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Ator, que está em cartaz com a peça "Histeria", falou sobre seu personagem, o momento atual e "Castelo-Rá-Tim-Bum"

Salvador Dalí tinha uma personalidade complexa. Ele herdou o nome de seu irmão mais velho, que morreu antes dele, e sempre que ia ao cemitério, era como se visitasse o próprio túmulo; gostava de falar sobre si mesmo na terceira pessoa e criar uma espécie de persona. É esse personagem que Cássio Scapin assumiu na peça "Histeria", que retrata um encontro entre Salvador e o psicanalista Sigmund Freud . Em entrevista ao iG , ele fala sobre seu papel, o momento político atual e a eterna lembrança como Nino de "Castelo Rá-Tim-Bum", da TV Cultura.

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Cássio Scapin interpreta Salvador Dalí em
Reprodução/Facebook
Cássio Scapin interpreta Salvador Dalí em "Histeria"

"O Dalí é um personagem muito divertido de fazer, você não tem compromisso com criar uma realidade, um Dalí perfeito. Fomos muito mais em cima do que a obra dele representa. Ele cria uma persona, uma máscara", conta Scapin, convidado a integrar o elenco da montagem por Jô Soares, que assistiu à uma versão do texto na França e decidiu dirigir a peça.

De autoria do dramaturgo britânico Terry Johnson , o espetáculo faz um contraponto entre a psique humana e o delírio imaginado, simbolizados nas figuras dos dois intelectuais. Para o ator, tal conflito conversa com a realidade atual, ainda mais levando-se em conta a situação político do Brasil. 

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"A peça também vai falar do universo do Freud em um momento que ele está sofrendo por conta da intolerância ao judeus. Hoje também sentimos esse grande momento da intolerância, estamos tendo mundialmente uma guinada à direita, de conservadorismo. A gente vive um momento no País de quase surrealismo que, querendo ou não, acaba influenciando na psique do cidadão. É muito difícil lidar com essa alternância da realidade tão rapidamente, acho que todos ficamos com algum tipo de prejuízo neste embate."

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Ele conta como é ser dirigido pelo apresentador. "É uma delícia, eu fico brincando que o Jô é um dínamo, um cavalheiro, um homem cultíssimo. A possibilidade que você tem de aprender com ele em vários níveis é fantástica, virou um grande amigo”.

Teatro 

Cássio Scapin, Pedro Paulo Rangel e Erica Montanheiro na peça
Reprodução/Facebook
Cássio Scapin, Pedro Paulo Rangel e Erica Montanheiro na peça "Histeria"

Com extensa carreira no teatro, Cássio já foi muito premiado por seus trabalhos no palco por conta de atuações marcantes em trabalhos como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “O Mistério de Irma Vap”.

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Ele afirma que os palcos se transformaram em uma parte necessária de sua vida: “Eu comecei a fazer teatro com 16 anos, tenho 51, foi muito mais de metade minha vida, fiquei mais sendo ator do que qualquer outra pessoa. Já aconteceu de eu estar fazendo três espetáculos por dia, acho que tenho mais horas de palco do que de civil (risos). Não consigo mais me descolar de ser ator, se não estiver atuando não estou vivendo. Sempre acho que estar no palco é um descanso da sua própria pessoa”, analisa.

"Castelo Rá-Tim-Bum"

O elenco da série infantil
Divulgação/TV Cultura
O elenco da série infantil "Castelo Rá-Tim-Bum"

Seu personagem mais conhecido é o Nino do infantil "Castelo Rá-Tim-Bum". O premiado programa fez sucesso entre crianças e cativou gerações, tanto que 20 anos depois ganhou uma exposição no Museu de Imagem e Som de São Paulo (MIS), batendo diversos recordes.

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Cássio revela que no início se incomodou um pouco por ser tão reconhecido pelo personagem, mas acabou percebendo a importância que Nino teve para muitas pessoas. "Teve um período que era difícil. Eu falava: ‘Poxa, não vou sair daqui? Será que vou ficar estigmatizado?’ Mas com o passar do tempo, eu fui entendendo que teve uma penetração tão positiva nas pessoas, ocupou um lugar de carinho e afeto, que isso começou a ser prazeroso. Fico emocionado às vezes, porque encontro um cara de barba com uma criança no colo que fala: ‘Eu te assistia quando era criança, meu filho está vendo’. 'Castelo Rá-Tim-Bum' formou aí umas três ou quatro gerações, e não há quem assistiu que me encontre e não fale: ‘Muito obrigado, você fez minha infância mais legal’. Isso me dá uma certa sensação de missão cumprida", relata.