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"Neruda" é o novo filme do chileno Pablo Larraín e se passa no tenso momento de Guerra Fria. Produção concorre ao Globo de Ouro

Depois de aprofundar-se sobre o passado do Chile com “No” (2012), Pablo Larraín  revisita a história chilena em mais um filme em que a realidade e a ficção se mesclam, mas agora, de maneira poética. “ Neruda ”, que estreia nesta quinta-feira (15) no Brasil, tem um enredo muito claro: a perseguição ao poeta comunista Pablo Neruda no Chile em tempos de Guerra Fria. Entretanto, apesar do cenário de conflito político intenso, o longa traz uma batalha existencial nebulosa que culmina em uma competição dos personagens pelo protagonismo da própria obra.

Luis Gnecco é uma versão arrogante e boêmia de Pablo Neruda em
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Luis Gnecco é uma versão arrogante e boêmia de Pablo Neruda em "Neruda"


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Interpretado por Luis Gnecco, Pablo Neruda é retratado como um homem cheio de charme, que consegue conquistar todos ao seu redor com a poesia que existe dentro de si. Senador pelo Partido Comunista, o poeta é um burguês que luta por um país menos desigual ao lado de colegas camponeses e operários. Entretanto, sua vida confortável que intercala a boêmia da classe alta de artistas e vanguardistas chilenos às discussões políticas no Senado é interrompida pela perseguição do policial Oscar Peluchoneau, que é vivido pelo ator mexicano Gael García Bernal.

Diferentemente de “O Carteiro e o Poeta” (1994), Pablo Neruda é um homem que quer e gosta de estar rodeado de pessoas e, repleto de arrogância, traça um plano de fuga com a visão de que entrará para a história pelos momentos que passou. Apesar de possuir uma personalidade completamente diferente do poeta, Oscar Peluchoneau compartilha o mesmo anseio de seu alvo e faz da perseguição a sua missão de vida. Entre cenas de grande suspense e outras de um sóbrio humor ácido, Oscar Peluchoneau se apaixona por Pablo Neruda, e o poeta pelo seu perseguidor.

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A paixão, todavia, não é de viés romântico. Neruda se entusiasma com a ideia de estar sendo perseguido e não demonstra medo ao perigo de vida que corre. Por ser rico, famoso e influente, as chances de ser preso ou até mesmo assassinado são muito menores que as de seus colegas, que são obrigados a temer a realidade enquanto o poeta se deixa participar de uma grande ficção policial. Já Peluchoneau, um homem que se fechou às aventuras e devaneios da vida, enxerga na situação uma oportunidade de tornar-se um grande policial e chega a invejar o seu inimigo pela facilidade que tem de conquistar o mundo.

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"Neruda" traz um conflito político e existêncial entre o poeta (Luis Gnecco) e o policial (Gael García Bernal)


O filme, portanto, não define quem é o protagonista da trama. Peluchoneau não aceita ser um personagem secundário enquanto Neruda se impõe como o principal. O que começa com uma história do que poderia ter de fato acontecido com o poeta anos antes de seu exílio na França, vai mudando de rumo conforme a aproximação do policial. Um vai criando o outro, mesmo que não intencionalmente, até um ponto limítrofe em que já não se sabe mais o que é realidade e o que é ficção.

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“Neruda” é uma obra em que política, arte e existência estão intrinsicamente conectadas. Com diálogos e frases poéticas, fazendo jus ao homenageado do filme, Pablo Neruda, a trama traz a tona uma angústia humana comum que é a do próprio sentido no mundo. As vívidas interpretações de Luis Gnecco e Gael García Bernal além da direção dramática de Pablo Larraín – que desta vez trouxe cores escuras para a tela – completam as questões trazidas pela obra que realmente tem o mérito de estar indicada como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro e representa o Chile na briga pelo Oscar.

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