"O Dia Depois" expõe macheza frágil na abordagem da vida amorosa

Novo filme do cineasta sul-coreano Hong Sang-Soo teoriza que a imagem que alimentamos do amor talvez seja mais apoteótica, catártica e bela do que as razões pelas quais vivemos uma história de amor; leia a crítica

Um dos cineastas mais produtivos da atualidade e que já foi comparado ao francês Jean-Luc Godard, o sul-coreano Hong Sang-Soo está de volta aos cinemas brasileiros com o "O Dia Depois", que integrou a mostra competitiva pela Palma de Ouro no festival de Cannes de 2017. Filmado em preto e branco com longos planos e com um tom que lembra uma paródia de melodramas, o longa-metragem aborda o amor de um ponto de vista um tanto incômodo.

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Cena de O dia Depois, uma das boas estreias deste fim de semana nos cinemas do Brasil
Foto: Divulgação
Cena de O dia Depois, uma das boas estreias deste fim de semana nos cinemas do Brasil

"O Dia Depois" acompanha o editor de livros Kim Bongwan (Kwon Haehyo), homem casado e que mantém um caso extraconjugal com sua secretária, caso este que faz com que sua mulher se enfureça quando descobre. O problema é que quando ela descobre é justamente quando o affair termina e a mulher se demite. Bongwan, então, contrata uma nova secretária. A racional e introvertida Areum (Kim Minhee). 

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O que deflagra a ação no filme é justamente quando a mulher de Bongwan vai à editora para confrontar a amante e acaba agredindo a garota errada. O imbróglio, tratado por Sang-Soo com um humor seco, na verdade esconde os principais pontos levantados pelo filme. Aqui estamos diante de um homem acovardado diante de seus sentimentos, de personagens que não sabem como se posicionar diante de sua melancolia e de um conflito geracional inquientante.

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Kim Minhee, presença constante nos trabalhos do diretor,está brilhante em O Dia Depois

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Areum parece ser a única que humildemente evita o nilismo tangenciado pelas outras personagens.  O que Sang-Soo advoga com "O Dia Depois" , uma versão hiperbolizada no tom e na forma, de histórias de amor que o cinema ocidental tão bem elabora, é que a imagem do amor talvez seja mais bonita, mais cinematográfica do que o amor - esse que une e desune carnalmente homens e mulheres - em si.