Tamanho do texto

Cantora falou ainda sobre seu divórcio, influências para o novo disco e indignação com o cenário político: "Retrocesso"

Fernanda Abreu lançou seu primeiro disco de inéditas desde 2004 no último dia 20. Com “Amor Geral”, a carioca volta de vez reunindo influências de diversos estilos musicais e inspirações de mais de uma década de aprendizados profissionais e pessoais. Ao iG Gente , a cantora falou sobre seu retorno ao estúdio, o que a impediu de voltar antes e por que “Amor Geral” é, acima de tudo, um manifesto pessoal e político. 

Fernanda Abreu
Gui Paganini
Fernanda Abreu

iG: Por que a escolha de voltar agora?

Fernanda Abreu: Eu não diria muito que escolhi, foi o tempo que precisei para fazer esse álbum. Fiz o último de inéditas em 2004, o “MTV Ao Vivo”, porque eu nunca tinha feito nenhum registro ao vivo - nem em CD, nem em DVD - e era importante para mim. Em 2008 seria natural lançar um novo trabalho, mas aí minha vida pessoal entrou em um turbilhão. Eu me separei de um casamento de 27 anos [do designer Luiz Stein ]. Ao mesmo tempo, minha mãe entrou em coma, o que também me fez pensar um pouco mais sobre o que era isso, de sua mãe não estar nem morta, nem viva. Tudo isso me fez não acelerar a minha vontade de voltar para o estúdio e passei a priorizar o ao vivo, que é o que faz a gente sobreviver, pagar as contas, etc.

iG: Como ficou sua carreira durante esse tempo?

FA: Foi um período muito produtivo de shows ao vivo e de outros fonogramas [Fernanda pretende lançar em breve um disco com músicas já conhecidas da MPB]. Mas meu disco de carreira mesmo veio agora com “Amor Geral”, inspirado também nesse meu momento. Acho que todo artista precisa dessa verdade para compor, para se inspirar, não só em letra, mas de atmosfera, de arranjo, discos, produção. A vida vivida pela gente é uma fonte de inspiração e saiu esse CD.

iG: Como você analisa a mudança no cenário musical nesse período?

FA:  A música está passando por um processo de transformação muito profunda desde 2000 até os dias de hoje. A gente viu uma pirataria forte no começo dos anos 2000, passamos por uma tentativa de compra de música via internet - que não foi muito bem sucedida porque boa parte das pessoas começou a baixar de graça - e chegamos agora na situação de música alugada, que é o streaming, em que você tem um catálogo com 30, 40 milhões de músicas e você paga uma mensalidade, mas ela não é sua, você está alugando.

iG: De onde vieram as influências musicais do álbum?

FA: Eu quis fazer um disco que mantivesse minha essência musical, que é brasileira, carioca, que tem a ver com samba, funk, instrumentos orgânicos como guitarra, bateria, teclado, baixo, cordas, mas queria misturar, queria dar um passo à frente. Não queria voltar com um CD musicalmente requentado. Conheci muitos produtores e DJs novos, uma galera de 20 e poucos anos, e comecei a trabalhar com alguns deles. Eu fui mais ou menos direcionando e conduzindo esses arranjos e produção para que nunca saísse totalmente do meu perfil, para não ficar um disco esquizofrênico. Fui misturando parceiros antigos com gente nova. Foram dois anos produzindo esse disco e chegamos nesse resultado final.

iG: Você se sentiu pressionada a mudar seu som e imagem ou foi uma vontade sua?

FA: Todo artista tem que ter vontade de se reinventar, dar um passo à frente, porque se não, qual é a graça? A gente já faz um trabalho que não é tão bem remunerado e, se não for pra você ter prazer e se desafiar um pouco... Para mim era uma necessidade, uma vontade pessoal. Sempre gosto de me colocar uns desafios. É um disco muito mais trabalhoso por ter que trabalhar em dez faixas com seis pessoas diferentes, mas em compensação, para mim, é muito mais rico.

iG: Por que a escolha de “Outro Sim” como primeiro single?

FA: Essa é uma música-manifesto, ela vem com uma pegada que era importante mostrar nessa volta em que eu não estava na mídia apresentando algum trabalho novo. Foi importante essa música ser a primeira porque ela já mostra um pouco, em termos musicais, do que vem de arranjo e produção, além do papo dela sintetizar o disco. A letra tem uma pegada que pode tanto estar falando de uma coisa pessoal, como coletiva. Essa pegada de falar do particular e coletivo é a onda do disco porque tem uma coisa inspirada na minha vida pessoal. Nesse momento que a gente está vivendo agora, que é totalmente de intolerância, de ódio e de agressividade, nada mais antídoto para mim do que chegar com um disco falando de amor,  respeito, tolerância às diferenças.

iG: Como está encarando o cenário atual do país?

FA: Acho o fim da picada, um retrocesso. A agenda social humana - de direito das mulheres, pelo direito ao aborto, discutir drogas, contra a homofobia, a liberdade de amar quem você quiser, liberdade de constituir a família que você acha que é a sua, contra o racismo, a favor das diferenças religiosas, tudo isso - é muito importante, não só a agenda econômica. Esses assuntos são fundamentais, não podem ser guardados atrás de uma porta tipo 'agora ninguém mais fala disso, agora só se fala de economia'. A democracia e o capitalismo, se forem os sistemas politico e econômico, têm que ser refundados, porque não está dando conta da humanidade.