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Ao rejeitar verdades absolutas e problematizar psicologia de uma relação abusiva, filme se consolida como opção rara no cinema brasileiro atual

É comum nos depararmos com a queixa de que o cinema com agenda social pode ser aborrecido, mas “Vidas Partidas” é uma opção para quem precisa treinar o olhar. Dirigido por Marcos Schechtman , que tem longa e bem estabelecida carreira como diretor na televisão, o longa-metragem aborda com franqueza incômoda e profundidade surpreendente um drama que aflige o cotidiano do país e da sociedade moderna como um todo: a violência doméstica. 

Cena do filme
Divulgação
Cena do filme "Vidas Partidas", que estreia nesta quinta-feira (4)

Domingos Montagner vive Raul, homem com doutorado em ciências sociais que se flagra desempregado na Recife dos anos 80. Graça ( Naura Schneider ) é a mulher que trabalha fora, se veste bem e é carinhosa e atenciosa com o marido. Eles têm duas filhas e tudo parece se encaixar bem no convívio do casal. Aos poucos, porém, o ótimo roteiro de José Carvalho (“Bruna Surfistinha”, “Como Esquecer”) vai revelando uma tensão crescente, muito bem sublinhada pela delicada direção de Schechtman.

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A primeira cena do filme, uma cena de sexo em que Raul domina Graça com brutalidade e rudeza, apresenta os personagens com sutileza e propriedade ímpares e estabelece o tom para o que veremos a seguir. Um estudo muito bem elaborado da psicologia de uma relação abusiva.

A grande sacada do filme, que de repente se descobre um drama de tribunal, é brincar com as expectativas do público em relação a um caso de violência doméstica. Não está em discussão se Raul é um agressor ou não, o filme aponta isso com muito saliência; provoca-se o público a posicionar-se a respeito de até que ponto é tolerável o tipo de comportamento agressivo verificado em Raul. A estratégia narrativa utilizada pela realização para remover a audiência de sua zona de conforto é essencialmente brilhante e pouco vista no cinema brasileiro recente que se pretende mais comercial. Schechtman lança mão de um jogo de perspectivas e expectativas sofisticado, da edição às atuações, e convida o público a participar do drama de Raul e Graça de maneira mais ativa.

Cena do filme
Divulgação
Cena do filme "Vidas Partidas", que estreia nos cinemas em 4 de agosto

O filme tem o mérito, ainda, de abraçar certos clichês que vemos frequentemente na dramaturgia que aborda o tema, apenas para problematiza-los mais adiante. Um recurso narrativo que ganha em inteligência ao rejeitar absolutismos; aceitando a complexidade da questão. Não à toa, o slogan do filme indica: “poderia ter sido uma história de amor”. Esse futuro do pretérito é pormenorizado em angústias e conflitos internos dos personagens, mas também entre eles.

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Montagner é um dínamo em cena. Evocando os melhores momentos de um Marlon Brando sob o jugo de Elia Kazan , exala a virilidade mais perturbadora. Aquela que seduz, mas também assusta. Ao construir seu Raul, rejeita a caricatura e aceita a verdade do personagem, uma que só se revela para o público no final do filme. Já Naura Schneider é uma presença demolidora. Capaz de expressar vulnerabilidade e força em uma mesma cena, impõe a Graça toda a complexidade de uma mulher que ama seu marido, mas sente a necessidade de afastar-se dele.

“Vidas Partidas” é um filme muito bem emoldurado. Cumpre uma agenda social relevante, é dramaticamente vistoso e esteticamente vigoroso. É um cinema que costumamos elogiar muito na Argentina, França ou Itália e que não costumamos prestar atenção quando aparece por aqui.

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