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Grande diva brasileira, que completou 94 anos em 2016, continua com o desejo de estar no palco; postura admirada pelo jornal The New York Times

O Brasil tem alguns artistas que são referências internacionais. Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Chico Buarque e Seu Jorge podem ser citados como exemplos, mas nenhum deles ostenta a sofisticação e categoria de Bibi Ferreira, enunciada em matéria especial no The New York Times como “a grande dama do palco”do Brasil". A reportagem, que circulou no suplemento cultural do principal jornal dos Estados Unidos na segunda-feira (19), destaca a energia da cantora, atriz e diretora que permanece ativa aos 94 anos de idade.

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Bibi Ferreira
Divulgação
Bibi Ferreira

À publicação americana, Bibi Ferreira conta que as pessoas se preocupavam com sua idade avançada para continuar se apresentando aos 40 anos. Então aos 50 e aos 60. Aos 70, ela resolveu dar um basta. “Eu me sentia bem. Era uma tolice aquela preocupação. Eu agora tenho 94 anos e canto melhor a cada dia que passa. Eu entendo mais as coisas e sou melhor no trato com as pessoas. E, claro, eu ainda posso dar um show”.

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O interesse do The New York Times pela nonagenária e célebre artista brasileira é mais do que justificado. Filha do ator Procópio Ferreira e da bailarina Aída Izquierdo, Bibi criou-se fluente em espanhol e inglês, mas fala o inglês como se dela fosse língua pátria, como observa o jornal americano. Estreou como atriz em 1941 (com 19 anos) e, em 1944, já comandava a própria companhia teatral. O primeiro grande hit veio na década de 60 com a montagem de “My Fair Lady” ao lado do saudoso Paulo Autran . Em paralelo, brilhava em um programa na TV Excelsior.

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Foi Bibi quem precipitou a aproximação entre teatro e televisão que hoje caracteriza muitos atores da TV Globo. Suas digitais estão, ainda, nos grandes momentos da música brasileira. Nos anos 70, atuou ou dirigiu grandes espetáculos com nomes como Maria Bethânia, Chico Buarque e Clara Nunes. No teatro, dirigiu figuras cuja grandeza se tornaria maior que a vida como Walmor Chagas, Marília Pêra e Marco Nanini.

Bibi Ferreira em show realizado em maio de 2014 em São Paulo
Divulgação
Bibi Ferreira em show realizado em maio de 2014 em São Paulo

Já um grande expoente da dramaturgia nacional, Bibi Ferreira passou a ser requisitada para dirigir textos mais comerciais, o que não a impediu de dirigir dramas intimistas como “Um Rubi no Umbigo”, de Ferreira Gullar. Em 1983 lançaria um dos maiores espetáculos de sua carreira. “Piaf, a Vida de uma Estrela da Canção” ficaria em cartaz por seis anos, atingiria o público de um milhão de pessoas e ganharia montagem, inclusive, em Portugal - com direito a atores portugueses.

Os anos 90 foram dedicados à colheita dos frutos plantados. Foi uma década de muitos prêmios e afagos da crítica e de revisitar sua carreira. Mesmo assim, a artista permitiu-se ousar. Em 1999, dirigiu sua primeira ópera, “Carmem”, de Georges Bizet.

O novo milênio recebeu Bibi Ferreira na avenida. A maior dama do palco brasileiro virou tema de escola de samba e a Viradouro levou à Sapucaí o contagiante samba “Viradouro canta e conta Bibi – Uma Homenagem ao Teatro Brasileiro” em 2003.

Bibi Ferreira é destaque de página inteira no The New York Times
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Bibi Ferreira é destaque de página inteira no The New York Times

Às vésperas de completar 75 anos de carreira decidiu se reinventar mais uma vez e passou a montar espetáculos com o foco em um único artista. Alguns dos mais importantes nomes da música mundial receberam o tratamento vip que só Bibi Ferreira pode ofertar. Casos da francesa Edith Piaf, da portuguesa Amália Rodrigues e do americano Frank Sinatra.

Foi cantando Sinatra, inclusive, que debutou em Nova York com um show lotado e louvado pela crítica em abril de 2013. Piaf e Rodrigues, claro, também constaram do repertório. No mesmo ano, a biografia “Bibi Ferreira: Uma Vida no Palco” ganhou as livrarias de todo o País. Trata-se de um minucioso estudo da vida e obra dessa artista ímpar na cena cultural brasileira. No final das contas, teoriza com extrema humildade e sabedoria em depoimento ao The New York Times , “só há uma coisa em que você pode confiar. O aplauso”. E ele ainda se faz sentir toda vez que Bibi Ferreira sobe ou desce do palco.