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Na estreia da nova temporada de "Black Mirror", o iG conversou com um especialista em inteligência artificial sobre os temas da série da Netflix

A Netflix estreia nesta sexta-feira (21) a primeira parte da terceira temporada de " Black Mirror ", série britânica de ficção científica que foi adquirida pelo serviço de streaming no ano passado.

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Especialista da IBM fala sobre distopias tecnológicas das primeiras temporadas de
Divulgação/Netflix
Especialista da IBM fala sobre distopias tecnológicas das primeiras temporadas de "Black Mirror"

Depois de entrar para o catálogo da Netflix, " Black Mirror " virou um sucesso mundial, mas não por sua história envolvente ou pela ânsia do espectador de assistir ao próximo episódio para ver como a trama se desenvolveria – até porque cada capítulo tem um script totalmente independente dos outros. O que prendeu a atenção na série de Charlie Brooker foram as distopias tecnológicas que ficavam mais absurdas a cada um dos sete episódios da série até agora. E o mais chocante de tudo isso é que as tecnologias e situações apresentadas na história estão mais perto da realidade do que a gente imagina.

Mesmo sem nunca ter assistido ao seriado, o Dr. Ulisses Thibes Mello é familiar com os conceitos tecnológicos de dois dos mais chocantes episódios das primeiras temporadas da série britânica. Diretor da IBM Research no Brasil e envolvido com o Watson, projeto de inteligência artificial desenvolvido pela empresa, Mello acredita que algumas das tecnologias mostradas em "Black Mirror" são possíveis de existir na vida real.

E se seus olhos fossem câmeras?

Um dos episódios mais famosos de
Reprodução
Um dos episódios mais famosos de "Black Mirror" mostra um aparelho que permite que as pessoas assistam suas memórias

Um dos episódios mais famosos da série é "The Entire Story of You", da primeira temporada. A trama mostra uma realidade alternativa onde as pessoas têm um pequeno aparelho implantado atrás da orelha que grava tudo que elas fazem, veem e ouvem. A qualquer momento, elas podem assistir às suas próprias memórias armazenadas no gadget.

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Para o Dr. Ulisses Thibes Mello, uma tecnologia como essa não está longe de ser produzida. "O fato de você estar gravando o que está vendo é tecnologicamente possível, mas isso é diferente de reproduzir suas reações", explicou o pesquisador em entrevista ao iG. Segundo ele, já existem dispositivos que gravam imagens e as transmitem direto para o cérebro. Um deles é fruto do projeto Argus II, que faz com que pacientes que sofrem de retinite pigmentosa, uma rara condição genética na retina que compromete a visão, enxerguem normalmente.

"Num futuro muito distante, será possível que uma máquina faça uma representação do cérebro, reproduza a maneira como ele funciona, e então você poderá fazer download disso", afirmou o cientista. "Entretanto, não será possível capturar sentimentos e reações, mostrar como a pessoa está se sentindo", esclareceu.

Robôs x humanos

O fato das emoções humanas não poderem ser armazenadas, reproduzidas ou emuladas através de máquinas também afeta a tecnologia que dá o tom do episódio "Be Right Back", da segunda temporada de "Black Mirror".

Na história, a personagem Martha fica viúva após um acidente de carro e compra uma espécie de robô para emular a presença de seu ex-marido. Ela conecta o humanoide às redes sociais do falecido esposo para que a máquina se comporte como o homem – e até adquira suas características físicas.

Em um episódio de
Reprodução
Em um episódio de "Black Mirror", uma viúva usa um robô para emular seu marido morto

"Tecnologicamente, isso é possível", confirmou o Dr. Thibes Mello. "Hoje a gente pode treinar uma máquina para ter respostas que seriam muito similares ao que aquela pessoa responderia", explicou. "Mas isso é diferente de trazer a pessoa de volta."

Um caso parecido com a da série de fato acontece na vida real. A empresa russa Luka criou uma plataforma online onde as pessoas podem criar sua réplica: elas conversam com um robô que logo aprenderá a maneira como seus donos respondem às coisas e imitarão. Essa é a base de toda a tecnologia de "Be Right Back".

Ética em primeiro lugar

Entretanto, a tecnologia esbarra na questão ética. "Há uma discussão ética muito profunda em torno disso tudo. Não é ético tentar humanizar um robô", explicou o Dr. Ulisses Thibes Mello. "A filosofia da inteligência artificial é fazer uma parceria com humanos", disse.

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O assunto também é explorado em "Westworld", série que está sendo exibida pela HBO. A trama de Jonathan Nolan gira em torno de um parque de diversões repleto de humanoides que interagem com seres humanos, mas não têm consciência de sua natureza. Uma das questões levantadas pela série é a tomada de consciência e de valores morais dos robôs.

"A ideia não é criar um robô que vai desenvolver sua própria personalidade. Ele tem conhecimento, mas não tem julgamento, não tem valores morais, e isso é o que sempre vai diferenciar o homem de uma máquina. Eu acho que jamais a máquina deve ser carregada com julgamentos morais", explicou o pesquisador. "Não temos intenção nenhuma de criar um robô para substituir um ser humano", disse. Tanto que a IBM e outras empresas que fazem pesquisas de inteligência artificial, como Amazon, Facebook, Google e Microsoft, assinaram recentemente um acordo sobre transparência, ética e equidade nesses projetos.

Os primeiros seis episódios da nova temporada de "Black Mirror", já disponíveis na Netflix, trazem outras tecnologias que prometem revolucionar a vida humana – e criar novas questões éticas e morais em relação a elas. Pelo andar da carruagem, a pergunta não é mais sobre a possibilidade dessas tecnologias de fato existirem, mas sim quando elas farão parte da nossa vida.