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Grupo instrumental brasileiro lança seu primeiro disco no Brasil e relembra preconceito de músico francês contra brasileiros: "Foi muito constrangedor"

Depois de fazer sucesso na Europa tocando música brasileira, o quinteto instrumental Música de Selvagem celebra o lançamento de seu primeiro disco no Brasil. Mostrando o álbum homônimo, o grupo se apresenta em São Paulo neste sábado (22).

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O quinteto instrumental Música de Selvagem lança seu disco de estreia no Brasil
Divulgação/Rodrigo Mesquita
O quinteto instrumental Música de Selvagem lança seu disco de estreia no Brasil

Formado por Guilherme Marques, Arthur Decloedt, Filipe Nader, Amilcar Rodrigues e Cuca Ferriera, o Música de Selvagem usa ritmos e instrumentos bem brasileiros em seu som.

É daí, inclusive, que vem o nome da banda. O grupo ganhou essa alcunha depois de uma experiência bizarra vivida por Arthur Decloedt. Ele foi tocar uma música de Tom Jobim com um saxofonista francês em um festival no sul da França, mas o músico europeu não gostou nada da escolha da canção. "Ele disse que não estava muito contente de tocar essa 'música de selvagem'", contou Arthur em entrevista ao iG .

Apesar desse episódio, o músico acredita que a música brasileira é respeitada no exterior. "Os músicos gringos, em geral, respeitam muito a música brasileira", disse. "Talvez a imagem do Brasil, de uma forma mais ampla, seja muito caricata", explicou Arthur.

Na entrevista abaixo, Arthur Decloedt fala sobre o disco de estreia do grupo e a experiência na Europa: 

iG: Qual é a sensação de lançar um disco de estreia?
Arthur Decloedt: Muita gente diz que um disco é como uma fotografia, porque ele congela um momento especial da sua vida. Faz sentido mesmo. O nosso primeiro registro sonoro apresenta o primeiro repertório do Música de Selvagem e de uma forma geral, um pouco do que nós trabalhamos nesse primeiro momento do grupo. Isso é muito especial pra gente. Ele foi gravado com a formação inicial , ainda com o Marcelo Coelho e Celio Barros, que saíram do grupo um pouco depois dessa gravação. A gente ficou muito feliz de ter conseguido registrar essa primeira equipe. 

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iG: O que influenciou esse disco? O que vocês estavam ouvindo na época?
Arthur Decloedt: Cada integrante do Música de Selvagem tem as suas próprias influências, sua própria bagagem. Isso é muito importante para o grupo, porque nós trabalhamos de forma horizontal, todos tem voz ativa.
Eu e o Filipe trazemos bastante da jovem música experimental/contemporanea/jazz europeia porque moramos e trabalhamos na Europa durante anos.
Escutamos bandas como All Included, Atomic Jazz, ONJ, Ifa Y Xango, todos os grupos dos coletivos Tricollectif e Coax da França.
Escutamos também todo o tipo de música: erudita, jazz, música brasileira, pop, rock n'roll. Todos esses gêneros músicais (e outros também) estão presentes de alguma forma no nosso disco.

iG: Como foi a história que influenciou o nome da banda? 
Arthur Decloedt: O nome do grupo surgiu de uma historia vivida por mim. Há alguns anos atrás, quando eu ainda morava na Europa, fui tocar em um festival de jazz no sul da França, na catalunha francesa. Era uma apresentação com uma cantora de jazz e esse show iria contar com a participação de um velho saxofonista francês, muito importante e respeitado. Ele iria tocar com a gente uma música do Tom Jobim. Quando subiu no palco, ele agradeceu o público e disse que estava muito feliz com o convite, mas não estava muito contente de tocar essa "música de selvagem" (se referindo à canção de Tom Jobim). 
Foi muito constrangedor e de certa forma humilhante para mim, que era o único brasileiro naquele momento. Essa historia ficou ecoando na minha cabeça, me perseguindo durante muito tempo, até que um dia eu me perguntei "o que é uma música de selvagem?". Essa pergunta abriu uma nova porta. A questão já não era mais a música de Tom Jobim, que na verdade não é muito "selvagem", ao contrario é bem civilizada. 
Junto com a banda, fomos descobrindo que a verdadeira música de selvagem é incontrolavel, pode ser violenta e delicada ao mesmo tempo, bela e grotesca, hermética e super simples. Ela é principalmente viva e orgânica.

iG: Esse comportamento dos músicos gringos em relação à música brasileira é comum?
Arthur Decloedt: Os músicos gringos em geral respeitam muito a música brasileira. Talvez a imagem do Brasil, de uma forma mais ampla, seja muito caricata. Aquele estereotipo "o Brasil é uma grande selva", que carrega um preconceito que tudo que vem daqui não é tão civilizado. 
Essa ideia do nosso país infelizmente existe na Europa, principalmente na cabeça das pessoas mais velhas e conservadoras, como aquele velho saxofonista francês.

iG: Entre os fãs, como é a recepção em geral à música brasileira no exterior?
Arthur Decloedt: A música brasileira tem um público gigante no exterior. A nossa música popular é certamente uma das mais respeitadas e amadas no mundo, junto com a americana e a cubana.

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iG: Vocês acham que fazem mais sucesso na Europa do que no Brasil? Como é isso?
Arthur Decloedt: O nosso primeiro disco foi lançado em dois selos. O selo Risco aqui de São Paulo e o selo belga "El Negocito Records". O selo belga você tem grupos bem similares ao Música de Selvagem. Recebemos boas criticas vindas de lá, inclusive recebemos convites para se apresentar na Europa em 2017.  Acho que existe um público maior e mais formado para a música experimental e a improvisação livre na Europa e EUA.

Serviço

Música de Selvagem + Luiza Lian
Quando: sábado, 22 de outubro, a partir das 20h
Onde: Casa do Mancha (Rua Felipe de Alcaçova, 89 – Pinheiros)
Quanto: R$ 25

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