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Um dos filmes mais inusitados, esperançosos e reflexivos do ano, "Capitão Fantástico" se apresenta como um incomum filme natalino no Brasil

São poucos, mas existem filmes capazes de suscitar a mais profunda tristeza sem deixar de instigar a esperança. Essa qualidade incomum seguramente é a maior força de “Capitão Fantástico”, segundo longa-metragem de Gary Ross, mais conhecido por viver o decalque de Mark Zuckerberg, Gavin Belson, na comédia da HBO, “Silicon Valley”.

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Cena do filme Capitão Fantástico, que estreia nesta quinta-feira (22)
Divulgação
Cena do filme Capitão Fantástico, que estreia nesta quinta-feira (22)

Ben Cash (Viggo Mortensen) tem resistência às imposições do capitalismo e cria seus seis filhos com alto grau de rigor físico e intelectual nas florestas. A educação pouco ortodoxa foi combinada com sua mulher, que por ser bipolar, precisou-se ausentar do convívio familiar para tratar-se. É a partir da morte dela que “Capitão Fantástico” realmente começa dramaticamente.

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Viggo Mortensen concorre ao Globo de Ouro pelo filme Capitão Fantástico
Divulgação
Viggo Mortensen concorre ao Globo de Ouro pelo filme Capitão Fantástico

Isso porque Ben, instigado por seus filhos a comparecer ao funeral da mãe deles, precisa enfrentar o autoritarismo do pai de sua mulher, vivido por Frank Langella, que desaprova o estilo de vida deles. Não é nenhuma novidade que o cinema independente americano se debruce sobre famílias disfuncionais. Mas a fita de Ross subverte essa lógica. Aqui estamos diante de uma família funcional em um mundo disfuncional.

Ben ama seus filhos e na sua concepção de mundo, provê para eles tudo o que eles precisam. É claro que o roteiro de Ross vai problematizar essa visão de mundo, mas o faz com inteligência e generosidade. O bem-estar das crianças, que de fato entendem, o que está sendo ganho e o que está sendo perdido com o estilo de vida a eles imposto, jamais é tratado com maniqueísmo pela narrativa.

À medida que Ben vai tomando consciência de que o idílio que vive não comporta mais as necessidades e demandas de seus filhos, Viggo Mortensen preenche a tela com todo o seu talento. Sutil e minimalista, o ator permite que a audiência entenda a angústia daquele pai, daquele homem que renuncia repetidamente a alguns de seus ideais para permitir que seus filhos possam ser mais bem atendidos. Mas também permite que vislumbremos o homem duro, refratário que pode ser. 

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Pode o alto conhecimento filosófico e sociológico, o domínio de física quântica, das artes marciais e de técnicas de sobrevivência e autodefesa substituírem os mais básicos conceitos de interação social? O filme fomenta um debate válido sobre a nossa funcionalidade, tanto como indivíduo como em um contexto familiar, na sociedade. Isolar-se é uma escolha viável? Recomendável em um escopo que extrapole a teoria? É mesmo possível?

Cena do filme Capitão Fantástico
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Cena do filme Capitão Fantástico

São questões aventadas por um texto muito inteligente e azeitadas por uma direção centrada, consciente e que conta com os préstimos de um elenco realmente fantástico, não à toa reconhecido com uma indicação ao prêmio de melhor elenco no Sindicato dos Atores (SAG). “Capitão Fantástico” é um filme que alia a tristeza do estado das coisas, à esperança de que depende de nós, particularmente em nosso foro mais íntimo, ser o movimento de mudança no mundo.

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