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Autor que passou três anos longe de Paraty leu trechos de seu novo livro e comentou, com bom humor, sua própria vida

O relógio marcava 17h15 desta sexta-feira (1) quando uma ansiedade que pairava por Paraty há três anos finalmente acabou. Após uma "abstinência" que durava desde 2013, quando cancelou sua participação na Flip, o escritor norueguês Karl Ove Knausgard veio para lançar, em solo brasileiro, “Uma temporada no escuro”, pela Companhia das Letras, o quarto volume da série que o transformou em um dos queridinhos do público.

Karl Ove Knausgård  participou da Flip após três anos de 'abstinência' sem participar do evento
Anneli Salo/Creative Commons
Karl Ove Knausgård participou da Flip após três anos de 'abstinência' sem participar do evento

Para se ter uma ideia, o autor vendeu mais de 700 mil cópias na Noruega, ganhou resenhas elogiosas dos principais jornais do mundo e teve sua obra traduzida em 22 línguas, inclusive no Brasil.

O livro relata a trajetória do próprio Karl, durante um ano, em um povoado da terra natal onde trabalhou como professor. Porém, não é a carreira acadêmica que vem à tona na narrativa. Sua vida sexual – ainda que escassa – e o envolvimento com bebidas – em grandes proporções – relatam sua trajetória de forma intensa.

“Quando via uma garota, estava em frente ao abismo. Se me atirasse, o que poderia acontecer? Ela sentia minha insegurança e fugia. Eu era um garoto de uma família tradicional, totalmente reservada, buscava a libertação. Precisava encarar a vida”, comenta Knausgard.

O bate-papo, que contou com mediação de Ángel Gurria–Quintana, colaborador do Financial Times, começou com Karl lendo trechos da obra e iniciando discussão sobre sexualidade, adolescência e inspirações para o roteiro do livro. A cada nova linha ditada, o público sentia-se dentro da própria história.

“Sinto a reação das pessoas. Muitas até choram quando falam comigo. Elas não se sensibilizam pelo livro, mas se colocam como parte integrante. Elas vivem o personagem, se identificam”, pontua.

Questionado sobre buscar aprovação das pessoas, a todo momento, Karl afirmou que o livro foi um refúgio. Através da escrita, ele foi para onde quis, sem se preocupar com a opinião de familiares. “Nesse livro eu tento dizer a verdade, mas sempre buscando aprovações. Era a minha missão. Eu precisava”.

A discussão sobre o gênero do romance finalizou os temas debatidos na sua participação. Na Noruega, todos o consideram como um romance, já nos Estados Unidos, os críticos classificaram como biografia. Karl, com muito bom humor, explica a essência de “Uma Temporada no Escuro":

“Na biografia, seria uma linha cronológica. Eu teria que narrar, passo a passo, todos os detalhes do meu dia, com verdades. No romance eu posso transformar cinco minutos em 50 páginas. Posso ir além. Coloco um tempero onde na verdade fora frustração”, finaliza o autor.