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Filme brasileiro em estreia nesta quinta-feira (22) traz Carolina Dieckmann atuando em espanhol e grande atuação de ator de "Relatos Selvagens"

Coprodução entre Brasil, Argentina e Uruguai, “O Silêncio do Céu” é um filme raríssimo em qualquer cinematografia. Extremamente autoral e interessado em investigar até mesmo a hipoderme de seus personagens, a produção adaptada do romance “Era el Cielo”, do argentino Sergio Bizzio , pelo próprio autor em parceria com Lucía Poenzo e Caetano Gotardo marca a segundo incursão solo na direção de longas-metragens do paulista Marco Dutra (“Quando Eu Era Vivo”).

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Carolina Dieckmann em cena de
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Carolina Dieckmann em cena de "O Silêncio do Céu", que estreia nesta quinta-feira (22)

Predominantemente falado em espanhol, o filme parte de uma tensa e irresoluta cena de estupro para desconstruir um casamento em crise silenciosa. É uma premissa tão corajosa quanto inusitada. Para não dizer poderosíssima dramaturgicamente. Mario, o excelente ator argentino Leonardo Sbaraglia , chega em casa e percebe que sua mulher, Diana ( Carolina Dieckmann ), está sendo violentada por dois homens. Sem ação, ele acaba não fazendo nada. Ele hesita sobre usar uma pedra ou uma tesoura para surpreender os agressores e acaba se demorando demais dando margem para que eles fujam. O que se sucede é tão ou mais surpreendente. Diana nada fala sobre o que aconteceu com o marido que quer ajudar, mas sente-se paralisado com a falta de diálogo. É compreensível a situação de Diana, entregue à vergonha e à raiva. Assim como é compreensível a apreensão de Mario, que não sabe exatamente como agir e tem a própria culpa para remoer.

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À medida que avança e no trânsito de pontos de vistas muito bem conduzido por Dutra, “O Silêncio do Céu” vai se reconfigurando como cinema – ainda que persista majoritariamente a sensação de que se assiste um thriller. De profunda reverberação dramática, mas um thriller de mistério com requintes de horror conjugal.

Mario se descobre refém de suas inseguranças em
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Mario se descobre refém de suas inseguranças em "O Silêncio do Céu"

Dutra é muito feliz nos signos e nos simbolismos visuais que utiliza. Repare no viés amedrontador da estufa em que os personagens compram plantas ou na pedra que permanece como se fosse invisível sobre uma mesa na casa de Mario e Diana. Apesar desses recursos riquíssimos da perspectiva da autoralidade, algo cada vez mais marcante no cinema do paulista, são os atores que respondem pela pujança dramática de “O Silêncio do Céu”.

Mario é um homem refém de seus medos. Surpreendentemente, a tragédia que acomete sua mulher o faz encará-los como jamais se propusera. Sbaraglia aborda seu personagem como um homem enlutado em um relacionamento que parece que ele tenta a todo tempo ressuscitar. Carolina Dieckmann esconde sua personagem enquanto o roteiro orienta e a revela, em bom português, em toda a sua fragilidade quando “O Silêncio do Céu” abraça suas intermitências e devolve aos personagens seus conflitos com muito mais potência e inquietação.

Irresoluto, “O Silêncio do Céu” é um filme paradigmático por muitas razões. Aborda a violência sexual com despudor incômodo e faz dessa violência catalisadora de um processo de resgate de um amor que talvez se perdesse para sempre se não fosse tal episódio. O brilhantismo do filme reside especialmente na construção do olhar do cineasta salpicado das dores e temores que invadem o íntimo de seus protagonistas.  Trata-se de um cinema inspirado que permanece a repercutir no público após a sessão configurando um êxito narrativo ímpar de qualquer ângulo que se observe.