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Filme do cineasta Todd Phillips estreia nesta quinta-feira (8) nos cinemas brasileiros e traz humor negro como plataforma para um assunto sério

Desde que surgiu com “Caindo na Estrada”, um road movie esquisitão com Tom Green e Sean William Scott, Todd Phillips tem se mostrado um cineasta interessante. A trilogia “Se Beber, Não case!” , claro, o levou a um patamar diferente do de filmes como “Starsky & Hutch: Justiça em Dobro” (2005) e “Dias Incríveis” (2003). “Cães de Guerra”, seu primeiro filme após o término das aventuras de Phil (Bradley Cooper), Stu (Ed Helmes), Alan (Zach Galifianakis) e Doug (Justin Bartha), corresponde a esse reajuste de rota.

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Miles Teller e Jonah Hill fazem dois caras sem qualquer vocação para gangster que descolam contratos militares com o governo dos EUA
Divulgação
Miles Teller e Jonah Hill fazem dois caras sem qualquer vocação para gangster que descolam contratos militares com o governo dos EUA

O filme estrelado por Miles Teller e Jonah Hill preserva algumas características do cinema de raiz de Todd Phillips , como protagonistas imaturos, homens de família despreparados para assumir responsabilidades diante de um casamento, brodagem que precipita problemas com a lei, entre outros. Mas trata-se de um cinema mais crítico também. “Cães de guerra” não é fanfarronice apenas. Trata-se de um entretenimento com siso. Talvez por isso, ainda que seja bem engraçado, não apresenta a histeria de “Um Parto de Viagem” , por exemplo.

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Miles Teller é David Packouz, um sujeito bem insatisfeito com a vida que leva em Miami. Apesar da esposa linda e compreensiva, papel de Ana de Armas, ele se ressente da vida que leva como massagista dos endinheirados da ensolarada cidade da Flórida. Seu tino para empreender também costuma lhe deixar na mão. Eis que ressurge em sua vida um antigo colega de escola com uma proposta para lá de tentadora.

Mercadores de armas por acidente
Divulgação
Mercadores de armas por acidente

Efraim (Jonah Hill) venceu na vida. Pelo menos nos critérios desses garotões que se recusam a crescer na “neverland” de Phillips. Efraim deixou o passado de bullying para trás e se transformou em um mercador de armas que negocia contratos militares com o governo dos EUA. A coisa não é tão glamourosa como parece, mas parte da diversão de “Cães de Guerra” é deixar-se guiar pelo tutorial de Efraim.

De massagista a player na indústria armamentista, a viagem de 180º de David é muito bem adensada por Phillips, que assina o roteiro junto com Stephen Chin e Jason Smilovic a partir de um artigo publicado na revista Rolling Stone chamado “Arms and the dudes”. Sim, a história francamente surreal de “Cães de Guerra” é baseada em fatos reais e a cada nova reviravolta,  tudo fica muito mais divertido sob essa perspectiva.

Todd Phillips se arma de cinismo e humor negro para desbravar muito do que está errado na cultura americana nesses tempos em que se prega revisão do direito constitucional ao porte de armas. Não apenas por esse prima, mas também pelo viés do sonho americano. Tanto Efraim como David são sintomas das distorções que o famigerado sonho americano produz pelo caminho.

Produtor do filme, Bradley Cooper faz uma pequena participação como um traficante de armas na lista de terrorismo internacional
Divulgação
Produtor do filme, Bradley Cooper faz uma pequena participação como um traficante de armas na lista de terrorismo internacional

Teller e Hill estão muito bem como esses dois jovens inconsequentes que admiram “Scarface” e tentam emplacar suas idílicas versões de “thug life”. Hill, em particular, dá um show. Ele cria um sujeito pouco simpático, mas ainda assim magnético. Além do mais, reveste seu Efraim de cacoetes plenamente reconhecíveis pelo público – o que torna acompanhá-lo um prazer ainda maior.

É verdade que “Cães de Guerra” não é um filme de Barry Levinson ou Sidney Lumet e se o final deixa isso bem claro, salienta, também, que Todd Phillips não só continua um cineasta interessante para se observar, mas pode vir a ser a referência que hoje lhe desfavorece em um futuro bem próximo.