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Os últimos anos foram significativos para a música gospel. Com uma ascendência no mercado, a indústria do estilo passa por diversas mudanças

Com raízes no Blues dos Estados Unidos, a música gospel vem passando por diversas transformações bastante significativas durante os últimos anos. Além de impressionar com os números altos de audiência, o estilo também está ganhando diversas vertentes e apostando alto no diálogo com o funk, rap, reggae e até mesmo com a música eletrônica. Não é à toa, portanto, que a lista de produtos mais vendidos do iTunes Brasil mostra quem é que comanda: os artistas da música gospel.  

O grupo Preto no Branco traz um pouco da Black Music para o universo Gospel
Divulgação
O grupo Preto no Branco traz um pouco da Black Music para o universo Gospel


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Do YouTube ao serviço de streaming musical Spotify, a música gospel apresenta números reveladores. No canal VEVO, a artista Gabriela Rocha chegou a atingir o número de 138 milhões de visualizações em seus vídeos, superando bandas como Jota Quest e a dupla sertaneja Simone e Simaria. Além disso, Gabriel Iglesias conseguiu emplacar três de suas músicas na lista de virais do Spotify e o concorrente da plataforma, o Deezer, criou a primeira playlist recheado de músicas no estilo. Apesar de estar presentes no mundo digital, a música gospel também tem uma grande aceitação no mundo real, com artistas como Damares que ganhou o “Disco de Ouro” logo no lançamento do seu álbum “Obra Prima” por ter 60 mil cópias encomendadas das lojas.

O rapper Pregador Luo trabalha há mais de vinte anos no ramo da música gospel com o hip hop
Vitor Pickersgill
O rapper Pregador Luo trabalha há mais de vinte anos no ramo da música gospel com o hip hop

Entretanto, o espaço que hoje a música gospel possui, inclusive com grandes gravadoras, não foi construído sozinho. Pregador Luo, músico que está no ramo há mais de vinte anos, conta que foram inciativas independentes que foram abrindo caminhos para o estilo musical: “A maioria que começaram no gospel começaram independentes e foram de pequenas gravadoras ou selos especializados nesse tipo de música“. O cantor foi um dos fundadores da gravadora 7Taças, que revelou a banda Apocalipse 16, da qual também fazia parte, e foi um dos pioneiros do rap cristão. “Quando eu comecei no meu selo, além de ser música gospel que era um pouco segredada, era também Black Music Gospel. Então tínhamos que criar um espaço para poder colocar a nossa cultura e isso incentivou a outros rappers a criar seus selos e produzir seus trabalhos”, completa Luo.

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Para Clovis Pinho, cantor que aprendeu muito sobre música com Carlinhos Brown, ascendeu no Renascer Praise e atualmente faz parte do grupo Preto no Branco, este é o melhor momento para o segmento. “Eu acredito que seja mesmo o melhor momento das oportunidades que a indústria já deu para o nosso tipo de música e eu vejo isso como uma benção muito grande”, afirma o artista. Clovis trabalha também paralelamente em projetos pessoais, tendo lançado um novo álbum este ano, “Ninguém Explica Deus”, que se apresenta como um disco eclético por trazer diversos ritmos. O grupo que participa, Preto no Branco, também traz novos elementos para a música gospel como o soul, samba, indie rock e música romântica e teve uma grande aceitação pelo público, tendo mais de 114 milhões de visualizações em videoclipes no YouTube e mais de 10 milhões de reproduções em suas músicas nos serviços de streaming.

Novos estilos

Clovis Pinho encara os novos estilos no gospel como um desafio a encarar em seu trabalho
Divulgação
Clovis Pinho encara os novos estilos no gospel como um desafio a encarar em seu trabalho

Clovis Pinho e Pregador Luo fazem parte de uma gama de artistas que também têm se empenhado em trazer novos estilos para a música gospel. “Eu acredito que é o grande desafio desse nicho nosso da música cristã é sair do lugar comum. Não é fácil porque você lida com uma tendência. Existe uma demanda de mercado e há uma expectativa também das pessoas em relação à sua musicalidade”, revela Pinho.

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Recentemente, Luo lançou o clipe do disco de seu último álbum, “Governe!”, que traz elementos do funk e do eletrônico para o seu rap. “Acredito ser uma evolução natural da música principalmente do hip hop, que sempre trabalhou novas fontes”, revela. “Eu acredito que seja importante para a gente continuar no mercado e que estejamos nos renovando”, completa o cantor. Apesar das inovações, ele confessa que ainda recebe algumas críticas, ainda mais por pessoas que encaram a música gospel como algo mais tradicionalista.

Entretanto, essa iniciativa de trazer novos elementos para disseminar as suas crenças está cada vez mais forte no meio com outros artistas. Salomão mescla as palavras de sua religião com os ritmos do reggae, DJ PV traz o eletrônico para a música gospel, André e Felipe formam a dupla sertaneja universitária que faz mais de 15 shows por mês e Os Arrais também conquistaram diversos fãs com sua fé e com o indie folk. Ainda assim, para Luo, o espaço que as gravadoras dão para a experimentação musical do segmento cristão ainda é pequeno. “Não incentivam as pessoas a ouvirem coisas novas, a procurarem mais inovação. Os próprios artistas acabam se acomodando. Não ousam e não querem ousar e isso é muito ruim porque isso gera um atraso para a cultura brasileira. A arte tem obrigação de fazer a evolução, de iluminar as pessoas”, confessa o cantor.


Controvérsias na música

Apesar do espaço para os artistas de fé expressarem sua arte e disseminar as palavras de suas crenças, muito ainda se critica sobre o mercado da música. É comum para os recém-convertidos na religião evangélica, por exemplo, que deixem de ouvir certas bandas e músicas por recomendação da Igreja, como explica Luo. “A questão da música gospel se dá ao devido crescimento das igrejas evangélicas, uma vez que as igrejas dizem para os seus membros o que eles podem ouvir ou não, os shows que eles podem e que tipo de música é boa. Então acaba sendo um crescimento forçado da coisa”, revela.

“Existem pessoas que fazem com coração, com alma e devoção e pessoas que só estão ali se aproveitando do mercado”, completa o cantor. Para ele, o intuito da música gospel é passar os ensinamentos da sua religião, que prega “amar todos sobre todas as coisas e amar o próximo como ama a si mesmo. E amar o próximo não quer dizer amar o igual, que possui a mesma religião ou opção sexual, mas sim amar o outro independente da opção que ele tenha feito da vida”, finaliza o rapper.

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