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Wagner Moura e Pedro Pascal, que vive o detetive Peña, têm grandes atuações e ajudam a elevar o nível da ótima 2ª temporada de "Narcos"

Grande hit da Netflix , “Narcos” voltou para sua segunda temporada com a missão nada fácil de manter seus fãs – que são muitos - e calar detratores. São dois aspectos correlatos, mas que não necessariamente caminham juntos. Os dez episódios da primeira temporada, calcados majoritariamente no apelo exótico provocado por Pablo Escobar  (Wagner Moura), o primeiro grande lorde das drogas a ganhar as manchetes, e de como um país inteiro sucumbiu a sua persona, tinham o abono da novidade e, para o Brasil em particular, o charme da parceria entre José Padilha e Wagner Moura reeditada com propulsão internacional. A 2ª temporada já não conta com essa indulgência. O que acabou se mostrando como algo positivo.

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Cena da 2ª temporada de
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Cena da 2ª temporada de "Narcos", que já tem seus 10 episódios disponíveis na Netflix

Os produtores Eric Newman e Chris Brancato foram muito felizes no diagnóstico do que funcionou na primeira temporada e do que não funcionou. O off do detetive Steve Murphy ( Boyd Holbrook ), um recurso caro ao cinema de Padilha, desconcertante em tantos momentos, afetava o ritmo da série. Algo corrigido na 2ª temporada. Trata-se, agora, de um recurso mais pontual e preciso na atenção que clama ao olhar da audiência. “Narcos” se beneficia, ainda, da virada de foco. Murphy continua como o narrador e fio condutor da trama, mas são os dramas de Javi Peña, o excelente Pedro Pascal, que ganham relevo nessa nova leva de episódios.

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A segunda temporada cobre pouco mais de um ano da vida de Escobar e se dedica inteiramente à caçada cada vez mais burilada ao traficante depois de sua fuga de La Catedral. Esse recorte permite dois contextos que fazem muito bem ao show. O primeiro é observar a escalada de tensão ao qual Escobar é submetido, o que fornece a Moura um material mais pungente para trabalhar do que o que dispunha na temporada anterior. O confronto entre o Escobar monstruoso, cruel e irascível e o Escobar humano ganha mais propriedade, como atesta o espetacular quarto episódio intitulado “Os Bons, os Maus e os Mortos” .  O segundo contexto é uma bem-vinda movimentação política que era apenas mencionada pelos offs de Murphy no primeiro ano. Os interesses dos EUA na Colômbia ganham cara com a inclusão de novos personagens que dão outro tom à trama e preparam o terreno para a sequência da guerra às drogas na América Latina no pós-Escobar.

O conflito entre o Escobar que inspira medo, mas também afeto ganha relevo no 2º ano de
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O conflito entre o Escobar que inspira medo, mas também afeto ganha relevo no 2º ano de "Narcos"

A segunda metade da temporada alinha tanto a caçada a Escobar como a movimentação do cartel de Cali para ocupar o espaço deixado pelo narco-terrorista. Desnecessário dizer que a terceira temporada, ao menos como ponto de partida, vai abordar essa questão. Apesar de mostrar como a eliminação de Escobar foi um fato tomado como de orgulho nacional, “Narcos” já dá sinais de interiorizar um discurso de que a guerra contra as drogas é uma guerra que deu errado. A última cena da temporada, e um punhado de cenas dos dois últimos episódios, sugerem esse realinhamento.

Dilemas morais

A moral colombiana foi um tópico de extrema importância no segundo ano. Com o surgimento do grupo paramilitar Los Pepes , que tinha como objetivos eliminar Escobar e minar sua operação, foi tolerado com silêncio ensurdecedor pelo governo de César Gaviria (vivido com extrema categoria por Raúl Méndez). A Colômbia desceu ao nível de Escobar para sobrepujá-lo e a série, sem emitir um julgamento duro, expõe essa fratura moral com muita perspicácia. E mostra como a questão Escobar virou joguete político com as figuras do procurador-geral colombiano, o embaixador americano e um liso agente da CIA.

Os dilemas morais de Javi pautam boa parte do 2º ano de
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Os dilemas morais de Javi pautam boa parte do 2º ano de "Narcos"

É o dilema moral de Javi, e o preço que ele paga por isso, que mais apetece o espectador nesta segunda temporada. Pedro Pascal, ator de carisma nato e grande senso de tempo e espaço, dá a seu personagem toda a profundidade e complexidade necessárias para dimensionar seu drama. Constantemente frustrado, Javi vai perdendo a fé no sistema e é interessante observar os rumos que o personagem toma nesta temporada. Da influência do coronel Carrillo (Mauricio Compte) ao afastamento de Murphy, passando pelo flerte com o justiçamento, Javi Peña é a alma de “Narcos” nesta segunda temporada e é o que dá a série a melancolia necessária para abordar as fraturas de uma guerra perdida. Pelo menos no foro íntimo. 

Adeus a Escobar

Não é nenhuma novidade que o personagem de Wagner Moura morre nesta segunda temporada. A própria Netflix fez graça e marketing em cima disso. O Pablo Escobar de Wagner Moura surge aqui muito mais complexo, assustador e cativante. Méritos de um roteiro mais interessado no personagem do que em seus efeitos propriamente ditos. Mérito, ainda, de um ator devotado a sua causa e a causa de Wagner Moura durante pouco mais de dois anos foi Pablo Escobar. O prólogo do último episódio deste segundo ano mostra um devaneio de Escobar em que ele é eleito presidente da Colômbia. Trata-se de um recurso inteligentíssimo e que abarca muito bem quem era Escobar naquele momento. Um homem entregue a inflexões e ciente de que o fim estava por vir.

O adeus de Escobar é melancolicamente frio e anti-climático, mas precedido de muita tensão
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O adeus de Escobar é melancolicamente frio e anti-climático, mas precedido de muita tensão

Wagner Moura despede-se de um dos personagens mais impactantes de sua já memorável carreira com o ardor dos grandes intérpretes e “Narcos” se despede do personagem que ajudou a criar o hype em torno da série com um indefectível desapego. “O Diabo visto de perto não é tão interessante assim”, nos conta Murphy ao fitar o corpo sem vida de Escobar em um teto de Medelín. Há mais demônios à espreita e a série, mais do que nunca, parece saber exatamente como lidar com eles.