos políticos ao contar a história de uma campanha para Presidência.

O americano Oliver Stone dedica sua carreira a expor e questionar a soberania americana, criticando desde seu sistema financeiro (“Wall Street: Dinheiro e Cobiça”) até suas decisões militares (“Platoon”).

Em 2019, um nome entrará para o hall dos diretores, já em meio a grande debate político. Wagner Moura estreia como diretor com “Marighella”, político transformado em um dos maiores inimigos do Regime Militar brasileiro.

A lista completa é imensa: de Goddard a Carla Camurati, de Eli Kazan a Fernando Meirelles, inúmeros cineastas tem na provocação sua ferramenta para criar. Considerando que a política engloba uma série de ações sociais, que visam o bem comum de uma determinada população, só apontar os desalinhamentos não é suficiente e esses artistas buscam novas maneiras de questionar as decisões tomadas e as soluções adotadas.

A produção cinematográfica é um reflexo social, saído da mente curiosa e inquieta de quem não se dá por satisfeito. Nesse sentido, o cinema político sempre será o norte, mesmo que "disfarçado" de comédia, terror, ou o que for. 

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