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Com quatro indicações ao Emmy 2016, a excelente 2ª temporada de "Better Call Saul" liberta série do fantasma do show estrelado por Bryan Cranston

Quando Vince Gilligan anunciou que faria uma série derivada de “Breaking Bad”  com o histriônico e querido Saul Goodman , personagem defendido com criatividade e categoria por Bob Odenkirk, muita gente torceu o nariz. Duas temporadas depois, “Better Call Saul” chega ao Emmy, ao qual disputa pelo segundo ano consecutivo, consagrada pela crítica e como um sucesso de público estabelecido e independente da série que lhe deu origem.

Cena de
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Cena de "Better Call Saul", que concorre a quatro Emmys em 2016

Com quatro indicações ao Emmy 2016 , cuja cerimônia será realizada neste domingo (18) em Los Angeles e terá transmissão da Warner Channel a partir das 20h, “Better Call Saul” conseguiu a proeza de sobreviver a cult e eventualmente hypada “Breaking Bad”. Aqui temos Jimmy McGuill antes de assumir a identidade de Saul Goodman e o temos como um malandro que vive de pequenos golpes que tenta se reabilitar como um advogado. Acontece que os métodos do golpista Jimmy espelham a prática do advogado Jimmy, o que gera uma série de estranhamentos entre ele e seu irmão Chuck (Michael McKean) com quem, conforme a segunda temporada do programa exibido no Brasil pela Netflix se ocupa de revelar, ele já não ostenta uma relação muito boa.

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Em essência, a série tem o mesmo objetivo da antecessora. Revelar como o protagonista vai de um ponto A ao B. Em “Breaking Bad”, a questão era ver a transformação de Walter White de pacato professor de química e homem de família em um rei do tráfico de drogas ou, como classificou o criador do show, “de Mr.Chips em Scarface”. Aqui, o objetivo é testemunhar a lenta mudança de Jimmy que, aos poucos, vai abraçando a figura de Saul Goodman e toda a picaretagem que ele representa. Não obstante, a série se incumbe de traçar um paralelo desse Jimmy antes e depois de Walter White. O que a princípio se articula como um mimo para os fãs de “Breaking Bad” vai ganhando relevância dramática conforme a série avança e deve se apresentar como o eixo dramático final do programa.

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O rabugento, mas divertido, Mike em cena de
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O rabugento, mas divertido, Mike em cena de "Better Call Saul"

A generosidade da série com seus intérpretes é algo de impressionante. Jonathan Banks , que interpretou o cáustico gangster Mike em “Breaking Bad”, tem chance de oferecer mais relevo ao personagem na nova série e seu Mike já se assegurou como um dos grandes atrativos de “Better Call Saul”.

Outro ponto nevrálgico do show é o constante desafio moral ao qual submete seus personagens. Nesse sentido, até mesmo personagens coadjuvantes como a advogada e interesse romântico de Jimmy, Kim Wexler – vivida pela excelente Rhea Seehorn –, ganham destaque. Na segunda temporada, por exemplo, forçada a conhecer a outra faceta de Jimmy, Kim precisa escolher os limites de sua relação com ele. E respeitá-los. 

Outro mérito da série que a aparta das comparações com “Breaking Bad” é sua capacidade de se resolver como um drama familiar robusto. O show estrelado por Bryan Cranston eventualmente ganhava ares de drama familiar, muita em virtude da vida em segredo mantida pelo protagonista, mas essa jamais fora a pretensão. Aqui, além do excelente estudo de personagem, o programa desenha um drama familiar vigoroso; já que a desestrutura familiar desempenha importante papel nessa transformação engendrada no íntimo de Jimmy.

Estudo de personagem e drama familiar:
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Estudo de personagem e drama familiar: "Better Call Saul" tem uma assinatura própria

Concorrendo a melhor série dramática, melhor ator e ator coadjuvante em drama e a melhor mixagem de som em drama, “Better Call Saul” já apresenta um desempenho melhor do que “Breaking Bad” em premiações, inclusive no Emmy. É lógico que o status alcançado pela antecessora ajuda, mas a série estrelada pelo excepcional e cada vez melhor Bob Odenkirk é capaz de caminhar com as próprias pernas. Tem inteligência e estofo suficientes para isso.