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Diretor do filme "Vidas Partidas" fala sobre motivações do filme que está nos cinemas no momento em que a Lei Maria da Penha volta à pauta. Ele revela bastidores da produção que aborda violência doméstica com coragem

Dono de uma longa trajetória na televisão, onde dirigiu novelas como “Laços de Família” (2000), “O Clone” (2001) e “Salve Jorge” (2012), Marcos Schechtman estreia no cinema com ambição e ousadia. “Vidas Partidas” , um drama sobre violência doméstica que começa com uma demorada e tensa cena de sexo, não é um filme de encomenda. “Evidentemente é um tema relevante, mas qualquer tema depende da forma como ele é proposto e o que me motivou foi o approach do roteiro (assinado por Zé Carvalho) e fazer um trabalho fino, que saísse da clave do melodrama, do folhetim e mais antenado com o cinema de hoje em dia”.

Cena de
Divulgação
Cena de "Vidas Partidas", já em cartaz nos cinemas brasileiros

Estrelado por Domingos Montagner e Naura Schneider, “Vidas Partidas” foge do lugar comum por problematizar a dinâmica de uma relação abusiva.  “O fio emocional condutor foi em cima dessa estrutura psicológica”, explica Schechtman. “Não conheço nenhuma história de violência doméstica que não seja a dois”, observa o cineasta quando indagado pela reportagem do iG se não temia que seu filme fosse mal interpretado por iluminar tanto o personagem masculino, do agressor, quanto o feminino, o da vítima. “O interesse aqui era equilibrar os dois lados; mas como ele é o polo dominante, controlador, ele tem uma atitude ativa, não que ela seja passiva, mas ele é um dominador”, teoriza o cineasta. Essa foi uma discussão longa que nós travamos. ‘Será que a gente vai ser mal interpretado?’ De jeito nenhum, é uma condenação peremptória”.

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Schneider, que além de protagonizar, produz o filme, concorda. “Fizemos uma preparação de quase três meses e construímos uma cumplicidade muito boa para a dinâmica do casal e daquela convivência”, explica sobre o trabalho com Montagner. “Estávamos muito dispostos e despidos. Acreditávamos de verdade naqueles personagens”.

Domingos Montagner vive o marido agressor
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Domingos Montagner vive o marido agressor

Todo o filme foi esboçado em debates com consultores, produtores e elenco, admite o cineasta. “Aquela cena de sexo deles (do começo do filme) não teve improviso. A gente ensaiou, discutiu aquilo”, observa. “A maneira como ele se relaciona sexualmente com a Graça é uma e com a amante, é outra; e a gente queria revelar essa diferença”.

O cineasta explica que Raul, personagem defendido por Montagner, é um sujeito que opera dentro de certo módulo de repetição. “Imaginamos que esse cara teve uma mulher lá atrás, teve a Graça, tem a amante e provavelmente teria outra”, sugere. “Em tempos que sadomasoquismo light é blockbuster, você até pensa que esse casal está com uma vida sexual nas alturas, fetichista, mas é ele exercendo toda a dominação dele. Já com a amante, ele é solar. É o lado professor, sedutor dele. Com ela, apesar dele também ter essa dominação, ele a exerce de outra maneira.”

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A preocupação de Schechtman com a construção cênica dessa relação abusiva foi intensa. “A gente manteve uma luz filtrada dentro da casa como se ele dominasse até a luz que entra dentro da casa”, revela.

Com a amante, um homem mais solar, mas ainda dominador
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Com a amante, um homem mais solar, mas ainda dominador

No entanto, o cineasta, que demonstra não se incomodar com perguntas que problematizam sua obra, ratifica que “Vidas Partidas”, apesar de condenar com veemência o quadro que expõe, se preocupa em desconstruir a tônica de uma relação nesses termos. “Existe um sentimento de posse muito grande por parte do Raul. Mas tem aquela cena da troca de olhares quando ela volta do hospital. É uma coisa louca que ela parece encantada ‘esse cara me ama’. É um amor, um amor doentio, mas é um amor”.

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