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Filme essencialmente anárquico vê retrocesso social no Brasil de Temer e resgata crítica histórica ao capitalismo. Longa está em cartaz no Brasil

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"A Moça do Calendário" é o novo filme de Helena Ignez

O novo filme de Helena Ignez, um expoente do cinema brasileiro por si só, tenta dimensionar um Brasil em crise ao mesmo tempo em que tenta recuperar uma crítica histórica ao capitalismo. “A Moça do Calendário” é um filme anárquico por definição e que apresenta um protagonista que se esforça para se convencer anticapitalista.

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“A ambiguidade é a própria vida, é essência e aparência”, observa enigmática a cineasta de 76 anos a respeito dessa ambiguidade entre filme e protagonista. E esta não é a única a compor o filme que se pretende feminista, a despeito de trazer um ponto de vista masculino. Além do protagonista Inácio (André Guerreiro Lopes), o roteiro original é de Rogerio Sganzerla, marido de Helena Ignez , morto em 2004.

A trama acompanha Inácio (André Guerreiro Lopes), ex-gari, mecânico e dublê de dançarino desmotivado que trabalha numa oficina mecânica e sonha com uma moça do calendário (Djin Sganzerla), musa dos seus desejos e fantasias.  Segundo a diretora, a cena em questão propõe uma contradição: “enquanto o protagonista é um assalariado da base do sistema, quando questionado sobre a reforma agrária ele se contradiz, já que é muito mais difícil aceitar as divisões de terras quando elas são de seu próprio pai”, conta.

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Inácio, protagonista de A Moça do Calendário: descoberta em ebulição
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Inácio, protagonista de A Moça do Calendário: descoberta em ebulição

A revelação das contradições norteia a realização. “Trabalho para não trair a mim”, explica a diretora que admite que o Brasil de hoje invadiu seu filme. “O Brasil de agora contribuiu completamente, é opressão, é o Brasil de Temer, e isso está presente né?! É sobre esse Brasil que o filme versa, se não fosse esse Brasil seria diferente”.

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“A Moça do Calendário”, porém, com sua vocação de manifesto é um filme cheio de limitações. Há pontos de convergência óbvios que encontram respaldo em um mal-estar social agudo, mas o filme tem suas respostas antes mesmo de examinar os problemas e isso não é ser anárquico ou qualquer outra coisa. Helena Ignez faz um filme passional, com um ponto de vista muito forte, mas um que jamais extrapola suas próprias contradições. O brinde ao fracasso, uma das melhores cenas do filme, ganha nova conotação sob essa perspectiva.

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