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Filme de ação ganha estofo dramático ao mostrar personagem do ator arrependido por pecados do passado e disposto a corrigi-los com sangue

John Link ( Mel Gibson ) é um veterano de guerra, alcoólatra em recuperação e ex-presidiário em condicional. Ele não se sente bem com a própria vida, toda fraturada, e vive de fazer tatuagens em um deserto distante e de ouvir os conselhos bem-humorados de seu padrinho ( William H. Macy ) dos Alcoólatras anônimos. Um belo dia, ele recebe a ligação de sua filha ( Erin Moriarty ), que fugira de casa e se envolvera com traficantes mexicanos. Tragado para dentro dos problemas da filha, com quem tem zero relação, ele se vê forçado a resgatar hábitos do passado para vislumbrar alguma chance de redenção.

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Mel Gibson só quer ficar em paz em
Divulgação
Mel Gibson só quer ficar em paz em "Herança de Sangue"

É o tipo de personagem que Mel Gibson faz com a mão nas costas. Dirigido pelo francês Jean-François Richet (“Inimigo Público nº 1”), “Herança de Sangue” é um filme de ação sem grandes ambições, além de deixar Mel Gibson à vontade para exercer seu fascínio. Há, no ínterim da fuga de pai e filha, uma história de reaproximação entre o pai que esteve preso e a filha que jamais se sentiu prioridade em uma família que parece não ter existido de fato. É aí que Mel Gibson faz toda a diferença. Além de mandar muito bem nas cenas de ação - e elas são em menor número do que muitos podem supor – Gibson reveste seu personagem, e o conflito em que ele se flagra, de tanta relevância dramática que por vezes pensamos estar vendo um drama, não uma fita de ação tão convencional.

Pai e filha em fuga em
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Pai e filha em fuga em "Herança de Sangue"

 Adaptado do romance de Peter Graig pelo próprio em parceria com Andrea Berloff, “Herança de Sangue” repisa alguns dos elementos presentes nos últimos filmes estrelados por Gibson, como “O Fim da Escuridão” (2010) e “Plano de Fuga” (2013). É como se Mel Gibson soubesse que não há no cinema atual um ator capaz de aliar drama, cinismo e ação com tamanha desenvoltura. Jason Statham talvez seja quem chegue mais perto.

“Herança de Sangue” se destaca, ainda, por ofertar esse Mel Gibson em busca de redenção. É claro que se trata do personagem, mas John Link claramente carrega ecos dos arrependimentos do ator . Essa habilidade de turvar real e ficção, mesmo que pelo olhar tendencioso da crítica de cinema, transformam filme e astro em algo muito mais atraente.